segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MEU AMIGO MOYA




Eu, Sidney Gusman e o mestre Álvaro de Moya em 2009




Em 2012, como fazia costumeiramente, o Álvaro de Moya me procurou na redação. Tivera uma ideia para um artigo que queria publicar e me deu o artigo. Era sobre Marilyn Monroe. Eu nunca achei uma brecha para publicar, tinha que convencer editores e isso me desgastava sempre. Fiquei com o artigo. Moya nunca se chateou. Eu o conheci em 1987, quando cheguei a São Paulo. Como todo mundo sabe, ele era O amigo de Will Eisner. A Brasiliense estava lançando Contrato com Deus e traria Eisner a São Paulo, ele me disse. "Você não quer ir esperar ele comigo no aeroporto?". Fui, voltei com Will e Álvaro de carro até o hotel onde ele se hospedaria. Ele me deu o telefone de Jules Feiffer e me trouxe até a redação Jerry Robinson, o criador do Robin. E depois trouxe para almoçar conosco o maior de todos os meus ídolos dos quadrinhos, Ivo Milazzo. Thiago Queiroz fotografou o Milazzo no heliporto do edifício. Eu tomei chope com Ivo Milazzo no Astor, na Vila Madalena, e fiquei amigo dele. Ele me apresentou Howard Chaykin. Ah, e eu ia me esquecendo do argentino Quino e do italiano Serpieri, que ele trouxe de carro para me apresentar em uma padaria ou no café do Sesc Consolação.

Ele me convidava para participar das palestras onde ele, Moya, evidentemente, era a única estrela possível, porque era amigo de todo mundo. Mas ele gostava de mim, e eu dele.

Álvaro morreu hoje, após sofrer um AVC do qual eu nem tinha sido informado.

Sem saber mais o que dizer dessa lenda dos quadrinhos brasileiros, eu publico aqui o texto inédito dele sobre como conheceu Marilyn Monroe no tempo em que viveu nos Estados Unidos. Ele escreveu o artigo porque estava indignado com a indicação de Michelle Williams ao Oscar por sua atuação em Sete Dias com Marilyn. Ele chamou de "avacalhada academia".

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Em 1958, tive a sorte de conhecer Marilyn.

No elegante prédio no East Side, em Nova York, com direito a porteiro com roupa de
almirante, toquei a campainha do apartamento a fim de entrevistar Arthur Miller para a
imprensa brasileira.


Vozes femininas ouvidas me assaltaram de excitação... e se ela estiver aí? Abre-se a
porta e Marilyn Monroe está diante de mim! Sem gaguejar, apresento-me como o
repórter brasileiro que veio entrevistar Mr. Arthur Miller. Ela me faz entrar na ante-sala.
Uma senhora está numa pequena sala à direita, um mini escritório. Cumprimenta-me.

Mas nada disso me interessa, ela está na minha frente. Muito mais linda do que no
cinema. Os cabelos estão livres de laquês. O rosto, sem maquiagem é totalmente pálido,
lembra-me uma criança, cheia de talco. Tem um pulôver grande bege claro, calças de
corduroy marron e descalça naquele enorme apartamento com uma grande sala de
visitas em frente e tudo com carpete branco alto e felpudo. Mas o que chama a atenção é
a aura dela. Tinha estreado sua própria produtora, e terminado seu contrato com a Fox.

Ela declarava sempre em alto e bom tom que ¨dava¨ para qualquer um, menos para
Darryl Zanuck, o ditador da major. E tinha se casado com um dos mais respeitados
intelectuais americanos, em vias de ser preso pelas autoridades por ter se recusado a ser
delator no Senado, durante a comissão de atividades anti-americanas. Ela estava feliz
como nunca.


