domingo, 28 de agosto de 2016

PASSOU GELO NO JOELHO E FEZ O GOL DO TÍTULO




Não há equivalente de Edvaldo Santana na música brasileira. Digo isso de um longínquo e ao mesmo tempo privilegiado posto de observação. Ele não é um Elomar porque não é sedentário, não é o sábio de uma montanha; é um andarilho, um artista em movimento. Ele não é um Cartola porque não pertence a uma geografia, a uma agremiação; ele é margem de muitos rios. Ao mesmo tempo, contém todas essas histórias. Ele aproxima pontas que parecem distantes, como Celso Blues Boy e Luiz Melodia e Augusto de Campos e Arnaldo Antunes.

Por conta de tudo isso, seus discos sempre tiveram uma admirável diversidade de pontos de vista e de urdiduras musicais. Mas agora ele fez um álbum conceitual, uma coisa de uma unidade e simetria absolutas. É como se fosse um curriculum vitae em forma de poesia e ourivesaria sonora: Só Vou Chegar Mais Tarde (Distribuição Tratore).

O piano de Daniel Szafran pontua a canção 40 com um toque de boogie woogie sulista, aproxima Edvaldo de Jerry Lee Lewis. Tem até um washboard no som - aquele instrumento de New Orleans originado de uma tábua de lavar roupa, que espalha pequenos batuques pelas reentrâncias da música.
A tuba de Eliezer Tristão é que constroi as lombadas de Só Vou Chegar Mais Tarde, um country tingido de bluegrass que tem uma crueza musical calculada, um refinamento de distraído, tipo Wilco. A voz parece que vem de algum milharal lá no fundo.

Em Predicado, ele fala do alheamento urbano, da solidão das pessoas em suas unidades móveis de internet (“o sonho que não foi conectado”), de novo numa canção piano-driven, dirigida pelo piano, como dizem os críticos americanos. Quando chega ao lalalalalá delicioso do final, a gente se pergunta: como um compositor desse nível não está no palco de um Lollapalooza, no lugar de algum desses bostinhas que estão lá todo ano imitando Tame Impala?

Ando livre é uma surf song ancorada numa guitarrinha havaiana fornecida pelo maestríssimo Luiz Waack, um lorde da música paulistana. O fio da meada da canção conduz o ouvinte como se fosse um road movie, fazendo-o atravessar o País em um ritmo de outro tempo, entre Elvis e Joe Pass, bebendo água de cacimba, tomando banho de riacho. O dueto com a cantora Rita Beneditto parece evocar um diálogo de um encontro marcado pelo destino.

Gelo no Joelho é um samba encoxado por sanfona e trombone que fala sobre a posição crepuscular de um velho jogador de peladas, um craque amador que descobriu como diminuir os trajetos dentro do campo para que o corpo dure mais. “O tempo não para mas o tempo passa gelo no joelho”, diz Edvaldo, autor de alguns dos mais belos hinos sobre o futebol, que ele ama - mais adiante, em Dom, ele volta ao tema com um samba, homenageando o doutor Sócrates (“Num pé pequeno, homem de coração bom”) e acentuando o caráter retrospectivo do trabalho (“Fiz minha parte/Deixo aqui minha alegria”).

Retorno do Cangaço é ultrapolitizada, a canção mais chute nos bagos do lote, mas está a milhas de ser panfletária. “A grana que sumiu tá na casa do pastor”, canta Edvaldo, numa canção de construção sonora mais assimétrica, resultado de todas as vanguardas das quais ele se alimentou, começando pela música dos colegas Arrigo e Itamar.

Já a acústica Sou da Quebrada, emoldurada pela gaita de Bene Chiréia, é a nossa equivalente de This Trains is Bound for Glory, de Woody Guthrie; uma balada biográfica folky sobre uma geografia afetiva de Zona Leste, erguida sobre muito tempo de camaradagem. “Sou da quebrada mas eu sou das antigas/Quem me ensinava tinha uma letra linda”.

Fazendo pra Aprender mostra Edvaldo, orlandosilvanamente crooner, encontrando Tom Waits numa quebrada de São Miguel Paulista.

Arte Depura descobre Edvaldo citando a si mesmo, o primeiro disco (Lobo Solitário, de 1993), e as suas mais antigas influências (no verso de Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso, que canta), como se fechasse um ciclo. Sob um lençol musical que usa da percussão de um cajón até banjo e cavaquinho, o filtro de Edvaldo depura os ouvidos.

