terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DEZ LIVROS SOBRE MÚSICA





Geralmente se diz que a questão da música se resume à preferência pessoal, o que é evidente: todas as paixões humanas estão relacionadas a um jogo de favoritismo e subjetividade.
Mas haverá sempre o esforço de descrever ou narrar a saga histórica, biográfica e objetiva da música. A música e sua circunstância criam consideráveis capitais simbólicos, culturais, éticos, estéticos. Festivais, tendências, comportamento, poesia e atitude: todas essas variáveis implicam em narrativas interessantes. Artistas criam bunkers sociais e culturais que mobilizam gerações. Outros fabricam sua "lenda" de forma a influir na retroalimentação de uma mitomania.
Alguns livros sobre música são, em minha opinião, fundamentais. Me desafiei aqui para, entre os livros mais decisivos sobre a música pop, destacar alguns por motivos objetivos: historiografia, narrativa, documento social, exercício estético, científico ou manifesto cultural. Uma bibliografia básica (com auxílio de alguma pesquisa) para a introdução à música com explicação.


MATE-ME POR FAVOR - (Legs McNeil e Gillian McCain, L&PM, 1996). Um dos principais livros sobre o movimento punk , inventário dos anos 70 e da chamada Blank Generation, com entrevistas intercaladas como se fossem um papo em que os personagens são Iggy Pop, Patti Smith, Joey Ramone, Debbie Harry e Malcolm Mclaren. Passeando desde a Factory de Andy Warhol até o Max's Kansas City (nightclub e restaurante no 213 da Park Avenue, em NYC, que foi bunker de artistas nos anos 60 e 70), chegando à Inglaterra operária dos anos 80, os autores Legs McNeil e Gillian McCain inventariam o que significou o movimento. McNeil batizou o movimento punk em 1975, ao dar este nome a uma revista de música e cultura pop dos anos 70. Foi editor da Spin e editor-chefe da Nerve. Gillian McCain foi coordenadora de programação do Poetry Project na St. Mark’s Church, onde Patti Smith fez suas primeiras leituras e os diários de Jim Carroll foram descobertos. Passeando por uma trip de sex, drogas, morbidez e cultura pop, o livro inicia com a terapia de eletrochoque que Lou Reed, internado pelo próprio pai pela natureza contestadora, recebeu num manicômico, e passa pelas mortes de Sid Vicious, Johnny Thunders e Nico, além das aventuras sexuais de gente como Dee Dee Ramone. Construído como uma história oral, o livro parece aproximar experiências e artistas que, de fato, estavam vivendo tudo aquilo em momentos distintos. O mítico Richard Hell, da banda Television, resumiu a natureza das bandas punk da época: “A coisa toda era para ser tão chocante quanto desagradável e tola”.

O RESTO É RUÍDO - Alex Ross (Companhia das Letras, 2009). Alex Ross sustenta, em O Resto é Ruído, que a música erudita de hoje seria a música da cantora islandesa Björk. Para o autor, a música dela ocupa espaço análogo àquele que, no século 19, era domínio dos compositores românticos. Crítico brilhante, Alex Ross passou, nesse gigantesco ensaio, da Viena da virada do século até a Paris dos anos 1920; da Alemanha de Hitler e da Rússia de Stálin à Nova York dos anos 60 e 70, mesclando o erudito e o popular, a música e a política. Analisou das obras do maestro Daniel Barenboim ao rock do Sonic Youth, Bob Dylan e o som minimalista de Philip Glass. O resultado foi celebrado com a indicação de Ross para o prêmio Pulitzer de 2008 e para o prestigioso Samuel Johnson Prize. Considerado um dos melhores livros de 2007 pelos jornais New York Times e Washington Post e pela revista The Economist, O resto é ruído foi vencedor dos prêmios National Book Critics Circle Award (2007) e Guardian First Book Award (2008).