Chega o grande dramaturgo: é muito alto, ela, descalça, parece mais baixa ainda. Sigo
os dois para um outro escritório maior. Ele se senta na escrivaninha, eu diante dele,
Marilyn, antes de fechar a porta às minhas costas, lembra o marido que tem aquele
outro compromisso. Ele me pergunta quanto tempo eu preciso para entrevistá-lo:
quarenta minutos. Ela sai. Exatamente quarenta minutos depois ela abre a porta e
anuncia que eles já chegaram. Eu me levanto. O escritor me manda sentar de novo e
pergunta se estou satisfeito. Digo que sim.


Ele me acompanha até a porta de saída. Falo que, se soubesse que ela estava aqui, teria
trazido minha máquina fotográfica. Ele diz que não permitiria, pois meu pedido era
apenas para entrevistar a ele. Recolhi-me em minha humilde insignificância pois
esquecera que os americanos são assim. Pedi, então fotos dos dois para ilustrar a
matéria. Ele me deixou no hall e entrou na salinha com a senhora e começou a
selecionar as fotos. Lá no sofá, dois homens engravatados estavam com a estrela.


Quando ela me viu na porta, em pé, veio fazer sala em gesto de notável atenção.
Aí, resolvi atacar. Nada de abraços e beijos, fanzoca! Revelei que fazia parte de
um grupo de jornalistas críticos de cinema que seguiram sua carreira desde os primeiros
filmes. Disse que vimos  All About Eve, Love Nest, Love Happy e até Girl of the
Chorus, todos filmes em que ela tinha pequena participação. Ela se surpreendeu. Vocês
viram tudo isso? Sim, e notamos sua personalidade forte desde as primeiras aparições
em Hollywood. Comentei que o único filme dela que não vira foi The Prince and the
Showgirl, primeira produção dela. Ela disse que o filme não foi bem sucedido.


Faço um parêntesis para citar uma coletiva de imprensa quando ela anunciou sua
produtora. 
(Disse aos repórteres que gostaria de fazer a personagem Grushenka, no romance Os Irmãos Karamazov, de Fiodor Dostoievsky. Os jornalistas americanos regorgitaram: a loira burra de Hollywood falando do grande escritor russo? Ela, com aquela candura, fingindo ser a loira burra da Meca do Cinema, declarou: alguém aqui já leu Dostoievsky? Silêncio. Nenhum dos jornalistas norte-americanos tinha lido um livro

sequer do autor. Depois de um tempo, Marilyn declarou que tinha lido e achava que
poderia ser Grushenka. Uma lição não aprendida pela mídia. Esta procurou Billy Wilder,
que confirmou com seu grande senso de humor e mordacidade: claro, Hollywood vai
filmar Os Irmãos Karamazov, depois The Return of the Karamazov Brothers, em
seguida, The Karamazov Brothers Rides Again e of course, Abbot and Costello meets
The Karamazov Brothers! A MGM filmou o romance, devidamente vulgarizado na
Fábrica de Sonhos, e colocou Maria Schell no papel da heroína russa!.


Naquele inesquecível momento de minha vida, na ante-sala, diante de Marilyn, disse
que achava seu melhor filme até agora
O Pecado Mora ao Lado/Seven Years Itch. Ela
achou uma coincidência. Esse filme foi dirigido por Billy Wilder, o mesmo que fará seu
próximo filme, que será produzido – e apontou para a sala – pelos Mirisch Brothers. Eu
me espantei de ver aqueles produtores famosos engravatados à procura da estrela.

Marilyn me disse que o título da película seria Some Like it Hot. Perguntei o que
significava isso e explicou: hoje é cool jazz. Mas outros preferem hot jazz, seria uma
comédia com gangsteres nos roaring twenties. Nós não sabíamos que
Quanto mais
Quente Melhor viria a ser uma das maiores comédias já feitas pelo cinema. Concluí
nosso encontro, declarando que a nossa turma do Brasil seguidora cinema (Rubem
Biáfora, crítico de O Estado, Walter George Durst, José Júlio Spiewack, Syllas Roberg),
achava que ela não era uma estrela e sim uma atriz. Ela agradeceu, de verdade. Arthur
Miller chegou com as fotos e acabou com minha alegria.