Em Domínio, a profissão de fé encontra seu manifesto logo no início da música. “Como diz o Tião Carrero, amigo do Pardinho, minha viola ainda paga o aluguel”. Nem tudo que Edvaldo aprendeu veio da estrada (ele desfruta da amizade de concretistas e estetas do portunhol selvagem), mas quase tudo que o fortalece vem do movimento contínuo.

De repente, em Cabeça na Mesa, comparece a influência do blues rock inglês, Led Zeppelin, John Mayall, Eric Clapton, sob um cozido de guitarra, baixo e bateria e uma vozinha de Holy Golightly (trata-se da gigantesca Alzira Espíndola, no disco) se contrapondo à sua saga de Zé do Chapéu do bilhar da esquina (“Eu não sei jogar com rato no meu taco falta giz”).

A décima terceira canção é a versão musicada de Edvaldo para o poema provençal de Guillaume de Poitiers, na tradução de Augusto de Campos. De novo acústica, Edvaldo e Luiz Waack apenas, é o fecho perfeito de um disco autobiográfico minucioso. Edvaldo parece ter escolhido essa por ser um manifesto da fé no homem que se basta, no cavaleiro solitário de poucas e suficientes convicções - nenhuma delas baseada na concessão. Essa é a vida dele.

Tem um poema do Paulo Leminski que diz assim: “Um bom poema leva anos/cinco jogando bola/mais cinco estudando sânscrito/seis carregando pedra/nove namorando a vizinha/sete levando porrada/quatro andando sozinho/três mudando de cidade (...)”

O melhor disco do Edvaldo Santana levou 40 anos. E ele o dá assim a você de mão beijada.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O BLUESMAN SOZINHO







A voz é rascante, rouca. A guitarra é selvagem, massuda, mistura um tanto de Steve Ray Vaughan com Jeff Beck.
Toca em pé a guitarra, o baixo, a gaita. Com pedais e baquetas presas no braço da guitarra, ele martela pratos e bumbos.
É um novo fenômeno do blues rock e vem de Quebec, no Canadá. Visualmente, parece um dos Allman Brothers.
Na quarta, dia 7 de setembro, às 21 horas, Steve Hill estreia no Brasil tocando no Bourbon Street Music Club (Rua dos Chanés, 127, Moema), em São Paulo.
Conversamos ontem por telefone. Ele me contou como se tornou um homem-banda. Falou quase num fôlego só e eu preservei como um depoimento.


“Eu tocava com uma banda, tinha uma carreira regular, gravava com um grupo. Então, cinco anos atrás, algo aconteceu. Acontece que eu descobri de repente que meu empresário era um cara muito mau, muito picareta. Tinha levado tudo que eu tinha. Meu disco estava sendo um fracasso. Precisava achar um jeito de continuar fazendo música e não conseguia. Eu estava quebrado, ferrado, sem um tostão. Ao mesmo tempo, eu tinha um vício terrível: eu era um maluco colecionador de guitarras. Eu não podia ver uma guitarra que já queria comprar. Eu não sei quantas guitarras eu tenho porque não as conto, mas acho que tenho bem mais de 30 instrumentos. E apareceu uma Gibson 56 ES225 e eu enlouqueci. Só que eu não tinha dinheiro para comprar, então tive a ideia de organizar um show solo de blues. Era para ser uma noite apenas, e eu não tinha banda, então improvisei e toquei tudo sozinho. A plateia adorou, todo mundo vinha me dizer: “Faça de novo!”. Acontece que eu me diverti muito tocando daquele jeito, então resolvi continuar e acabei gravando um disco sozinho, um álbum que se tornou muito popular, Solo Recordings Volume I. Ganhei o prêmio Juno, que é uma espécie de Grammy canadense, e fiz mais de 150 shows sozinho. Depois, gravei Solo Recordings Volumes II e III. Agora, posso dizer que eu me tornei um verdadeiro homem-banda. Há cinco anos, se me dissessem que eu seria um homem-banda, eu diria: “Você é louco?”. Nunca tinha passado pela minha cabeça. Isso é para você ver que a gente nunca deve dizer que não vai fazer algo na vida. O jeito que eu faço meu show one-man-band é que é muito pessoal, não vi nenhum outro que faça do mesmo jeito que eu faço. É muito particular. Quando você ouve rádio, vê que 99% do que é feito hoje tem computador no meio, tem algo feito eletronicamente. Meu negócio é completamente ao vivo. O que eu faço é basicamente blues, blues rock. Tem também folk e country e alguns dizem que é rock’n’roll. Eu sou muito ligado aos primórdios do blues, sou ligado em Robert Johnson. E em Jimi Hendrix. E gosto de Ray Charles, de Buddy Guy, de B.B. King, Muddy Waters. Então, pode-se dizer que minha música é uma mistura disso tudo, com meu próprio condimento. Gosto de Albert King, Freddy King, B.B. King, mas também amo Judas Priest, Black Sabbath. Sou um homem-banda, mas eventualmente, eu ainda toco com um grupo, porque afinal de contas eu sou um guitarrista. Do ponto de vista da política, eu digo sempre: temos que ter paciência. Os americanos estão defronte de um grande problema no momento. Tenho sorte de ser canadense. Há muita confusão. Vi a Olímpiada no Brasil pela TV, um ou outro flash dos Jogos. Percebi que o problema aí é o mesmo de todo lugar: 1% das pessoas têm muito e o resto não tem nada. É uma vergonha. Estou feliz a caminho do Brasil pela primeira vez, espero que seja uma bonita experiência”.


