quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TINHA AS CHAVES DO PARAÍSO NA GARGANTA







Ela tinha cantado para reis e presidentes. Fez duetos com Freddie Mercury, Luciano Pavarotti e Ray Charles. Cantou no funeral de Martin Luther King. Ela inspirou cantoras de diversas gerações, de Gladys Knight, Martha Reeves, Sharon Jones e Patti LaBelle nos anos 1960 e 1970;  Whitney Houston e Mariah Carey nos anos 80s e 90; a Tia Carroll, Jill Scott, Joss Stone e Rihanna no século 21. Foi cruel com Dionne Warwick e com outras que a veneravam, sabia ser arrogante e má.

Daí, quando a vi entrar no palco pela primeira vez na minha vida, com um vestido vermelho de dimensões continentais, no palco do Madison Square Garden, em Nova York, na noite do dia 30 de outubro de 2009, parecia que não era uma pessoa que eu via, mas um espírito de cinema, uma aparição holográfica de Ghost. Não tinha fé o suficiente para enxergá-la, mas ainda assim a via como se estivesse envolta numa névoa vermelha.

Naquela noite, ela cantou Make Them Hear You, Don’t Play that Song, Baby I Love you, New York New York e Respect. Aquele set seria toda a participação dela na festa do Hall of Fame do Rock’n’Roll, frente a 20 mil pessoas.  O taxista australiano que me levou para o hotel após o show quase chorou quando eu disse que tinha ouvido Aretha cantar.

Toda minha vida como jornalista de música eu tinha ouvido as alegações dos empresários do showbiz sobre os motivos de ela nunca ter vindo ao Brasil. “Aretha não considera as poltronas dos aviões capazes de acomodá-la”, disse um. “Aretha assina o contrato, mas depois não vem, cancela. É arriscado demais”, explicou outro.

Depois daquela versão de New York, New York, nunca mais consegui ouvir Sinatra da mesma forma. Porque Aretha tingia as canções de uma sacralidade diferente, tinha de fato as chaves do Paraíso em sua garganta. A raiz das tradições gospel nunca deixaram de ser a marca registrada de suas interpretações, e isso vinha lá do pai pastor Batista em Detroit, de certa forma seu primeiro agente e produtor artístico. Os sermões do pai dela foram lançados em disco pela Chess Records e sua casa era frequentada por gente como Nat King Cole, Art Tatum, Dinah Washington e outros.

Criança prodígio que se tornaria mãe ainda adolescente, ela já surgiu sendo apontada como sucessora de Mahalia Jackson e Clara Ward. Foi muito além: pode ser considerada uma descendente direta da saga agoniada e ao mesmo tempo emancipatória de Billie Holiday, Dinah Washington e Bessie Smith.  Quando escreveu sua autobiografia, Aretha: From these Roots (com David Ritz), que não é de jeito algum confiável, não foi surpresa quando Aretha deixou ali seu manifesto:  "I’m Aretha, upbeat, straight-ahead, and not to be worn out by men and left singing the blues". ("Sou Aretha, otimista, direta, e não para ser esvaziada por homens e largada cantando o blues". Provavelmente só Nina Simone encarnou com tanta propriedade o orgulho da condição feminina. “Ela sabe mais do que nós sobre tantos e tantos aspectos da experiência humana”, disse de Aretha o New York Times em artigo famoso de 1973.

Sempre que ouço as diatribes sobre o estrelismo de Aretha, parece que calha de vir à memória uma história que a Sharon Jones me contou de quando começaram a fechar as portas das gravadoras para ela, nos anos 1970, o que a levou a trabalhar como carcereira durante anos. Os executivos diziam: "Muito baixinha, muito preta, muito feia".

Foi o pai de Aretha quem a encaminhou para uma seara diferente, para a assimetria do pop e do jazz. Ele seguiu o atalho bem-sucedido de Sam Cooke para o pop e impediu que a filha seguisse o caminho da Motown, como era o caminho de sua época, para buscar um contrato com uma conpanhia internacional. Aos 18 anos, assinou contrato com a Columbia Records. Seis anos mais tarde, sem hits ainda, mudou-se para a Atlantic Records, bunker que impulsionaria de fato sua fama mundial, especialmente após ela ter gravado Respect. A canção, de 1967, originalmente gravada por Otis Redding, materializava um sentimento de liberdade que ressoava livremente naquele momento-chave da luta pelos direitos civis. Virou um passe livre de transversalidade na voz de Aretha, um manto de proteção da afroamericanidade, do empoderamento feminino. “Sua rendição de Respect lançou uma revolução”, disse Otis Redding sobre sua gravação.