LADY SINGS THE BLUES (Billie Holiday e William Dufty, 1956, Brasiliense/Jorge Zahar). A cantora Billie Holiday (1915-1959) publicou esse livro apenas três anos antes de sua morte. Não é só uma obra sobre a aura do jazz, mas sobre a grandeza de uma artista. “Já me disseram que ninguém canta a palavra 'fome' como eu. Ou a palavra 'amor'. Talvez seja porque eu me lembre do significado dessas palavras", ela escreveu — ou "ditou" — para seu ghost writer, William Dufty, o amigo que a acompanhou até o fim. A mãe de Billie a teve com apenas nove anos. Aos 12 anos, ela perdeu a virgindade com um trompetista de uma big band, prostituiu-se aos 13 anos.Em plena Depressão, então com 15 anos, Billie largou a vida de prostituta e foi viver com sua mãe no Harlem. Um dia, pedindo emprego pelos lados da Sétima Avenida, entrou na Rua 133 e num lugar chamado Pod's and Jerry's. Disse que era dançarina e queria um emprego. O proprietário a mandou dançar perto do pianista. "Comecei, e foi uma coisa deplorável", ela lembra. Então, o sujeito perguntou: "Garota, você sabe cantar?". Ela respondeu: "Claro que sei cantar, mas de que adianta isso?". Ele insistiu, ela pediu ao pianista que tocasse 'Travelin' all alone'. A boate inteira ficou em silêncio. "Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja, e apanhei trinta e oito dólares no chão".

KIND OF BLUE - A HISTÓRIA DA OBRA-PRIMA DE MILES DAVIS - Ashley Kahn (Barracuda, 2007) - Sobre "Kind of Blue", o crítico Jerome Maunsell, do Observer, escreveu o seguinte: “No dia 2 de março de 1959, às 2h30, sete músicos entraram no estúdio da Columbia na East 30th Street, em Nova York, e emergiram seis horas depois com aquilo se tornaria o primeiro lado do disco Kind of Blue. Os sete músicos (Miles Davis, Gil Evans, John Coltrane, Cannonball Adderley, Paul Chambers, Jimmy Cobb e Wynton Kelly) retornaram algumas semanas depois e em outras três horas poliram o segundo lado”. Aquela imersão dos músicos de "Kind of Blue" mudou a história do jazz, influenciou milhares de outros artistas pelo mundo e o álbum tornou-se o mais ouvido do gênero em todos os tempos. O biógrafo norte-americano Joseph Frank (1918 – 2013), autor da biografia do autor russo Fiódor Dostoiévski, acreditava que as obras de Dostoiévski só eram inteligíveis na medida em que o leitor conhecesse o contexto histórico em que foram produzidas. Esse livro faz esse trabalho.

MYSTERY TRAIN: IMAGES OF AMERICA IN ROCK’N’ROLL MUSIC, de Greil Marcus (1975). Um dos mais prolíficos e elegantes críticos de rock, Greil Marcus influenciou a escrita de gerações mundo afora a partir de uma perspectiva cultural da produção de música. Esse livro é uma espécie de Bíblia para os postulantes a esse mundo, com apreciações sofisticadas sobre um punhado de mitos (tais como Sly Stone, Randy Newman e The Band). Os manifestos de Marcus sobre a atividade de escrever sobre a música são sensacionais. “Música é uma coisa fundamentalmente ambígua, o que explica por que o seu poder de criar símbolos (em oposição a impor símbolos) é tão grande”, ele escreve. “A música pode fazer as letras mais estúpidas soarem profundas, mas no fim das contas ela não pode carregar uma mensagem específica: seu poder de criar símbolos é o poder de criar o símbolo ambíguo. Se uma peça é musicalmente viva, se ela tem um ímpeto próprio, ela vai rebater, vai questionar quaisquer imagens explícitas ou símbolos que supostamente carrega."