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

OLHAR




Virgine foi casada com um diplomata francês durante anos. Por conta da vida em movimento, de País em País, eles carregavam malas de aço - para que as coisas mais íntimas e os objetos mais queridos permanecessem seguros. Mal dava tempo para reacomodar tudo nas novas casas. Um dia, quando foram morar em Madagascar, Virginie foi abrindo as malas. “Tinha um ventilador de corpo de plástico. Na hora em que eu o apalpei, quebrou inteirinho. Aí abri outra mala e estava lá, intacta, a roupa que usei no primeiro show do grupo A Gota Suspensa. A saia de borracha, os vídeos, as fitas cassete, tudo inteirinho”, ela conta.

Estamos no café Le Pain Quotidien da Wisard. Eu, a cantora Virginie Boutaud e o tecladista Yann Laouenan. Logo chega Dany Roland, o baterista (faltaram o baixista Xavier Leblanc e o guitarrista Alec Haiat). Há 30 anos, eles contam, os ônibus de turnê em que viajavam como o grupo Metrô (a Gota Suspensa era o embrião da banda, em 1978) viviam cercados de fãs, era até difícil a locomoção, uma loucura. Tão louco que eles acabaram com a banda no ano seguinte.

Eles estão relançando, remasterizado, o disco Olhar, de 1985, acrescido de um disco ao vivo (da mesma turnê, de 1985) e faixas bônus. É um dos raros álbuns lançados no Brasil, no último século, em que quase todas as canções se tornaram hits radiofônicos: Johnny Love, Beat Acelerado, Tudo Pode Mudar, Sândalo de Dândi, Olhar, Ti Ti Ti, Cenas Obscenas. Mais impressionante ainda: até hoje, 31 anos depois, essas canções ainda tocam o tempo todo no dial do rádio do carro, basta testar - dificilmente vai passar uma hora sem uma delas.

O relançamento se dará com um show em que todas as canções serão tocadas na ordem em que estão dispostas no disco. Será esta noite, no espaço Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré, ao lado da Estação Sumaré do Metrô). Os ingressos custam R$ 50 (R$ 25 meia). O comeback do grupo Metrô já tem um tempinho, eles tocaram no Palco Arouche da Virada Cultural e foi envolvente, apesar de probleminhas técnicos. Agora, é um tour de force em torno de sua obra-chave.

A história desse disco é cheia de lances cinematográficos. Recentemente, Danny estava no aeroporto esperando voo para o Rio, onde vive, quando foi abordado pelo executivo português Paulo Junqueiro, novo presidente da Sony Music Brasil. Junqueiro, em 1985, chegara ao Brasil para trabalhar na indústria musical e caiu no Estúdio Transamérica. O primeiro trabalho que lhe deram foi acompanhar uma turnê da banda Metrô como técnico de som. Ele gravou toda a turnê do disco Olhar (que passou por Recife, Cruzeiro, Jaú, Tupã, Cornélio Procópio e dezenas de cidades), e manteve as fitas durante 31 anos em uma gaveta em sua casa, em Lisboa.