Quase 50 discos gravados, 150 singles, incontáveis performances em megaeventos esportivos e políticos. Há coisas formidáveis na sua discografia e outras nem tanto. Mas é possível pinçar de cara, para uma introdução definitiva, o mais influente de seus discos:  I Never Loved a Man (the Way I Love You), seu 10º disco de estúdio, gravado há 51 anos em apenas duas horas com três músicos brancos (grande ponto de controvérsia na história da gravação, de tensão racial) nos lendários estúdios Muscle Shoals (onde Wilson Pickett tinha gravado), e que se tornou um marco divisor na história do rythmn’n’blues.

O produtor desse álbum, Jerry Wexler, escreveu que a angústia cercava Aretha Franklin da mesma forma que a glória de sua aura musical. “Seus olhos são incríveis, olhos luminosos encobrindo uma dor inexplicável. Suas depressões podem ser tão profundas quanto o mar negro”.

Sam Cooke, Ahmet Ertegun, Luther Vandross, Smokey Robinson, Marvin Gaye: a vida pessoal de Aretha Louise Franklin cruza com quase todas as terminações nervosas da música de nosso tempo. Um câncer no pâncreas a levou hoje, aos 76 anos, e eu vi no Twitter do Brian Wilson que ele escreveu: "Ela foi uma das maiores e mais emocionais cantoras. Eu costumava ouvi-la nos anos 1960, mas sua música é atemporal". 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O POVO NO TEATRO



fotografia: sergio silva

Às 23h30 do dia 18 de julho de 1968, na sala O Galpão, do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, assim que terminou a apresentação da peça Roda Viva, os atores foram surpreendidos por um ataque brutal e covarde. Integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) começaram a bater nos atores e na equipe do espetáculo.  Cerca de 90 homens, armados com cassetetes, facas, bombas de gás, dois revólveres e socos-ingleses, agiram dentro do teatro, e 20 ficaram fora. Espancaram as atrizes Marilia Pera, Jura Otero, Eudoxia Acuña, Margot Bird (Walkiria Mamberti estava grávida e berrava isso aos agressores), tiraram suas roupas, tocaram seus corpos, morderam-nas.

A peça, de Chico Buarque de Hollanda, tinha direção de Zé Celso Martinez Corrêa.

Na segunda-feira à noite, 50 anos depois daquele dia, Zé Celso e Chico Buarque voltaram a se encontrar num teatro em São Paulo, em uma nova circunstância de afirmação libertária. Chico não veio pessoalmente, mas seu texto estava de novo presente. Zé Celso compareceu de corpo e alma, vestido com um poncho do México: dançou, cantou uma canção moçambicana e insuflou os presentes a fazerem a rebelião da alegria, a tomar o poder pelo humor, pela consciência da Justiça, a abandonarem a sisudez da militância tradicional.

Foi no Teatro Oficina, abrigo das liberdades democráticas, como discursou Eduardo Suplicy durante o sarau. Sim, um imenso sarau de poetas, em prol da liberdade do presidente Lula.

Estava totalmente lotado; eu, desde a reunião de poetas para levantar fundos para o tratamento de Roberto Piva, nunca mais tinha presenciado algo do tipo. Não havia, apesar das presenças de Suplicy, Adriano Diogo e outros políticos, uma conformação partidária no encontro (não que haja algo errado nisso, não vivemos tempos de clandestinidade partidária - ao menos ainda). Mas expressava-se ali uma rara unanimidade política: a consciência de que se vive um momento de arbítrio; que se criou no País, além de um bloco de retrocessos políticos e comportamentais, um ambiente de censura, de restrição às liberdades individuais, de ataques subterrâneos à democracia travestidos de legalidade jurídica.