SÓ GAROTOS - Patti Smith (Companhia das Letras, 2010). O livro de memórias da cantora, poeta e compositora Patti Smith, que ganhou um dos maiores prêmios literários em lingua inglesa, o National Book Award, trata de sua peregrinação por Nova York a partir do final dos anos 1960, ao lado do artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ela conheceu Mapplethorpe no verão de 1967, e este se tornaria seu primeiro grande amor. Mapplethorpe se assumiria homossexual mais tarde. No livro, além de descrever a vida em alguns bunkers da contracultura, como o Chelsea Hotel, e narrar a gênese de alguns dos seus mais influentes discos, como Horses (1975), Patti revela uma notável e elegante prosa para o mundo literário, algo que ela retomou com fluidez no livro seguinte, Linha M (também lançado no Brasil pela Companhia das Letras). O trunfo da cantora é conseguir injetar na prosa o ritmo e a liberdade de linguagem para uma narrativa memorialística. “A direita está fortalecida, pequenos pensadores criminosos. O mal demonstra mais solidariedade que o bem, e as boas pessoas assistem sem reação a essa virada. A direita argumenta mais, fala mais. Às vezes é frustrante, para quem é humanista. Mas o que penso disso tudo é que temos de achar um jeito de atravessar esses conceitos, de direita e esquerda. O problema maior é a insinceridade, e a espécie humana está ameaçada. Um dia, todo esse nosso meio ambiente vai entrar em colapso, e não vai adiantar debater conceitos. Nós, como seres humanos, temos a responsabilidade de passar por cima de tudo isso, pela sobrevivência do planeta. Eu sou, apesar de tudo, otimista”, disse Patti.

LAST NIGHT A DJ SAVED MY LIFE (Bill Brewster e Frank Broughton, 1999). O DJ foi catapultado ao coração da moderna cultura popular especialmente a partir dos anos 1990, quando se tornou uma figura central na dance music e impulsionou uma cultura de clubes noturnos que, somente na cidade de Nova York, chegou a movimentar US$ 3 bilhões por ano. A figura do DJ projetou-se então para além de um programador musical, incorporando aspectos de entertainer, produtor, businessman e músico autoral. Superstars das picapes, como Carl Cox, Sasha e Digweed, passaram a ter status de rock stars, com contratos disputados e turnês milionárias. No livro Last Night a DJ Saved My Life, os jornalistas Bill Brewster e Frank Broughton iniciaram a chave historicista para a compreensão de como essa cena foi sedimentada, como cresceu e o que ela trouxe de novidade ao mundo da música e da eletrônica. Da cena britânica, a mais fértil no início, ao renascimento da disco music em Nova York, passando pelos sound systems da Jamaica e a emergência das técnicas do scratch no Bronx, passando pela cena industrial de Chicago e Detroit, eles documentaram a ascensão dos DJs. Com entrevistas com críticos, executivos da indústria musical, DJs, músicos e outros, escreveram um capítulo fundamental da História.

MUSICOPHILIA (Oliver Sacks, 2007). O célebre neurologista Oliver Sacks explora nesse livro fundamental o lugar que a música ocupa no cérebro, uma certa “memória fonográfica”  e como a música afeta a condição humana. Em Musicophilia, o autor foca naquilo que designa por “desalinhamentos musicais”, casos de 29 pacientes que sofriam de imprevisíveis efeitos cognitivos quando expostos à música. Entre eles,  pacientes com Parkinson ou autismo cujo ato de audição musical diminuía os sintomas; um homem atingido por um relâmpago que subitamente desejou ser pianista aos 42 anos; um grupo de crianças com síndrome de Williams, que desde o nascimento desenvolvem compreensão musical espantosa; pessoas com "amusia", para quem uma sinfonia soa dolorosa, quase uma tortura; e um maestro com amnésia, cuja memória durava apenas sete segundos (exceto quando se tratava de música). O dr. Sacks não se porta como um cientista apenas, mas um filósofo com talento literário atrás do mistério da música, “uma arte que é completamente abstrata e profundamente emocional”. Ele também proporciona um agradável passeio por um repertório de histórias da humanidade, como a de Che Guevara, “surdo do ritmo”, que era capaz de dançar um mambo enquanto a orquestra tocava um tango, e Freud e Nabokov, que tinham prazer zero com a audição musical.

