terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DEZ LIVROS SOBRE MÚSICA





Geralmente se diz que a questão da música se resume à preferência pessoal, o que é evidente: todas as paixões humanas estão relacionadas a um jogo de favoritismo e subjetividade.
Mas haverá sempre o esforço de descrever ou narrar a saga histórica, biográfica e objetiva da música. A música e sua circunstância criam consideráveis capitais simbólicos, culturais, éticos, estéticos. Festivais, tendências, comportamento, poesia e atitude: todas essas variáveis implicam em narrativas interessantes. Artistas criam bunkers sociais e culturais que mobilizam gerações. Outros fabricam sua "lenda" de forma a influir na retroalimentação de uma mitomania.
Alguns livros sobre música são, em minha opinião, fundamentais. Me desafiei aqui para, entre os livros mais decisivos sobre a música pop, destacar alguns por motivos objetivos: historiografia, narrativa, documento social, exercício estético, científico ou manifesto cultural. Uma bibliografia básica (com auxílio de alguma pesquisa) para a introdução à música com explicação.


MATE-ME POR FAVOR - (Legs McNeil e Gillian McCain, L&PM, 1996). Um dos principais livros sobre o movimento punk , inventário dos anos 70 e da chamada Blank Generation, com entrevistas intercaladas como se fossem um papo em que os personagens são Iggy Pop, Patti Smith, Joey Ramone, Debbie Harry e Malcolm Mclaren. Passeando desde a Factory de Andy Warhol até o Max's Kansas City (nightclub e restaurante no 213 da Park Avenue, em NYC, que foi bunker de artistas nos anos 60 e 70), chegando à Inglaterra operária dos anos 80, os autores Legs McNeil e Gillian McCain inventariam o que significou o movimento. McNeil batizou o movimento punk em 1975, ao dar este nome a uma revista de música e cultura pop dos anos 70. Foi editor da Spin e editor-chefe da Nerve. Gillian McCain foi coordenadora de programação do Poetry Project na St. Mark’s Church, onde Patti Smith fez suas primeiras leituras e os diários de Jim Carroll foram descobertos. Passeando por uma trip de sex, drogas, morbidez e cultura pop, o livro inicia com a terapia de eletrochoque que Lou Reed, internado pelo próprio pai pela natureza contestadora, recebeu num manicômico, e passa pelas mortes de Sid Vicious, Johnny Thunders e Nico, além das aventuras sexuais de gente como Dee Dee Ramone. Construído como uma história oral, o livro parece aproximar experiências e artistas que, de fato, estavam vivendo tudo aquilo em momentos distintos. O mítico Richard Hell, da banda Television, resumiu a natureza das bandas punk da época: “A coisa toda era para ser tão chocante quanto desagradável e tola”.

O RESTO É RUÍDO - Alex Ross (Companhia das Letras, 2009). Alex Ross sustenta, em O Resto é Ruído, que a música erudita de hoje seria a música da cantora islandesa Björk. Para o autor, a música dela ocupa espaço análogo àquele que, no século 19, era domínio dos compositores românticos. Crítico brilhante, Alex Ross passou, nesse gigantesco ensaio, da Viena da virada do século até a Paris dos anos 1920; da Alemanha de Hitler e da Rússia de Stálin à Nova York dos anos 60 e 70, mesclando o erudito e o popular, a música e a política. Analisou das obras do maestro Daniel Barenboim ao rock do Sonic Youth, Bob Dylan e o som minimalista de Philip Glass. O resultado foi celebrado com a indicação de Ross para o prêmio Pulitzer de 2008 e para o prestigioso Samuel Johnson Prize. Considerado um dos melhores livros de 2007 pelos jornais New York Times e Washington Post e pela revista The Economist, O resto é ruído foi vencedor dos prêmios National Book Critics Circle Award (2007) e Guardian First Book Award (2008).

LADY SINGS THE BLUES (Billie Holiday e William Dufty, 1956, Brasiliense/Jorge Zahar). A cantora Billie Holiday (1915-1959) publicou esse livro apenas três anos antes de sua morte. Não é só uma obra sobre a aura do jazz, mas sobre a grandeza de uma artista. “Já me disseram que ninguém canta a palavra 'fome' como eu. Ou a palavra 'amor'. Talvez seja porque eu me lembre do significado dessas palavras", ela escreveu — ou "ditou" — para seu ghost writer, William Dufty, o amigo que a acompanhou até o fim. A mãe de Billie a teve com apenas nove anos. Aos 12 anos, ela perdeu a virgindade com um trompetista de uma big band, prostituiu-se aos 13 anos.Em plena Depressão, então com 15 anos, Billie largou a vida de prostituta e foi viver com sua mãe no Harlem. Um dia, pedindo emprego pelos lados da Sétima Avenida, entrou na Rua 133 e num lugar chamado Pod's and Jerry's. Disse que era dançarina e queria um emprego. O proprietário a mandou dançar perto do pianista. "Comecei, e foi uma coisa deplorável", ela lembra. Então, o sujeito perguntou: "Garota, você sabe cantar?". Ela respondeu: "Claro que sei cantar, mas de que adianta isso?". Ele insistiu, ela pediu ao pianista que tocasse 'Travelin' all alone'. A boate inteira ficou em silêncio. "Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja, e apanhei trinta e oito dólares no chão".