Me chamou a atenção, além dos textos de qualidade excepcional que foram lidos por seus próprios autores (apenas Carlos Rennó deixou que um vídeo de seu texto, gravado como música por Paulinho Moska, rolasse no telão), a amplidão etária dos presentes. Zé Celso e Sérgio Mamberti, octogenários de entusiasmo adolescente, juntavam-se à vulcânica verve da poeta e rapper Roberta Estrela D'Alva. O humor debochado de Manoel Herzog e a lírica contraída de Chico César e a presença sólida de Paulo Lins. 

Mas confesso que pirei mesmo foi no poeta Carlos Moreira, de Roraima. Magnético, com seu chapéu de Crocodilo Dundee, a segurança irônica de sua figura, o sotaque de alguém que vive num mundo que se integra ao nosso mas não o alcançaremos nunca totalmente e a profundidade de sua leitura do linchamento moral, da interdição existencial. Seu poema Sete Lições para Estripar um Homem nasceu clássico. Tomo aqui a liberdade de reproduzi-lo, espero que o Moreira não se importe.




primeira lição para estripar um homem:

estripa-se o seu nome em praça suja
sua língua na lama sua sombra na sombra
em cada passo um golpe de medo
e no segredo que nunca houve
as larvas de milhões de segredos
segunda lição para estripar um homem:


para saber sua altura usar a régua do porco
a régua do rato a métrica do nojo
a balança do fogo: cada quilo valerá
menos que o outro e cada centímetro
um corpo a menos: a menos que o corpo
se jogue da ponte ou do porto 
e poupe o inútil trabalho da vila 
de matar um homem morto


terceira lição para estripar um homem:

não se estripa um homem só:
estripam-se os avós e netos
amigos silêncios e objetos
que cercam o homem a ser estripado
e tudo deverá caber no mesmo saco
um mundo inteiro reduzido
ao suposto fato de que tudo
retornará ao nada de que foi originado

quarta lição para estripar um homem:

estripa-se a palavra do homem
o dito o não dito o interdito
naquilo que sendo fala também cala
o que o torna homem: sua palavra
de homem que agora estripada
vale nada ou menos o que a pele
diria à faca: bem-vinda, senhora
sinta-se em casa

quinta lição para estripar um homem:

após estripado lança-se tudo
no fosso do fundo do calabouço
entre outros tantos estripados
carcaças de sonhos pedaços de loucos
para que até o fim dos tempos
de nenhum corredor possa brotar
o vivo reflexo de seus olhos

sexta lição para estripar um homem:

a vila inteira deverá lavar a praça
as ruas as casas as igrejas as estradas
e a própria vila deverá mergulhar
e manchar o rio com o vermelho
que escorrer de suas roupas pálidas
e queimá-las numa fogueira imensa
e caminharem nus e em silêncio
cada um em direção à cova de sua casa

última lição para estripar um homem:

verificar com exato cuidado
se a baleia não quer vomitá-lo
se não possui uma flauta de pedra
ou uma antiga lira afiada
que faça arrepiar a terra:
neste caso foi inútil estripá-lo:
multiplicado milpartido libertado
ele rompe a corrente do tempo
e atinge maior o outro lado:
inútil o sono da vila enquanto

canta o estripado



sábado, 28 de julho de 2018

O CHEIRO DO CABIDE


 o secretário de cultura de são paulo, romildo campello



A Comissão Nacional dos Pontos de Cultura vai entrar essa semana com uma ação civil pública com medida cautelar no Ministério Público de São Paulo contra a Secretaria de Estado da Cultura. Quinze pessoas assinam o documento. O motivo foi um edital publicado no sábado, 21 de julho, com o resultado da seleção de Agentes Mobilizadores Cultura Viva, contratados para atuar no mapeamento, articulação e mobilização dos Pontos de Cultura (programa do governo federal em parceria com Estados e municípios).

A comissão levantou suspeitas sobre a lisura da seleção. Dos 35 selecionados, 12 são coincidentemente ligados ou filiados ao Partido Verde (PV), o partido do atual secretário Romildo Campello. Entre os 12, há ex-candidatos a deputado federal, suplentes de senadores, candidatos a vereadores e gerentes do Partido Verde. Eles vão receber R$ 5.000,00 reais mensais durante sete meses.