HISTÓRIA SOCIAL DO JAZZ (Eric Hobsbawm, editora Paz & Terra). O historiador britânico Hobsbawm, um dos mais conhecidos teóricos marxistas do mundo, analisa ensaisticamente uma de suas paixões, o jazz, detendo-se em seus ídolos (Count Basie, Duke Ellington e Billie Holliday). Sua perspectiva é enxergar o jazz como criação revolucionária dos negros norte-americanos submetidos às circunstâncias históricas da escravidão. Combinando visão acurada com digressões intelectuais sofisticadas, Hobsbawm vê o jazz como uma revolução anticomercial, um abrigo contra o racismo fortalecido tanto nas fronteiras do New Deal quanto do Partido Comunista. Interessante ver a divisão analítica proposta por Hobsbawm, diferente da maioria dos críticos do jazz, da chamada pré-história (entre 1900 e 1917), antiga (1917 a 1929), média (1929 a 1941, com o aparecimento das vanguardas) até o moderno (a partir daí, com as linguagens do bebop, hard bop e do cool). Ele distingue os esforços comerciais do jazz e sua dinâmica interna autêntica, representada pelas jam sessions e pelo senso comunitário dos músicos. A música é vista neste contexto como elemento de resistência, o que contribui na sua difusão. Num quadro mais amplo: a industrialização e as transformações no padrão de consumo de pretos e brancos, a relação do jazz com a indústria de discos e espetáculos, a popularização e seus cultores.

REAÇÕES PSICÓTICAS (Lester Bangs, Conrad, 2005). Versão brasileira compacta da bíblia Psychotic Reactions and Carburetor Dung: The Work of a Legendary Critic: Rock ’n’ Roll as Literature and Literature as Rock ’n’ Roll, de 1987, mostra a combustão de que foi feita a literatura de Lester Bangs. O mais controverso crítico de rock da História, memoravelmene retratado pelo ator Philip Seymour Hoffman no filme Quase Famosos, morreu precocemente, aos 33 anos, mas deixou um compêndio de escrita que movimentou gerações. Reações psicóticas mostra reflexões de Bangs sobre a morte de John Lennon e Elvis Presley, relatos sobre uma noite de provocações com Lou Reed (quase terminando em pugilismo) ou Iggy Pop rolando sobre cacos de vidro e as idéias do autor sobre artistas como Kraftwerk, Van Morrison, David Bowie, Jethro Tull. “Em uma época sórdida de desejos contidos, a música de (Bruce) Springsteen é majestosa e apaixonada. Podemos nos elevar com ela, apreciando a agitação inebriante de um garoto talentoso navegando no pico de sua criatividade e sentimos sua música e poesia na medida em que ele atinge o Nirvana”, escreveu Bangs. Seus personagens são envolvidos em suas próprias tempestade existenciais, numa narrativa que leva em considerações as emoções do autor e da circunstância de sua época, com elementos de amor, ódio, sangue e substâncias ilícitas.


domingo, 11 de novembro de 2018

POETA DE VÁRZEA







Aos 27 anos, Mailson viu São Paulo pela primeira vez na vida na última quinta-feira, vindo do interior do Ceará. Trouxe consigo 15 livros na bagagem, 15 exemplares que restaram de uma tiragem de 300 livros que ele mesmo fez imprimir em sua cidade, Varjota (a 70 quilômetros de Sobral). Desenhou a capa ele mesmo, divulgou sozinho, encarou saraus de todo tipo, alguns possivelmente com apenas 5 ou 10 pessoas na plateia. Há alguns meses, em busca de ressonância, Mailson tinha ido à Feira Literária Internacional de Paraty, a FLIP, com um lote desses mesmos livros. Desconhecido e sem uma credencial de editora, deu seus livros de presente a pessoas que encontrava ou ia conhecendo pelo caminho.