Desci para a rua e na Quinta Avenida, me senti um Gene Kelly, um Fred Astaire sem
talento, apenas imitei Li’l Abner, o Ferdinando, e saltei, batendo os calcanhares no ar.
No dia seguinte, na CBS Television, onde estava estagiando, os colegas
reclamavam: esse brasileiro vem aqui, toca a campainha e a Marilyn Monroe abre a porta para ele?



Álvaro de Moya


segunda-feira, 17 de julho de 2017

QUANDO AS BANDAS MORREM






De cima para baixo, as bandas Wander Wildner, Almirante Shiva e Seu Pereira e Coletivo 401

fotos de ANDRÉ DONADIO





Em maio, um aneurisma cerebral matou o baixista Pedro Souto, garoto de apenas 23 anos, da banda brasiliense Almirante Shiva. O grupo já tinha firmado um compromisso com o festival Paraíso do Rock no Paraná, então veio cumprir com sua palavra e tocar com um amigo no lugar do parceiro que morreu. Veio se despedir.

No sábado, no gigantesco galpão do CTG da pequena Paraíso do Norte, de apenas 13 mil habitantes, Almirante Shiva agigantou-se no palco. Um power trio de fundações pinkfloydianas e peso zeppeliniano, psicodelia com lápis nos olhos, visual de cartum do Robert Crumb, a banda fez a sua despedida com um show de puro transe, lisérgico, visionário.

Pouco antes do Almirante Shiva tocar, também Wander Wildner tocou com seu grupo, que incluía a baixista Georgia Branco (ex-Mercenárias) e a baterista Pitchu Ferraz (ex-Nervosa), duas instrumentistas saídas de bandas riot girrls.

Wander andou cabisbaixo depois de polêmica na qual se envolveu em 27 de maio no Fatiado Discos, um bar na Alfonso Bovero, no Sumaré, após citar no palco uma canção de 2007, Eu queria me casar, e ser acusado de machista e racista. Wander não tinha intenção de ofender, mas muita gente se ofendeu e ele acabou reconhecendo que a música, feita numa época em que não se debatia adequadamente as posturas de opressão de gênero, não é adequada.

“Essa letra me foi apresentada como transgressora (eu não era o letrista da banda). Violência de um personagem psicopata com estética de filme de terror. Essa era a desculpa da época. Pura idiotice, ridículo. Não sei como deixei isso passar. Realmente, não tem desculpas. Depois percebi que estávamos na verdade reforçando o padrão machista imposto pelo patriarcado, e que isso é na verdade a base desse 'sistemão' que vivemos. Então, não tem nada de transgressor aí. Definitivamente, não me orgulho disso, muito pelo contrário, morro de vergonha e de raiva de mim”. Novos tempos, novas posturas.

Mas o fato é que Wander ficou abatido com o tribunal do facebook, com os dedos apontados na cara, e acabou cancelando todos os shows da temporada. Por sorte, manteve o do Paraíso do Rock por amizade com o promotor, Beto Vizotto. O show foi extraordinário. Há um componente de expressionismo insano na performance de Wander, que é muito conhecido pelo seu pioneirismo no punk rock gaúcho com Os Replicantes, nos anos 1980.

Além da alta octanagem sonora de seu power trio, Wander está ficando melhor com o tempo, com a performance infatigável e a alienação charmosa de coadjuvante do filme Arizona Baby, dos irmãos Coen.

“Minha vontade é ser bonito, mas eu não consigo. Eu sempre volto atrás”, diz Wander, no Mantra das Possibilidades, talvez um dos clássicos mais inteligentes e com pegada de haicai de Paulo Leminski que exista no cancioneiro punk nacional.

Mas era uma noite de grandes surpresas no festival. Tão bons quanto Wander Wildner e Almirante Shiva, os paraibanos do Seu Pereira e Coletivo 401 instauraram um salão de baile no CTG, mas sem vanerão.