KIND OF BLUE - A HISTÓRIA DA OBRA-PRIMA DE MILES DAVIS - Ashley Kahn (Barracuda, 2007) - Sobre "Kind of Blue", o crítico Jerome Maunsell, do Observer, escreveu o seguinte: “No dia 2 de março de 1959, às 2h30, sete músicos entraram no estúdio da Columbia na East 30th Street, em Nova York, e emergiram seis horas depois com aquilo se tornaria o primeiro lado do disco Kind of Blue. Os sete músicos (Miles Davis, Gil Evans, John Coltrane, Cannonball Adderley, Paul Chambers, Jimmy Cobb e Wynton Kelly) retornaram algumas semanas depois e em outras três horas poliram o segundo lado”. Aquela imersão dos músicos de "Kind of Blue" mudou a história do jazz, influenciou milhares de outros artistas pelo mundo e o álbum tornou-se o mais ouvido do gênero em todos os tempos. O biógrafo norte-americano Joseph Frank (1918 – 2013), autor da biografia do autor russo Fiódor Dostoiévski, acreditava que as obras de Dostoiévski só eram inteligíveis na medida em que o leitor conhecesse o contexto histórico em que foram produzidas. Esse livro faz esse trabalho.

MYSTERY TRAIN: IMAGES OF AMERICA IN ROCK’N’ROLL MUSIC, de Greil Marcus (1975). Um dos mais prolíficos e elegantes críticos de rock, Greil Marcus influenciou a escrita de gerações mundo afora a partir de uma perspectiva cultural da produção de música. Esse livro é uma espécie de Bíblia para os postulantes a esse mundo, com apreciações sofisticadas sobre um punhado de mitos (tais como Sly Stone, Randy Newman e The Band). Os manifestos de Marcus sobre a atividade de escrever sobre a música são sensacionais. “Música é uma coisa fundamentalmente ambígua, o que explica por que o seu poder de criar símbolos (em oposição a impor símbolos) é tão grande”, ele escreve. “A música pode fazer as letras mais estúpidas soarem profundas, mas no fim das contas ela não pode carregar uma mensagem específica: seu poder de criar símbolos é o poder de criar o símbolo ambíguo. Se uma peça é musicalmente viva, se ela tem um ímpeto próprio, ela vai rebater, vai questionar quaisquer imagens explícitas ou símbolos que supostamente carrega."

SÓ GAROTOS - Patti Smith (Companhia das Letras, 2010). O livro de memórias da cantora, poeta e compositora Patti Smith, que ganhou um dos maiores prêmios literários em lingua inglesa, o National Book Award, trata de sua peregrinação por Nova York a partir do final dos anos 1960, ao lado do artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ela conheceu Mapplethorpe no verão de 1967, e este se tornaria seu primeiro grande amor. Mapplethorpe se assumiria homossexual mais tarde. No livro, além de descrever a vida em alguns bunkers da contracultura, como o Chelsea Hotel, e narrar a gênese de alguns dos seus mais influentes discos, como Horses (1975), Patti revela uma notável e elegante prosa para o mundo literário, algo que ela retomou com fluidez no livro seguinte, Linha M (também lançado no Brasil pela Companhia das Letras). O trunfo da cantora é conseguir injetar na prosa o ritmo e a liberdade de linguagem para uma narrativa memorialística. “A direita está fortalecida, pequenos pensadores criminosos. O mal demonstra mais solidariedade que o bem, e as boas pessoas assistem sem reação a essa virada. A direita argumenta mais, fala mais. Às vezes é frustrante, para quem é humanista. Mas o que penso disso tudo é que temos de achar um jeito de atravessar esses conceitos, de direita e esquerda. O problema maior é a insinceridade, e a espécie humana está ameaçada. Um dia, todo esse nosso meio ambiente vai entrar em colapso, e não vai adiantar debater conceitos. Nós, como seres humanos, temos a responsabilidade de passar por cima de tudo isso, pela sobrevivência do planeta. Eu sou, apesar de tudo, otimista”, disse Patti.

LAST NIGHT A DJ SAVED MY LIFE (Bill Brewster e Frank Broughton, 1999). O DJ foi catapultado ao coração da moderna cultura popular especialmente a partir dos anos 1990, quando se tornou uma figura central na dance music e impulsionou uma cultura de clubes noturnos que, somente na cidade de Nova York, chegou a movimentar US$ 3 bilhões por ano. A figura do DJ projetou-se então para além de um programador musical, incorporando aspectos de entertainer, produtor, businessman e músico autoral. Superstars das picapes, como Carl Cox, Sasha e Digweed, passaram a ter status de rock stars, com contratos disputados e turnês milionárias. No livro Last Night a DJ Saved My Life, os jornalistas Bill Brewster e Frank Broughton iniciaram a chave historicista para a compreensão de como essa cena foi sedimentada, como cresceu e o que ela trouxe de novidade ao mundo da música e da eletrônica. Da cena britânica, a mais fértil no início, ao renascimento da disco music em Nova York, passando pelos sound systems da Jamaica e a emergência das técnicas do scratch no Bronx, passando pela cena industrial de Chicago e Detroit, eles documentaram a ascensão dos DJs. Com entrevistas com críticos, executivos da indústria musical, DJs, músicos e outros, escreveram um capítulo fundamental da História.