O artigo 4 da lei da ação civil pública permite pedir a cautelar, ação mais rápida, com o intuito de evitar dano ao patrimônio público e social. A secretaria publicou a seleção no sábado e deu 3 dias corridos para se entrar com recurso. A comissão avalia que isso pode ter sido uma estratégia para não ser questionado o resultado.

Há vários outros pontos que são inquiridos pelos reclamantes: o fato de não ter sido um edital, mas uma seleção via plataforma Google (o que é atípico, porque não se usou a estrutura que a Secretaria de Estado da Cultura tem e utiliza para todos os outros procedimentos seletivos); também não foram selecionados suplentes, procedimento habitual nos editais públicos (até para o caso de eventuais desistências); e de não se ter publicado o nome de todas as pessoas que se inscreveram.

Outra polêmica que movimenta os bastidores da cultura estadual foi a contratação por 10 meses, sem licitação, da Fundação Getúlio Vargas por R$ 4.870.168,76. A intenção seria medir a eficácia do Programa de Ação Cultural (Proac), principal projeto de fomento do governo estadual. Ocorre que a FGV está sendo contratada sob representação de Sergio Franklin Quintella, que vive no Rio de Janeiro, e o  contrato prevê, misteriosamente, viagens aéreas para Brasília, além de incluir profissionais que receberão mais de R$ 250 mil cada um em 10 meses de atuação.

Na semana passada, a Secretaria de Estado da Cultura contestou em uma nota oficial a notícia da revista CartaCapital a respeito da contratação. “Se a reportagem tivesse checado, por certo, saberia que a contratação da Fundação Getúlio Vargas sem licitação passou por todos os trâmites legais, com parecer favorável da Procuradoria Geral do Estado. E mais, a determinação dos indicadores culturais na economia paulista é uma antiga reivindicação do setor”, diz o texto da Assessoria de Comunicação.



sábado, 14 de julho de 2018

PLAYLIST X MÚSICA AO VIVO





Foi divulgado neste sábado um edital do governo de São Paulo chamado SP Cultura no Metrô. Esse edital se propõe a contratar “músicos de rua, profissionais ou amadores” para tocar nas estações de metrô das linhas Verde, Azul e Vermelha - limite máximo de quatro apresentações por músico.
Até aí tudo normal. 

A coisa fica turva quando se vê quanto pagarão de cachê aos músicos “de rua” por suas apresentações: R$ 150.  A música ao vivo parece bem desvalorizada face aos algoritmos de música, na visão da secretaria de Estado da Cultura: essa semana, o site Tecmundo noticiou que o governo paga R$ 40 mil por mês para a ONG Instituto de Cultura e Cidadania (Incult) para fazer uma playlist de 200 músicas para 55 estações de São Paulo.

O valor pago para a música mecânica é equivalente ao que a secretaria paga para 266 músicos por mês. Segundo o metrô, a Incult foi contratada por meio da agência CC&P (Companhia de Comunicação & Publicidade). 


O secretário da Cultura, Romildo Campello, festejou o edital para músicos de rua. “A parceria permitirá o acesso de milhões de pessoas a múltiplas plataformas culturais. A produção cultural do estado multiplicada e compartilhada ao vivo e em cores. Atrações de qualidade e gratuitas para a população”. Estranha parceria: cada músico vai receber o equivalente a seis sanduíches do McDonald's.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

TODAS AS FAMÍLIAS FELIZES SÃO IGUAIS; CADA FAMÍLIA INFELIZ É INFELIZ À SUA PRÓPRIA MANEIRA





Os olhos desorbitados e incrédulos de Özil.
A desolação solitária de James Rodriguez no meio de uma torcida invisível.
O sorriso de universo em desencanto do treinador do Japão, Akira Nishino.
A cabeça geométrica de Mina.
O ar de desorientação espacial de Iniesta.
O bloco monolítico do corpo de Xherdan Shaqiri na linha de fundo que acabou e ele não notou.
Os braços pesados de tatuagens em movimento de Sampaoli, como se pertencessem a um semideus de desenho animado da Polinésia.
As pétreas orelhas de abano de Herrera, do México.
O esgar levemente aliviado de Salah.
O praguejar sincero de CR7 contra a sorte da porra do adversário.