Com trompete e trombone no amálgama, Seu Pereira parece se alimentar das melhores tramas de Mundo Livre S/A, fundindo baião com funk, samba-rock com martelos agalopados, Criolo com Chico Science. É impossível resistir ao Seu Pereira. No meio de uma levada, ele enfia um dos mais famosos desafios dos repentistas nordestinos, Eu Quero Que Você me Diga o Nome de Vinte Menina.

Jonathas Falcão (evadido de duas faculdades, uma de música e outra de publicidade), vocalista, guitarrista e bandleader, disse que em breve estarão chegando para morar no Sudeste.

O Paraíso do Norte é um pedaço perdido daquelas utopias dos festivais que já morreram pelo gigantismo e pela ambição. Ali, ainda são regras os conceitos de paz & amor & solidariedade & descompromisso & irmandade & colaboração. Micro, mas grande.

Bem ali, no friozinho do Paraná, entre uma pale ale e uma costela na brasa, o cidadão que olhar apuradamente para o céu limpo vai enxergar bandas morrendo e bandas nascendo. Todas em explosões grandiosas que iluminam o céu durante muito tempo ainda.

domingo, 11 de junho de 2017

FELIZ REGINA


poeta no espelho (foto: jotabê medeiros/agência poltrão)


Noite passada fui a um sarau de poesia na Vila Romana.
38 Social Clube era o endereço. Havia poetas de cavanhaque, poetas de óculos escuros, poetas do vídeo e da palavra, poetas que declararam seu amor pelos loucos, poetas que queriam o efeito de um meme de internet e outros que lamentaram divertidamente não ter morrido por volta dos 20 anos, como Álvares de Azevedo.
Tomavam vinho e coca-cola e deram boas risadas.
Foi então que conheci Claire Feliz Regina.
Ela não era poeta até os 79 anos. Ou era, mas ocupava-se no trabalho de auditora da Receita Federal.
Agora, ela vai fazer 90 anos.
Foi descoberta pela poeta Elisa Lucinda.
Claire fala de maneira desconcertantemente simples de sexo e de sua imaginação feminina no coração das obsessões do mundo masculino.
Na despretensão literária de Claire, esconde-se uma poeta astuta. À sua maneira, reinventa o poeta fingidor de Pessoa.
"Uma mulher como eu/Sempre mente/Mente o que não sente/Mas sente muito o que mente".
Ela me lembrou a Orides Fontela, uma escritora que existiu antes da rendição, rejeitando o estereótipo de idosa.
Em 2014, a Patuá lançou seu livro intitulado Poemas Eróticos.
Pedi para fazer a foto dela na frente do espelho da Sociedade dos Poetas Vivos. 
Ela me disse que sempre leva um de seus livros para sortear entre os presentes. Dessa vez, ela tinha me sorteado antes e me ofereceu o livro. Só disse que estava cansada demais para fazer a dedicatória ali, pediu que eu a encontrasse no Facebook e pedisse sua amizade, que depois ela escreveria para mim.

domingo, 4 de junho de 2017

FOXEY LADY



malina moye entra em cena pelo meio do público ao iniciar seu show no samsung blues festival


Eu não sou guitarrista, mas vi shows de Jeff Beck, Joe Bonamassa, Eric Clapton, David Gilmour, Robben Ford, Jimmy Page, Steve Vai, Nile Rodgers, Dereck Trucks, Mark Knopfler, Warren Haynes, Johnny Marr, B.B.King, Buddy Guy, John Pizzarelli, Edgard Scandurra, Robertinho do Recife, Lanny Gordin. Também vi Ritchie Blackmore, Pete Towshend, The Edge, Toni Iommi, Keith Richards, Joe Strummer e outros com suas bandas.