Junqueiro repatriou as fitas, Luiz Carlos Maluly (o produtor de Olhar, em 1985) as recuperou, e elas são do disco 2 do pacote lançado agora pela Sony (que era CBS na época em que gravaram).
Em 1985 e 1986, saíram alguns dos mais importantes discos do rock brasileiro daquela década, como Selvagem?, dos Paralamas, Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e Dois, da Legião Urbana. As bandas mais pop, como o Metrô, Kid Abelha e Sempre Livre, eram frequentemente alvo de chacota e desprezo. 
Havia muito preconceito da crítica - embora todos frequentassem o mesmo circulo, houve até jantar na casa de Fernando Zarif em que odiadores e odiados dividiram a mesma mesa, pacificamente. 
E acabo de descobrir que não foi só repulsa, muita gente gostava - como o Silvio Essinger, que os entrevistou hoje para O Globo. Ele escreveu no Face: "Um grupo me proporcionou duas descobertas na mais tenra idade: a da alegria new wave (com o LP Olhar) e, depois, a da beleza e do inusitado (com o disco A Mão de Mao; quem não ouviu, procure já). Era o Metrô, muito mais do que uma nota de rodapé na história do rock brasileiro, com suas canções, letras e timbres invulgares. Uma honra tê-los entrevistado - espero ter feito alguma Justiça a esses grandes artistas",

O pioneirismo dos sintetizadores de Yann e a voz pequena e bem colocada de Virginie fizeram escola, entretanto, embora eles tenham enveredado por outros rumos  - há muito de Metrô no Pato Fu e no Cansei de Ser Sexy, ela reconhece.

Curioso é que eles não ganharam muito dinheiro com o disco. Havia muito desvio no caminho, os direitos não eram bem-recebidos e também a estrutura de suas turnês era muito cara, com 23 pessoas na equipe, ônibus, caminhão, aparelhagem cara. Sobrou pouca coisa, não se tornaram milionários do rock. Mas há ainda uma legião de fãs - Virginie carrega uma sacola cheia de envelopes de Sedex que vai despachar para os fãs que lhe pedem o disco pelas redes sociais.


O papo com a banda Metrô (e um pouco do disco ao vivo inéidto) eu coloco mais para a frente aqui. Hoje, posto só esse aperitivo para dar um alô para o show.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

CHINA MOSES


UMA CANTORA EM BUSCA DA PRÓPRIA VOZ



Há 19 anos, a cantora e atriz Dee Dee Bridgewater fez o seu primeiro show no Brasil, no palco do Bourbon Street Music Club, durante o antigo Free Jazz Festival. Homenageou Ella Fitzgerald e mostrou porque era, àquela altura, uma das divas do jazz mais badaladas do mundo.

Na noite desta terça, sua filha China Moses, que tinha 17 anos na época daquele show, sobe ao palco do mesmo Bourbon Street com um objetivo: livrar-se do peso dos standards do jazz e da influência das divas como Billie Holiday e Dinah Washington e enfim mostrar a sua própria voz musical.

China Moses desenvolveu sua habilidade sob a égide de duas poderosas heranças artísticas. Filha de Dee Dee, hoje com 66 anos, e do diretor Gilbert Moses (já morto, ativista afroamericano que ganhou o prêmio Tony de teatro com Ain’t Suppose to Die a Natural Death e dirigiu do musical 1600 Pensylvannia Avenue, de Leonard Bernstein), ela nasceu em Los Angeles e cresceu em Paris.

“Nos últimos 10 anos, eu descobri o legado do jazz e fiz um disco em tributo a Dinah Washington. Cantei todos os standards e enveredei pelo caminho dos festivais de jazz. Isso foi importante para descobrir minha identidade. O jazz me deu coragem para finalmente ser eu mesma”, disse China por telefone, em entrevista desde sua casa Paris, numa declaração que parece paradoxal. “Eu fiquei frustrada com o mundo do jazz. Sentia que precisava de mais liberdade, de fazer algo que fosse menos a expectativa que os outros têm de mim e mais minha própria cara”.

Assim, ela explica, foi que conheceu o produtor britânico Anthony Marshall (de artistas como o rapper Craig David) e, em 5 dias, compôs os temas de Whatever, seu novo disco (selo MadeinChina, dela mesma). Em outros 6 dias, produziu as 11 canções do álbum no Snap Studios de Londres, com um trio. “Eu sempre fui mais próxima do R&B, do soul, do funk, do pop. Amo o jazz, mas minha vida se desenvolveu ao redor da música que eu tenho vontade de dançar às 5 horas da manhã numa pista de dança. Aquele repertório que eu estava levando era muito delicado, mas não era a minha voz”.