Tem tanta literatura na queda que quase não tenho mais prestado atenção à elevação.
Vou corrigir essa postura.



título: do livro anna karenina, de tolstoi, leon. 

terça-feira, 19 de junho de 2018

AO MEU LEITOR LULA








Escrevemos quase sempre com a ilusão de que seremos lidos por multidões. Ondas de leitores que entenderão o livro e suas entrelinhas, seus recados vaidosos, seus pequenos egoísmos, as frases que não são deles, os leitores (são nossas, dos autores, coisas das quais temos dificuldade de desapegar). Muito raro autor que escreveu para não ser lido; nem mesmo o Dalton Trevisan, que só não quer mesmo é ser incomodado.

Mas certamente não  me parece sensato imaginar que os escritores escrevam também pensando num leitor gigante. Um leitor maior que sua imaginação, capaz de colocar milhares de crianças em ônibus novos no interior do Maranhão, da Paraíba e do Piauí indo pra escola pela primeira vez; capaz de dar fim a um ciclo centenário de mortalidade infantil; capaz de dar oportunidades para bisnetos e trinetos de escravos de se bater igualmente na mesma academia dos bisnetos e trinetos de seus algozes; capaz de nocautear um destino histórico de submissão, de autopiedade.

Também não creio em autor (talvez apenas o Dráusio ou o Johnny Cash) que escreva ou componha pensando explicitamente em um leitor que vá ler o livro sob privação da liberdade. Geralmente pensamos em leitor de vontade livre, esquecendo que a vontade sempre é livre. O que é cativa é a privação da liberdade de pensar, de dizer o que se pensa sem ser agredido ou segregado, uma perversa contribuição desse nosso novo Brasil ao mundo dos relacionamentos sociais e intelectuais.

Por isso, quando vi que o sr. tinha lido minha modesta peça sobre a gigantesca obra de Antonio Carlos Belchior, outro ídolo das multidões, eu fiquei emocionado. Não apenas porque compartilho a ideia de que o sr. é vítima de um arbítrio monstruoso, uma distorção kafkiana das noções de Justiça e de democracia. Mas também porque sei que há uma simetria de ideais e de trajetórias entre seu legado e o de Belchior. Que ambos sonharam um mundo melhor, pacífico, amistoso, solidário, cheio de encontros fortuitos e maravilhosos e companheirismo despojado. O sr. o conheceu, sabe do que estou falando.

Espero, sr. presidente, que o sr. já esteja livre quando eu terminar de escrever meu novo livrinho. Quem sabe não terei o prazer de lhe entregar pessoalmente? Acredito que irá gostar, é uma história que tem pontos de contato com a sua, embora não tão decisiva na construção de uma utopia eterna, maior que o cárcere, mais tenaz do que a covardia de uma Nação assustada com a ousadia do arbítrio.

sábado, 12 de maio de 2018

O CAÇADOR DE ORELHAS













“Sou caçador de orelhas, falo pra caramba!”, avisa Robertinho Silva.

Um dia, em setembro passado, acordei cedo em São Luis do Maranhão e fui ouvir uma aula-show de Robertinho, lendário percussionista e baterista.

Ele toca e conta sua história e a dos instrumentos e no meio de tudo dá aquelas risadas que são praticamente uma revelação. Fiz uma série de anotações e fotos que ficaram meio perdidas aqui alguns meses.

Filho de pernambucanos, Robertinho nasceu em Realengo, Rio de Janeiro, há 76 anos, quando aquilo ali era praticamente zona rural.

“Minha mãe era boleira. Fazia bolos muito bem. Eu pegava aquela latinha de Fermento Royal vazia, enchia de milho e ficava batucando. Eu não preciso de instrumentos porque eu faço instrumentos”.

O jeito de Robertinho contar a história é feito de breques e viradas improváveis. E muito ritmo.

“Um instrumento que marcou muito a minha vida foi esse aqui, a frigideira. Esse preconceito com a percussão vem desde 1900 e antigamente. O que é isso? Um neguinho tocando frigideira? Eu tinha vergonha de tocar na Zona Sul do Rio. Aí o Airto Moreira me viu tocando e me levou para os Estados Unidos para tocar frigideira com ele”.