Não estou me “gambando”, como dizia um amigo antigo gozador. Essa introdução é só para dizer que não vi muitas mulheres guitarristas. Vi Joan Jett, um clássico. Também vi Kaki King. E Joni Mitchell. Vi Ana Popovic, blueswoman já de grande popularidade, e ela é de fato uma grande guitarrista. Mas, emparelhando, nenhuma integraria um Top 10 com os homens das últimas três gerações, ao menos não as que eu vi tocando.

Acredito que as mulheres não fincaram posição no Olimpo da guitarra porque podem ter se intimidado face a uma linguagem que ficou cercada de símbolos masculinos, do falo à potência, e também (como no futebol), uma atividade de fanática adoração masculina, feita de deuses e sacerdotes machos.

Tudo isso para concluir: Malina Moye está entre os 10 melhores novos guitarristas da atualidade, entrou tranquilamente no Top 10. A Guitar World a coloca como uma das 10 Melhores Guitarristas Mulheres, mas ela ocupa o mesmo lugar entre os homens. Não sou guitarrista, não tenho elementos tecnocráticos para afirmar isso, mas estou falando como uma mera Testemunha do Riff Eterno.

Malina Moye tocou na noite de sexta-feira no Samsung Blues Festival, em São Paulo. Ela podia ter se esmerado em fazer parte do time do blues para agradar a plateia, mas o fato é que ela é muito mais do funk e do R&B. 

Ela é amiga de Bootsy Collins e foi ao programa do Arsenio Hall. Ela tem Prince como referência. E Stevie Ray Vaughan. Portanto, ela faz barulho, é estridente e instala o caos, não o armistício.

Malina Moye entrou em cena com sua guitarra tocando pelo meio da plateia. Antes dela aparecer, a banda fazia um aquecimento agressivo, e era uma banda de jam funky, com bateria e baixo mais altos, um teclado Korg, outro Yamaha, um guitarrista base. E mais uma vocalista soul sista de apoio, inacreditável. Era mais Sly and the Family Stone do que blues elétrico. Malina é sexy e abusada.

Ela tem canções que tocam no rádio, disse que uma dessas músicas, Alone, que começa com samples e uma gravação distorcida, chegou às paradas da Billboard (não fui checar). Quase tudo é acelerado, tem um peso de periferia, como Ky-Otic, e ela chega a tocar esfregando as cordas da guitarra no pedestal do microfone, mas tem baladas fabulosas, como You're the One.

Os solos de guitarra de Malina têm virtuosismo, velocidade, imprevisibilidade, tudo isso. Mas têm algo mais: carregam um depoimento sobre a vida e uma emoção que criam rara intimidade com nossos sentimentos. Alcançam algo muito profundo.

O equipamento do festival ferrou com ela a certa altura do show, o som estourando e a guitarra sumindo, mas ela não parou o show para reclamar. Ela seguiu tocando e improvisou, cantando, enfiando na música um apelo para que devolvessem “my fucking guitar, my fucking wah wah”. Gênio. Terminou tocando Jimi Hendrix, Foxy Lady.

Considero que o show dela foi um dos grandes acontecimentos do ano. Se eu estiver enganado, terei sempre aquela certeza suave (e arrogante) de que acertei solitariamente. 