Por conta disso, quando pergunto se ela pretende cantar ao menos uma música do repertório de Dinah Washington ou Billie nessa noite de terça, em sua estreia no Brasil, ela é curta e a gargalhada sai torrencial. “De jeito nenhum”, sentencia. Esses standards estão registrados em discos como Good Lovin (2004), This one is for Dinah (2009) e Crazy Blues (2012). Ela também acompanhou a mãe em um tributo a Lady Day - mas, muito antes de tudo, chegou a cantar heavy metal.

“Eu parei e pensei: o que me leva a fazer o que faço? Não é a plateia, não é o programa de um festival, é aquilo que eu penso sobre a arte e a música. Não estou reclamando de nada, mas não se pode ser feliz tentando fazer o que os outros querem de você. Ao mesmo tempo, o jazz é parte de mim, de minhas influências. É possível ser algo entre uma coisa e outra, isso aconteceu com cantoras como Natalie Cole e Peggy Lee. Por que eu tenho que escolher? Na minha cabeça, estou tentando construir uma ponte entre esses gêneros, ao mesmo tempo em que defino meu próprio ritmo e velocidade. É como cozinhar: é muito importante criar o seu próprio sabor, encontrar os ingredientes certos, as cores de sua comida. Estou procurando por isso”, pondera.

A mãe de China, Dee Dee Bridgewater, foi quem a fez querer ser artista, ela conta. “É tão talentosa. Tive sorte de ter uma artista mulher para me inspirar. Foi minha primeira fã, me encorajou, me estimulou. Ela me ensinou a importância do amor dos pais: uma mãe que ama seus filhos pode mudar o mundo. Ela vê através da arte, não é só uma artista, é uma mulher e ativista, é cheia de convicção e verdade. Ela só escolhe projetos muito fortes e importantes, não se vende nunca”, afirma a cantora.
Dee Dee disse que China deveria seguir o caminho que lhe desse felicidade, e não o caminho da obrigação. Por conta disso, bossa nova, por exemplo (gênero caro a colegas como Stacey Kent ), nunca a tocou especialmente, embora conheça bastante. “Eu sempre ouvi. Uma de minhas preferidas era Astrud Gilberto. Ouvi e fiquei com a voz dela muito antes de Tom Jobim, João Gilberto. A versão dela de Águas de Março é a minha preferida. Em meu segundo disco, uma das primeiras canções é uma bossa. Mas a bossa nova pede uma abordagem mais delicada do que a que eu posso dar, e tem muita gente que pode. Gosto do jeito que Seu Jorge toca a bossa, um jeito mais nervoso. Gosto de artistas que vão além do estabelecido”, ela diz.  

Garota parisense típica, embora norte-americana, ela comentou também os casos de violência terrorista recente em Paris e Nice. “Acredito que os ataques na França queriam atingir justamente aquela parte da cultura, da liberdade de pensamento, da livre expressão que a arte atingiu no País em todos esses séculos. Foi a mais feia, impensável atrocidade. Curioso que um ataque desse tipo aconteça justo no momento em que vivemos um fluxo de comunicação tão intenso. Hoje nós podemos compartilhar a vida com outras pessoas, falar com o mundo todo, muito mais do que na minha adolescência. Os artistas estão ainda muito calados em relação a isso, mas acredito que devem se levantar logo. Eles representam os sentimentos das pessoas e devem liderar uma reação. Acredito que está chegando”.




CHINA MOSES

Local: Bourbon Street | Rua Dos Chanés, 127 – Moema – SP
Bilheteria Bourbon Street: Rua dos Chanés 194 – de 2ªf.a 6ª.f das 9h às 20h, sábado e feriado das 14h às 20h
Fone para reserva: (11) 5095-6100 (Seg. a sexta) das 10h às 18h
Data : 09/08/2016 – terça-feira
Horário: 21h30
Abertura da casa: 20h
Duração: 98 min. aproximadamente

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

12 DIAS EXTINTO




O ministro interino da Cultura, Marcelo Calero, escreveu artigo em O Globo no último dia 31. Eu li hoje.

Faz inicialmente um balanço pestilento da pasta, até aí normal. Então ele escreve: “Ao chegarmos ao MinC, apresentamos esse cenário caótico ao presidente Temer que, imediatamente, se sensibilizou”.

Vejo que, com frequência, os políticos apostam na memória curta dos cidadãos. Mas ainda não tinha visto apostarem em uma memória tão curta. Senão, vejamos: Calero não chegou ao MinC, o ministério tinha sido extinto. Ficou 12 dias desativado em maio (um desperdício de R$ 13 milhões), o que talvez demonstre o assombroso nível de “imediata” sensibilidade que o vice-presidente em exercício nutre pelo setor. O ministério só foi recriado por conta da massiva manifestação de artistas de todo o País, um espectro que envolveu de Fernanda Montenegro a Caetano Veloso, passando por  Erasmo Carlos (figura que, tradicionalmente, não se envolve em política). Manifestações pacíficas envolveram milhares de artistas e produtores.