MUSICOPHILIA (Oliver Sacks, 2007). O célebre neurologista Oliver Sacks explora nesse livro fundamental o lugar que a música ocupa no cérebro, uma certa “memória fonográfica”  e como a música afeta a condição humana. Em Musicophilia, o autor foca naquilo que designa por “desalinhamentos musicais”, casos de 29 pacientes que sofriam de imprevisíveis efeitos cognitivos quando expostos à música. Entre eles,  pacientes com Parkinson ou autismo cujo ato de audição musical diminuía os sintomas; um homem atingido por um relâmpago que subitamente desejou ser pianista aos 42 anos; um grupo de crianças com síndrome de Williams, que desde o nascimento desenvolvem compreensão musical espantosa; pessoas com "amusia", para quem uma sinfonia soa dolorosa, quase uma tortura; e um maestro com amnésia, cuja memória durava apenas sete segundos (exceto quando se tratava de música). O dr. Sacks não se porta como um cientista apenas, mas um filósofo com talento literário atrás do mistério da música, “uma arte que é completamente abstrata e profundamente emocional”. Ele também proporciona um agradável passeio por um repertório de histórias da humanidade, como a de Che Guevara, “surdo do ritmo”, que era capaz de dançar um mambo enquanto a orquestra tocava um tango, e Freud e Nabokov, que tinham prazer zero com a audição musical.

HISTÓRIA SOCIAL DO JAZZ (Eric Hobsbawm, editora Paz & Terra). O historiador britânico Hobsbawm, um dos mais conhecidos teóricos marxistas do mundo, analisa ensaisticamente uma de suas paixões, o jazz, detendo-se em seus ídolos (Count Basie, Duke Ellington e Billie Holliday). Sua perspectiva é enxergar o jazz como criação revolucionária dos negros norte-americanos submetidos às circunstâncias históricas da escravidão. Combinando visão acurada com digressões intelectuais sofisticadas, Hobsbawm vê o jazz como uma revolução anticomercial, um abrigo contra o racismo fortalecido tanto nas fronteiras do New Deal quanto do Partido Comunista. Interessante ver a divisão analítica proposta por Hobsbawm, diferente da maioria dos críticos do jazz, da chamada pré-história (entre 1900 e 1917), antiga (1917 a 1929), média (1929 a 1941, com o aparecimento das vanguardas) até o moderno (a partir daí, com as linguagens do bebop, hard bop e do cool). Ele distingue os esforços comerciais do jazz e sua dinâmica interna autêntica, representada pelas jam sessions e pelo senso comunitário dos músicos. A música é vista neste contexto como elemento de resistência, o que contribui na sua difusão. Num quadro mais amplo: a industrialização e as transformações no padrão de consumo de pretos e brancos, a relação do jazz com a indústria de discos e espetáculos, a popularização e seus cultores.

REAÇÕES PSICÓTICAS (Lester Bangs, Conrad, 2005). Versão brasileira compacta da bíblia Psychotic Reactions and Carburetor Dung: The Work of a Legendary Critic: Rock ’n’ Roll as Literature and Literature as Rock ’n’ Roll, de 1987, mostra a combustão de que foi feita a literatura de Lester Bangs. O mais controverso crítico de rock da História, memoravelmene retratado pelo ator Philip Seymour Hoffman no filme Quase Famosos, morreu precocemente, aos 33 anos, mas deixou um compêndio de escrita que movimentou gerações. Reações psicóticas mostra reflexões de Bangs sobre a morte de John Lennon e Elvis Presley, relatos sobre uma noite de provocações com Lou Reed (quase terminando em pugilismo) ou Iggy Pop rolando sobre cacos de vidro e as idéias do autor sobre artistas como Kraftwerk, Van Morrison, David Bowie, Jethro Tull. “Em uma época sórdida de desejos contidos, a música de (Bruce) Springsteen é majestosa e apaixonada. Podemos nos elevar com ela, apreciando a agitação inebriante de um garoto talentoso navegando no pico de sua criatividade e sentimos sua música e poesia na medida em que ele atinge o Nirvana”, escreveu Bangs. Seus personagens são envolvidos em suas próprias tempestade existenciais, numa narrativa que leva em considerações as emoções do autor e da circunstância de sua época, com elementos de amor, ódio, sangue e substâncias ilícitas.


Um comentário:

Paulo Eduardo Neves disse...

Faltou alguns livros brasileiros, seja a biografia da Rita Lee, ao genial livro de João Máximoe Carlos Didier sobre Noel Rosa