Mas, na manhã dessa quinta-feira, ao chegar a São Paulo com os 15 livros restantes, Mailson Furtado Viana carregava uma grande expectativa. Seu livro, À Cidade, um poema compacto de 60 páginas, tinha se tornado finalista do Prêmio Jabuti de Literatura. “É evidente que eu não botava fé que podia ganhar. Eu concorria com Marília Garcia, que é do grupo de Angelica de Freitas, poetas de grande talento, de enorme repercussão”, ele contou. “São gigantes!”.

Ele já estava imensamente feliz de poder participar da festa, de curtir o momento de consagração que o tornaria, poeta de uma pequena várzea (é o que quer dizer o nome de sua cidade, Varjota: pequena várzea), uma celebridade doméstica. Mas Mailson foi além: papou o prêmio Jabuti de Melhor Livro de Poesia. A façanha já seria suficiente para fazer poeta sair dançando encarapitado no parapeito do Viaduto do Chá à meia-noite. Ocorre que as surpresas da noite ainda estavam longe de findar. O Prêmio Jabuti tem a seguinte norma: entre todas as categorias vencedoras, uma delas é escolhida como o Livro do Ano, que recebe um prêmio de R$ 100 mil.

Ao ser anunciado o nome do grande vencedor, lá estava de novo o nome do rapaz de Varjota, Mailson Furtado Viana. Choque entre o azul e o cacho de acácias!, como diria Caetano. O último poeta a conseguir tal feito com um livro de poesia fora o maranhense Ferreira Gullar, em 2011, com Em Alguma Parte Alguma. Gullar, entretanto, não só era universalmente conhecido, detentor do Prêmio Camões de Literatura, como também imortal, integrante da Academia Brasileira de Letras.

Mailson, escritor, dramaturgo, diretor de teatro, produtor e cirurgião dentista formado pela Universidade Federal do Ceará, tinha consigo apenas o estandarte nu da poesia. Não brandia credenciais nem recomendações, não falava em nome de decanos nem de autores laureados.
Entre nascimentos e mortes de ruas e nomes, bicicletas e árvores de praça, rotinas de tardes e noites e ritmos urbanos, ele edificou um rigoroso poema anti-épico.  É sua cidade o centro de tudo, obviamente, mas ele estende À cidade aos povoamentos que se estendem ao longo de três eixos de expansão urbana da região: o fluvial, que se espraiou ao longo do rio Acaraú; o férreo, a linha do trem que serpenteia pelo Noroeste e chega até Coreaú; e o rodoviário, o mais antigo e disforme.

A mais de 3 mil quilômetros de suas ruas de origem, o poeta se sente à vontade na Avenida Paulista pela primeira vez. Pisa na calçada com sapatos gigantes, não toma rasteira da vaidade.

“feliz por esbarrar em mim na banca de jornal na avenida mais fotografada da américa. feliz por ter vontade de abraçar todo mundo a cada esquina. feliz por acreditarem que a poesia pulsa neste asfalto e nas veredas lá perto de casa. feliz por terem ficado felizes por mim”, escreveu, em sua mensagem aos conterrâneos.

Curioso por conhecê-lo, estabeleço contato e marco um encontro à revelia do poeta, que está muito assoberbado com os compromissos da súbita fama. Mas são apenas dois dias na pauliceia e não posso perdê-lo, argumento. Ele cede.

Chego afobado à Livraria Cultura, ansioso. Meu messenger não funciona e, na pressa, não peguei o telefone dele. Não consigo contatá-lo da rua. Só me disse que estaria pelos lados da livraria e não gravei sua fisionomia pelo que vi nos jornais.

Depois de uma briga com o velho celular de tela partida, consigo finalmente acionar o messenger. Pergunto, já sem esperança, se Mailson ainda está na livraria. “Aqui em cima. Já estou descendo”, ele diz.