Calero chegou todo sorridente, indicado pelo olímpico prefeito Eduardo Paes, a alguma coisa que àquela altura substituiria o MinC, uma secretaria de segundo escalão. Mas ele tampouco foi uma escolha prioritária: 6 mulheres, antes dele, foram convidadas para o cargo e polidamente recusaram, considerando que houvera negligência do atual governo em relação à presença das mulheres no primeiro escalão e que não preencheriam uma cota por mero oportunismo publicitário.

Primordialmente, o que distingue Calero das gestões que o precederam é, até agora, uma característica evidente: ele não saiu do gabinete a não ser para uma extemporânea visita à Turquia - curiosamente, em dia de cabalístico golpe de Estado. Não recebe, não se reúne e nem participa de fóruns públicos de artistas, parece não ter uma agenda externa e demonstra certa alergia ao debate público. Circula em ambientes controlados.

“Queremos dialogar com todos os segmentos, dos que se dedicam ao fazimento cultural local até a indústria de ponta”, escreveu o mesmo sujeito que promoveu uma violenta reintegração de posse no Palácio Gustavo Capanema (foto acima), soltando a polícia em cima de uma intervenção artístico-ativista que ele mesmo tinha elogiado como criativa e vigorosa.

Não é possível distinguir, nos textos e entrevistas de Calero até o momento, algum insight de formulação de política cultural. No MinC, tem se dedicado a alguma espécie de exorcismo político. Demitiu todo mundo na Cinemateca Brasileira, mas recuou dias depois após ser revelado que o nome que escolhera para dirigi-la tinha um histórico de estelionato. Demitiu 88 pessoas no ministério, acusando “aparelhamento” - e parece que boa parte estava lá havia mais de 15 anos. Nem precisava da justificativa política, já que algumas secretarias ele nem ativou em três meses de trabalho, caso da SPOA (Planejamento, Orçamento e Administração). Outras áreas ele dinamitou, como a do Livro e Leitura.

Outra coisa que certamente o diferencia é que agora tem dinheiro. As verbas que não chegavam nunca finalmente chegaram até ele. Curioso, já que o Ministério da Cultura estava extinto justamente para economizar e tornar o Estado mais enxuto, menos dispendioso. Era supérfluo, subitamente tornou-se opulento (assim como o que era defeito subitamente virou qualidade na política econômica).

A situação política é tensa, há uma evidente crise de autoridade no País, as instituições estão em frangalhos, parecem tuteladas por um sombrio pacto de varrição para debaixo do tapete. Mas as pessoas têm que seguir a vida. Os produtores culturais que têm um relacionamento mais estreito com o Estado precisam manter contato com o MinC de Calero. O que assusta é que o atual gestor, com seu farolete burocrático (no afã de “reconfigurar modelos de gestão”) e a vaidade revanchista, demonstra acreditar que não é somente um agente do Estado brasileiro (em última instância um instrumento a serviço do bem-estar da coletividade), mas seu tutor privilegiado e sua própria finalidade.


terça-feira, 2 de agosto de 2016

CASA DE VIDRO





UMA GRANA PARA A CASA DOS BARDI


Fundação Getty doa R$ 625 mil para eventuais obras de reparos na Casa de Vidro do Morumbi, projetada em 1950 pela arquiteta ítalo-brasileira



A icônica Casa de Vidro da arquiteta Lina Bo Bardi, no Morumbi, recebeu na semana passada da Fundação Getty, de Los Angeles, um auxílio financeiro de U$ 195 mil (cerca de R$ 625 mil) para um “plano de manutenção preventiva baseado em pesquisas técnicas especializadas para evitar um futuro incerto de intervenções de emergência e reparos pontuais”. 