quinta-feira, 11 de maio de 2017

A CASA DE IVAN






No ano passado, no dia do Natal, uma viatura da polícia passou e o policial perguntou a Ivan, que dormia na praça Haya de la Torre, uma ilhota na Avenida Juscelino Kubitschek, quase Avenida Santo Amaro, em São Paulo: "Você já comeu hoje?".
Como a resposta foi negativa, os policiais o mandaram a um restaurante no shopping ali perto, para que comesse, e pagaram sua conta. Na volta, Ivan achou um monte de madeira. Começou então a construir sua morada naquela mesma praça.
"Eu dormia na calçada, mas as pessoas não enxergavam. Aí eu construí uma casinha de bonecas, assim passei a ser visto", ele diz, com o entusiasmo de quem tem uma história única para contar.
"Ao todo, até hoje, gastei apenas R$ 4,60 em pregos. O resto tudo achei na rua".
Uma boneca chama outra. Ivan passou a construir casinhas de boneca na praça. O canteiro, abandonado e seco, ele encheu com mudas de plantas que achou nas caçambas.
Sua própria casinha de boneca, onde viveu nos últimos 5 meses, foi sendo decorada. Fez armários e guarda-roupas para seus pertences. Reformou um abajur e de uma sirene de saída de garagem ele fez um poste de iluminação. Há uma garrafa de Jack Daniels na prateleira da cozinha. Há livros e revistas e a cama está impecavelmente arrumada. Há tapetes de boas vindas e fontes de eletricidade alternativas, baterias.
"Sou um morador de rua, não sou outra coisa. Mas quando eu decidi viver na rua eu pensei que queria continuar sendo eu mesmo", ele diz.
Conta que veio parar na rua após uma separação traumática. Essa parte eu vou pular porque precisaria ouvir a ex-mulher dele para saber se é verdade o que diz.
Seu capricho chamou a atenção: ganhou várias latas de tinta para pintar seus artefatos, e serrotes, e martelos, e alicates.
Há algumas semanas, uma mulher que trabalha em um dos edifícios de escritórios na região começou a tentar Ivan com uma proposta: levá-lo para ser caseiro de seu sítio. Ele é um ás na jardinagem. Ele foi negociando, até que topou. No dia 20, as casinhas de boneca de Ivan abandonam a avenida. Ninguém quer viver na rua para sempre.
Ivan nasceu em Ipirá, Bahia, a 86 km de Feira de Santana.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

JACK

jack dando banho no meu pai



Os bombeiros ligaram as sirenes de seus caminhões quando começamos a caminhada. O professor Guerreiro tocou ao violão uma versão acachapante de Wish You Were Here. Os amigos de bandas também estavam lá e tocaram Raulzito e Tim Maia. Nino trouxe uma camiseta do Led Zeppelin e cobriu seu peito com ela. Também estendeu um estandarte do Palmeiras. A turma de escola da Duda pediu para vir visitar e, em fila indiana, crianças entravam e saíam chorando da sala. As crianças o amavam. Veio gente muito jovem e gente muito idosa, e um cachorro passeou pelo meio das pessoas, como um amigo íntimo.

“Escreve algo lindo para ele, pai”, tinha me pedido Laura um pouco antes do embarque para o funeral, em Congonhas, enquanto comíamos uma refeição que descia como pedra no meu estômago. “Não consigo, filha”, respondi. Eu sentia que nunca conseguiria, me parecia uma heresia usar meu instrumento comezinho de ganhar a vida para falar do meu irmão, ele era muito maior que os truques de redação, a vaidade empostada do textão, o jogo de montagem de palavras do Word.

Mas, conforme o carro atravessava o céu flamejante sobre a ponte do Rio Ivaí, na segunda-feira, eu começava a me dar conta que era inescapável escrever algo. Porque as coisas da nossa vida vinham à minha cabeça pedindo para fugir, um torvelinho de imagens, um slide show sem cronologia. E também porque Jack era meu maior leitor, ele teria sentido falta.

Jack foi um heroi de verdade. O único que conheci em minha vida. Com apenas 11 anos, ele se atirou sobre meu pai para evitar que batesse em minha mãe, e foi surrado e expulso de casa. Esconderam-no na casa do Tio Zé, em Umuarama, até que minha mãe fez meu pai fingir que o perdoara. No final da vida, ele cuidou do meu pai e providenciou que ele tivesse uma sobrevida que nunca teria tido se não fosse aquele afeto.

Nessa mesma época, fomos tomar banho no rio que passava sob os trilhos do trem. Apareceu um cara, já com uns 18 anos, bem mais velho, que ficou puxando conversa. Quando íamos voltando, o cara veio nos seguindo. Eu andava um pouco à frente. Olhei para trás e vi que o sujeito puxara uma faca e foi para cima do Jack. Jack usou a camiseta como um lenço de toureiro e a faca rasgou a camiseta. Eu enchi as mãos de pedra brita e desferi uma saraivada de pedras no cara, que recuou. Jack também se armou e o expulsamos para o mato.