Abraço o poeta, que se veste como eu mesmo, sem premeditação, e demonstra satisfação genuína em encontrar o biógrafo de Belchior. “Comprei o seu livro. Ainda não li, mas vou ler”, declara. Ele tem uma peça de teatro sobre o bardo de Sobral que estreou 16 dias antes da morte de Belchior. “Imagine você: a gente fazendo temporada com o espetáculo enquanto ele era velado ali. Foi difícil”.

“Quem está na sua fundação literária, Mailson?”. Eu pergunto para não deixar escapar a pergunta clichê inicial.

“João Cabral de Melo Neto. E Gerardo Mello Mourão, um poeta cearense que se tornou um gigante, mas ainda não é conhecido como merece. E Paulo Leminski. Li tudo que pude de Leminski. Cheguei aos russos por intermédio de Leminski, depois de uma biografia de Trótski.  Gosto da possibilidade cantada de Leminski, de sua musicalidade. E Ferreira Gullar. Não sei dizer ao certo onde está a presença de Gullar na minha poesia, mas também tem”, diz o autor.

“Hoje em dia, tenho descoberto outros poetas. Ando muito impressionado com Ana C.”
Você quer dizer Ana Cristina César?
“Sim, Ana C. Ela é maravilhosa. Uma capacidade imensa. Numa hora eu estou aqui, no instante seguinte estou ali.”

Por conta de algum sentimento de déficit de legitimidade, talvez um complexo de invasor, passo a tentar me mostrar íntimo do Cariri. Estive na Barbalha, vi os Penitentes da Barbalha cantando de madrugada, vi inúmeros conjuntos de pífanos - mas é tipo perguntar ao violeiro Roberto Corrêa sobre a influência da música caipira em sua música. Como a cultura popular ressoa em sua obra, Mailson?

“É incrível como a presença de dois poetas cearenses é impactante em quase toda a poesia que se tem feito no Ceará: Patativa do Assaré e Cego Aderaldo. E, ao mesmo tempo, como evitam mencioná-los. Acho que isso tem uma razão: como são artistas populares, não gostam de se associar a eles. Mas é difícil não achar a mão deles naquilo que se faz no Ceará”, ele me diz. “O Cariri é outro País!”.
Tento provocá-lo com alguma boutade, para ver se está mal preparado. Não cai em cilada.

“O que há de comum entre a poesia e o ofício de dentista?”. Mailson: “Porra nenhuma”.
Eu mesmo garimpei, nos versos dele, alguma traição a um ou outro ofício, mas tudo que encontrei foram esses versos:

“cá estou
               junto dos meus vinte e nove dentes
               que um dia desbotarão
               no rasgar de seriguelas”.


O poeta desfolha a bandeira. E a manhã tropical se inicia.
Marcamos uma cerveja no Becco do Cotovelo, em Sobral, em algum sábado futuro.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

RADIOMAN





Em 2005, eu estava em Nova York e vi uma aglomeração na frente de um restaurante na Rua 46. Muita gente agitada. Parei e também me agitei para saber o que era. Um homem de barba com um rádio no pescoço estava do meu lado e perguntei a ele o que estava acontecendo. "Nicole Kidman está aí dentro", ele disse. Eu achei a figura intrigante e começamos a conversar. Se um terço do que me dizia era verdade, aquele era de fato um personagem fascinante. Marquei com ele no dia seguinte no festival de Tribeca, perto de Chinatown, para conversar melhor, porque ele era o mais agitado ali. A história saiu parcialmente no jornal, na época, mas hoje, 13 anos depois, achei o texto original da reportagem, que segue:






Jotabê Medeiros
Correspondente


Nova York - O homem da bicicleta verde usa roupas bem amarrotadas e a barba amarela parece endurecida com algum gel. Nenhuma ventania seria capaz de mover seus cabelos. Parece claro que ele não toma banho há alguns meses, talvez um ano. Ele carrega um rádio de pilhas Sanyo no pescoço, amarrado com barbantes. A bicicleta está cheia de sacolas de plástico no guidão, nas quais ele carrega alguns donuts e objetos pessoais.