Marco modernista, a casa foi projetada em 1950 e, pela inserção na natureza e na paisagem, é frequentemente comparada à famosa Casa da Cascata de Frank Lloyd Wright, erguida na Pensilvânia em 1935. Há alguns anos, fiz uma reportagem demonstrando que a casa estava sendo alugada, pela atual diretoria do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, para festas de bacanas, para arrecadar uns trocados. Leia aqui: http://cultura.estadao.com.br/noticias/artes,polemica-cerca-uso-de-casa-dos-bardi-para-festas-em-sao-paulo,1509649

O apoio, pela Fundação Getty, batizado como Keep it Modern, é dado a prédios fundamentais da arquitetura moderna pelo mundo e começou em 2014. Entre as outras obras contempladas este ano, que dividiram US$ 1,2 milhão, estão a Igreja Cristo Obrero (em Atlantida, no Uruguai), a Catedral Metropolitana de Liverpool (Liverpool, Inglaterra), a Villa E-1027 (Côte D’Azur, França), a Primeira Igreja Presbiteriana de Stamford (Connecticut, Estados Unidos), a Biblioteca Infantil de Accra (Gana, África), o Sevan Writers’ Resort (Armênia), o Gautam Sarabhai Workshop Building (Ahmedabad, Índia) e a Biblioteca Nacional de Kosovo (Pristina, Kosovo).

Tombada pelo Condephaat em 1986, por unanimidade, e, em 2007, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Casa de Vidro se junta a duas outras edificações brasileiras já contempladas nessa bolsa de conservação e manutenção de construções modernas no mundo - em 2015, o prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP, de Vilanova Artigas, e o Pavilhão Arthur Neiva, de Jorge Ferreira, no Rio.

A iniciativa da fundação já direcionou, no passado, fundos para a preservação de obras como o Sanatório Paimio (do finlandês Alvar Aalto), a Casa Eames, o Campus do Salk Institute (Louis Kahn), a Opera de Sydney (Jørn Utzon) e a Casa Schröder (Gerrit Ritveld), entre outros edifícios simbólicos do movimento moderno.

Segundo informou o site ArchDaily, o investimento permitirá que “uma equipe internacional de especialistas em conservação de arquitetura e paisagismo, especialistas em patrimônio  e engenheiros civis e estruturais desenvolvam um plano de gestão de conservação para a obra. O projeto também inclui uma pesquisa topográfica 3D do terreno que permitirá que os engenheiros identifiquem possíveis deformações estruturais nocivas em pequena escala, ainda imperceptíveis aos olhos."

quarta-feira, 27 de julho de 2016

AZAWAD

fotos: Juvenal Pereira


O grupo tuaregue Tinariwen em São Paulo, na Fundação Padre Anchieta, em março




“Um homem-bomba!”, berra a mulher da lanchonete quando passa por Mahfouz no corredor em frente ao estúdio da TV Cultura. Mahfouz, vestindo um glorioso tagelmust (o turbante típico do Saara), a ignora.

Mahfouz Ag Adnane é professor de francês em São Paulo e defendeu mestrado sobre a música do Saara na PUC-SP. Ele veio da Universidade do Cairo há dois anos e é tuaregue, solitário combatente do Azawad aqui no Brasil - o Azawad é a Nação africana reivindicada pelos tuaregues, povo nômade que se espalha pelo território que as invasões coloniais lhes tomaram (entre o Mali, Níger, Argélia, Burkina Faso e Líbia).

Mahfouz está todo paramentado na sede da TV Cultura, desde a véspera acompanhando o grupo de música do Saara que tornou sua tese possível: os conterrâneos do Tinariwen. Está exultante, muito feliz - naquela mesma noite, ele iria subir no palco do Sesc Vila Mariana e dançar com os Tinariwen, agitando a bandeira de sua Nação.

Nos bastidores da gravação, Mahfouz é um autêntico embaixador de sua revolução em torno dos amigos. “Não creio que tenham encontrado muitos tuaregues na América do Sul”, diz Mahfouz. Falam francês e tamachek pelos jardins, com uma reverência uniformizada ao guitarrista e vocalista Ibrahim, de dreadlocks, voz arenosa e passos ultralentos, uma espécie de líder silencioso.  

Esses homens já empunharam rifles AK-47 em sua terra. Têm séculos de escaramuças territoriais e culturais nas costas. Em 2014, prenderam o guitarrista Abdallah Ag Lamida por “tocar a música do demônio”. Já tem 37 anos que o Tinariwen inventou o estilo conhecido como assouf (guitarra), que ganhou o mundo e lhes valeu alcunhas como “Led Zeppelin do deserto”. No Sesc Vila Mariana, quem conhece de música estava na plateia, como os colegas Daniel Benevides e Alexandre Matias. No Rio, o Calbuque foi e escreveu decisivo texto.