Na era da discothèque, minha irmã Salete fez roupas para a gente copiando os modelos que o Tony Manero usava nos Embalos de Sábado à Noite. Minha irmã Neide nos ensinava a dançar. A gente andava imitando os maneirismos de Travolta. Foi quando sacamos que Jack era o próprio Tony Manero. Era um Travolta de arribação, nosso sorridente transgressor de punhos de aço. Tinha um imã para a sedução e outro para a encrenca.

Jack sempre abrigou os outsiders. Quando moleque, ele se tornou amigo de um garoto chamado Dé, que andava descalço e tinha um cachorro feio de nariz vermelho que pingava, como se gripado. Ninguém queria ser amigo do Dé, mas o Jack era. Dé era a sua sombra. Nesta terça, na despedida de Jack, duas figuras vieram me dizer que tinham perdido seu único amigo. Uma delas foi o Futata, que me chamou para segui-lo. Eu fui, e ele me levou até o Bar do Du. “Ele me trazia aqui toda vez que eu o visitava, e a gente comia torresmo e tomava cerveja. E depois jogava sinuca”. Imitei todo o percurso, comi o torresmo, tomei a cerveja e joguei com o Futata. Empatamos a partida em um a um.

Em Curitiba, em 1980, Jack e meu primo Edson baixaram na quitinete que eu alugara na Cruz Machado. Para ficar. Ouvíamos Hurricane o dia todo e alimentávamos a esperança de um convite para bailes de debutantes lá no Batel. Éramos tão famintos que Jack e Edson planejaram uma vez matar uns patos do Passeio Público para comermos. 

Jack era tão destemido quanto maluco. Quando voltou da Legião Estrangeira (serviu em Marselha, essa é uma longa história), ficou uns dias na casa de um outro soldado que deu baixa. Escrevi para lá, já fazia um ano que não tinha notícias dele. Era o endereço que tinha no envelope que chegara em casa com um hinário de canções da Legião. Escrevi em português, para o Jack. Um francês me escreveu de volta em um papel datilografado, que guardo até hoje: “Jack saiu de casa há uns 5 dias. Tinha 400 francos no bolso e botas quentes. Disse que ia para Barcelona”.

Quando regressou ao Brasil, Jack bateu na porta de minha casa em São Paulo. Toda hora revirava a mochila em busca de algo. Eu perguntei o que era e ele disse: “Meu hâmster. Sumiu no dia em que eu tava embarcando para cá”. Dois dias depois, algo fedia tanto no quarto que ele achou o hâmster morto dentro das suas botas de neve de legionário.

Ao voltar ao Paraná, foi de carona até São Jorge do Patrocínio e, ele e meu irmão Marcelo, quando passavam em frente à delegacia de Altônia, dois policiais do destacamento implicaram com a mochila de andarilho que ele levava às costas e lhe deram voz de prisão. Dentro da delegacia, o sargentinho cometeu a burrice de dar um sopapo no Jack, que se virou e lhe deu um soco tão potente que o cara apagou. Os outros dois vieram e foram igualmente moídos na pancada. O pequeno destacamento estava destroçado, na frente do apavorado delegado. O caçula da família, Marcelo, pediu que Jack fosse razoável e se entregasse. Ele colocou as mãos para a frente e o algemaram. Tentaram bater nele de novo, e ele pegou um cabo de vassoura e desceu o sarrafo, mesmo algemado, e os encurralou num canto. Colocaram na cela do cara que diziam que era o mais perigoso. Ele e o cara ficaram amigos. No dia seguinte, o Futata (o mesmo da sinuca e do torresmo) foi até a delegacia com um advogado, pagou a fiança e soltaram meu irmão.  