Havia um soldado chamado Jair na pensão de uma tia, uma casa que alugava quartos no bairro de Oswaldo Cruz. O soldado tinha uma bateria no quarto. Robertinho era menino e entrava escondido no quarto quando o soldado não estava.

Robertinho sempre pedia: “Não fala pro soldado que eu mexi na bateria dele”. Era coisa que ele tinha visto no cinema, contou. Mas o soldado o viu tocando e perguntou: “Beto, você toca bateria? Toquei um baião pra ele”. A levada o soldado não conhecia e acabou tocando bongô com o grupo do soldado Jair.

Uma vez foi ao Méier comprar uma calça Lee e o dinheiro não dava. Viu uma bateria e levou a mãe para convencê-la a ajudar a comprar o instrumento, mas só conseguiu mesmo com extrema boa vontade do vendedor.

Em seguida, Robertinho se senta e toca o cajón com maestria, mas parecendo que é com displicência. “Já fui jardineiro. Nunca ninguém me ensinou nada. Eu sou autodidata em tudo. Não tinha bateria, ficava tocando caixote. Até que conheci o cajón. Soube depois que foi o Rubens Dantas que convenceu o Paco de Lucia a usar o cajón. Era um baiano que tinha criado o instrumento do flamenco".

"Tamborim não veio, vou tocar isso aqui. O chamado objeto sonoro".

Robertinho se diverte com suas próprias tiradas. Fulano era “inteligente, mas o lado burro dele era mais forte”.

"Nunca fui burro, mas eu sei. Mais de 70 anos e ainda ouço isso. Estava num estúdio de gravação e o artista distribuiu partitura pra todo mundo, menos pro percussionista. Mas o que é isso? Que preconceito é esse? Meus toques de tamborim eu sei escrever. Até hoje, tô estudando isso".

Quando estava em vias de desembarcar nos Estados Unidos, tocava com Caetano Veloso e disse: “Caetano, vou chegar nos USA e falar pro guarda: “My name is Bob Silver and i play very well!”. Esborracha de rir com seu próprio mimetismo da história.

“De repente, Jovem Guarda. Roberto Carlos. Todo mundo fala mal dele, mas para mim é gente boa”. Os nomes vão povoando sua narrativa. Jorge Negão, passista e ritmista da Portela.

"Cheguei a São Luis, queriam me levar para ouvir um boi. Eu disse que boi que nada, não quero ver boi. Mas acabei indo, e pirei. Aquele ritual, nego esquentando os tambores. Comecei a chorar. 'Toma catuaba que tu melhora', disse alguém. Chegaram e avisaram: 'Já são 8 horas da manhã, você tem que dar aulas daqui a pouco!'".

“Levei um tambor de criola para os USA. No aeroporto, os caras me disseram: ‘Meu irmão, comprou uma árvore?”.

"Não é que eu diga: agora vou estudar essa levada. Vai nascendo".

Ele vai ensinando e divertindo. "Gene Krupa botou tambor na bateria".

"Eu não quis ser ritmista de escola de samba. Para que serve a mão esquerda? Para dar tchau".

Tem 4 filhos bateristas. É o negócio da sua vida, diz. "Thiago, de 33 anos, malandrinho otário, me pede instrumento emprestado. 'Você nem usa'. Folgado!”.

"O agogô era proibido na escola de samba. Coisa de macumba. Mas sempre tem um maluco que invade a área. Já fui malandro. Eu sei".

"Um instrumento que não vai com a minha cara é a cuíca. É como dizem os mineiros: o trem fica enguiçado".


Em 1964, Robertinho foi levado para tocar com Cauby Peixoto na Boate Drink. Trabalhou um quarto de século com Milton Nascimento. No final dos anos 1960, integrou o mitológico Som Imaginário, que tinha Wagner Tiso, Luiz Alves, Frederyko, Zé Rodrix e Tavito.

Tocou com Lee Morgan, Airto Moreira, Wayne Shorter. "Airto é meu ídolo. Gravei um disco com ele, Identity".

Em mais de 6 décadas de profissão, tocou ainda com João Donato, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Flora Purim, Raul de Souza, Sarah Vaughan, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Bud Shank, George Benson, João Bosco e mais uma centena de outros artistas daqui e de outros lugares.

Acordar cedo para ouvir Robertinho Silva é uma doideira.