O jornal inglês The Guardian anotou que os “filhos do Tinariwen” já se espalham pelo mundo. Como o grupo-matriz, seus nomes geralmente começam com T: Terakaft, Tamikrist, Toumast. Mas há alguns novos que já subvertem a norma: Kel Assouf, Imarhan, Bombino, Mdou Moctar, Ezza.

Eu e o Juvenal Pereira, 30 anos de reportagens juntos, passamos uma tarde com os Tinariwen pela cidade. A ideia era conhecê-los, mais do que reportar algo. Mas acabou que fizemos uma entrevista regular com Eyadou Ag Leche, baixista do Tinariwen. Conversamos no jardim da Fundação Padre Anchieta, enquanto eles esperavam para gravar participação no programa de TV Metrópolis.


Vocês se lembram da última vez que tocaram no Mali?

Eyadou - A última vez que tocamos foi em 2011, durante três dias, no Festival au Désert, em Timbuktu. Hoje é um pouco difícil pra gente tocar lá, por causa dos problemas políticos, não vivemos em paz. Mas não temos muita escolha, é a nossa terra, então temos que continuar a fazer a música, passar a mensagem. A comunicação é importante, porque hoje é tudo mais claro, há um movimento organizado, e mantemos muita concentração em tudo que acontece lá (eles vivem em Tessalit, na região de Kidal, norte do Mali, me conta Ibrahim).

A situação do Tinariwen, como um grupo de tuaregues globalizado, é um pouco mais confortável, porque há muita gente famosa que é admiradora de vocês, como Robert Plant, Josh Klinghoffer, etc. Gente que conhece a sua música. Mas, para os outros grupos, como é a situação hoje?

Eyadou - Eu penso que hoje está mais fácil para todos. Porque já faz 6 anos que partimos pelo mundo, tocando em todos os países possíveis, e abrimos um caminho para os outros grupos, e há muito mais gente que conhece o estilo. Eu acho que está menos difícil.

Há uma mulher que cantou em seu disco mais recente, Live in Paris, Lala Badi, uma voz impressionante. Pode me falar um pouco dela?

Eyadou - Ela é muito conhecida em nossa terra. Ela é tuaregue, é do deserto, muito talentosa, muito tempo de resistência, protege nossa cultura, História, a comunidade, a imigração. Ela vive na Argélia. É uma artista que tem servido muito à nossa causa.

Há muitos festivais ocidentais em que vocês têm tocado, como o Lollapalooza Chicago. Há uma cultura do rock nesses festivais. Como é sua relação com esse mundo indie?

Eyadou - Eu penso que a música de verdade não conhece fronteiras. Também cada artista faz seu caminho de forma particular, com sua marca pessoal. Eu vejo que há muita familiaridade entre o blues rock e a nossa música, muita proximidade. A história do blues começa no Mali, e mesmo hoje nós podemos ver que o blues e a nossa música carregam a mesma dor, o mesmo sentimento. A ligação permanece. A assimilação musical vem da repetição, é o coração dela.

As origens do blues são realmente do Mali, ou não? Ali Farka era muito próximo do blues, fez um disco sobre esse parentesco, Talking Timbuktu, com Ry Cooder.

Eyadou - Mesmo as pessoas que cantam o blues têm sua origem na África. Acho que já há 100% de certeza, os grandes bluesmen são de famílias de escravos, cuja origem era a África, a nossa casa.

O blues é tradicionalmente melancólico. Ele carrega a agonia da escravidão, de certa forma. A sua música também é melancólica. Ela carrega o quê?

Eyadou - O deserto, a excelência do deserto. Há de tudo na nossa música, porque há muita gente que não quer ouvir falar só de política, nem só de amor, nem só de melancolia. E as palavras nem sempre são necessárias. A música serve para que você possa ver melhor a si mesmo.

Os tuaregues são um povo nômade. E agora vocês são nômades duas vezes, vivem na estrada. Essa situação mudou sua música?

Eyadou - Sim. Há uma mudança. Primeiro, por causa de todos os meios de produção novos a que temos acesso hoje. Nós vivemos isolados muitos séculos, infelizmente, então agora nós aceitamos a mudança, é um mundo comunitário, mas nós também afirmamos nossa cultura, nossos princípios, ao mesmo tempo em que alargamos nossa visão.

Como você viu os recentes ataques terroristas em Bruxelas e Paris?

Eyadou - Eu penso que é difícil explicar como isso me toca, como me dói uma notícia como essa, gente que é morta durante um espetáculo, uma parada festiva. São criminosos, não é o islã. Criminosos que criam um problema para os verdadeiros islâmicos, é terrível.

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