Eu lembrei do Jack vindo à minha casa em Curitiba, no tempo em que trabalhou numa agência do Bamerindus em que eu tinha conta: “Peguei sua ficha no banco. Já tinha três carimbos de cheques devolvidos. Rasguei”.  Mas Jack, eu ponderei, isso pode te trazer problemas, porque fez isso? “Fichas somem todo dia. Não tem problema”. Fizera aquilo para evitar que eu fosse bloqueado pelo Banco Central.

Em São Paulo, certa vez, ele e meu irmão caçula, Marcelo, vinham descendo uma rua ali paralela à Consolação quando ralaram um carro estacionado. Ao pararem para ver o que tinham feito, três brucutus começaram a bater neles com uma trava de volante. Eles reagiram e trituravam os caras quando uma viatura da PM chegou e deu voz de prisão. Pegou seus documentos e mandou que os seguissem ao DP. Eles seguiram duas quadras, viraram à esquerda e fugiram. Eu estava de plantão na redação, na Barão de Limeira, quando me chamaram da portaria. Pedi e o Tognolli resolveu a parada com um telefonema para o delegado, que os chamou para uma bronca e devolveu os documentos. 

Jack trabalhou para a máfia coreana do Bom Retiro, colheu maçãs no Sul da França, foi frentista noturno do Posto São Jorge, alimentou uma infinidade de gatos e cães da rua, foi dono do mais impressionante sebo de discos do País, fez móveis rústicos nos fundos de casa para vender e chorou quando assistimos The Doors com o vocalista do Cult, Ian Astbury, no antigo Credicard Hall.

Seu nome veio de Jackson do Pandeiro, que minha mãe curtia. Seus muitos sobrinhos foram todos influenciados por ele: Alessandro, Diego, Guga, Guilherme, Michele, Claudia, Paulinho (muito), Paulo de Célia, Cris, Marlon (muito), Tê, Matt, Lau e finalmente o pequeno Bento, último a reivindicar sua atenção exclusiva por dois dias inteiros.

Marcelo, nosso caçula, se tornou subtenente do Corpo de Bombeiros. Mas não foi por lealdade ao oficial Medeiros que todo o Corpo de Bombeiros foi até a despedida: todos amavam Jack verdadeiramente. Vieram todos uniformizados, com suas viaturas muito limpas e as calças bem passadas. Eu não pude evitar o clichê (e Jack não tava nem aí para clichês, comia com farofa de carneiro) de pensar no poema de Auden, especialmente a parte dos policiais com luvas pretas de algodão:

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
"Ele está morto"

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.

Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.



Ele foi aplaudido no final e deixou um vácuo que se alastrava como uma neblina triste no momento em que tivemos que ir embora para nossas casas. Uma das minhas irmãs, não lembro qual, me pediu para agradecer aos presentes quando o corpo de Jack já tinha baixado à sepultura. Eu tentei falar e saiu um uivo medonho. Só consegui dizer que foi lindo, foi tudo muito lindo.



quinta-feira, 6 de abril de 2017

VIP-RADA CULTURAL






Além do anúncio de que fará shows em recintos fechados em Interlagos e Sambódromo, João Dória Jr. divulgou no Diário Oficial do Município que a Virada Cultural, nos dias 20 e 21 de maio, terá "estrutura qualificada de atendimento" - o que permite deduzir que estão pensando em áreas VIPs e cercadinhos para a "gente diferenciada".
A Prefeitura está vendendo, até o dia 20, cinco tipos de cotas de patrocínio para o megaevento - o mais barato custa R$ 300 mil, o mais caro custa R$ 4 milhões. A Virada Cultural de 2016 custou R$ 15 milhões. O anunciante poderá expor sua marca nas laterais dos palcos, na testeira dos palcos, nas lixeiras, banheiros e guarda-sóis do evento.
A Virada Cultural 2017 prevê 900 atrações nos palcos, 200 a mais do que em 2016, a última da gestão Haddad. A maior aposta de Doria, além dos eventos em recintos fechados, é numa "maior ocupação territorial".