Ele parece o tipo de lunático que dificilmente alguém convidaria para um sarau, nem sequer para um café, mas quando o homem estaciona sua bicicleta na frente do tapete vermelho de uma pré-estréia do festival de cinema de Tribeca, em Nova York, os seguranças sisudos imediatamente o puxam para dentro. "Como vai, Radioman?", pergunta um deles, e o posiciona num dos lugares de honra do tapete vermelho. Radioman é o apelido de Craig Schwartz, de 54 anos, e ele costumava viver nas ruas de Nova York como um homeless, um sem-teto. A história de como ele se tornou uma espécie de mascote do cinema nova-iorquino é longa, mas o fato é que até hoje ele já "atuou" em cerca de 30 filmes: Mr. Deeds, A Intérprete, A Fogueira das Vaidades, O Elfo. Sua história serviu de base para um outro filme, The Fisher King.

"Você está atrasado, Radioman", diz um cinegrafista. "Aquele cara de Os Sopranos acabou de entrar". Radioman demonstra certa aflição. "Qual cara? Aquele grande? Gandolfini? Jimmy Gandolfini está aqui?", ele pergunta, ansioso. Conhece todos os atores pelos nomes. "Bruce Willis é meu amigo. Pierce Brosnan, o 007, me deu um relógio de presente", ele gaba-se. E Jimmy Gandolfini deu-lhe uma dezena de autógrafos em fotos de cena, autógrafos que ele trocou por sanduíches. Ele enumera os "amigos" que fez na carreira: Sandra Bullock, Goldie Hawn, Al Pacino, De Niro, Harrison Ford, Whoopi Goldberg. "Conheço todos".

Radioman tem carteirinha do Screen Actors Guild, ou seja: é sindicalizado. "Ganho US$ 18 por hora de trabalho, já cheguei a ganhar US$ 700", conta o homem-rádio. Mas qual é o papel que ele faz nessas produções? "A maior parte do tempo eu sou eu mesmo", ele diz. "Você já viu Mr. Deeds? Sabe aquele cara na rua que diz para o Adam Sandler: "Hey, olhe pra mim? Aquele sou eu".

Ele tem um trunfo: como é um cinéfilo obsessivo, dedicou-se a - enquanto vivia nas ruas (hoje mora no Brooklyn, ganhou um apartamento dos amigos) - "mapear" onde estavam os sets de filmagem pela cidade. Visitava todos, posicionava-se em lugares estratégicos e ficava amigo dos produtores. Ganhava comida e ajudava no que podia. Mais tarde, quando precisavam de um figurante na rua, ele era escalado. Tornou-se um personagem lendário no cinema. Encontrá-los nos filmes que mencionam é uma brincadeira como aquela Onde Está Wally?, mas ele não mente: está lá de fato, às vezes durante um tempo que é menor que uma fração de segundo.

"Um dia, eu estava num set de filmagem quando vi sair do trailer o Robin Williams. Eu gritei para ele: 'Você parece um cartum, Mr. Williams!'. Aí, ele olhou pra mim e veio na minha direção e me disse: 'Gostei desse cara, quem é esse cara?'. E foi assim que nos conhecemos", conta o caçador de autógrafos. Não é muito difícil topar com ele em Nova York: basta ir onde estão as filmagens. Ele conhece todas. Reza a lenda que os repórteres de celebridades e os paparazzi o procuram para saber notícias de quem está saindo com quem no mundo do cinema, quem ele viu e o que ele viu. Ele ganha a vida assim. A reportagem do Estado o localizou num restaurante de Times Square, onde ele aguardava do lado de fora a saída de Nicole Kidman, que estava ali para promover o filme A Intérprete.

No tapete vermelho do Festival de Tribeca, ele zomba de um fotógrafo do lado de fora. "Aquele é o Larry, você conhece o Larry?", diverte-se. O fotógrafo devolve a provocação: "Pergunte a ele como foi que ele perdeu as impressões digitais". Radioman não quer falar sobre isso. Mas parece que agrediu um policial, anos atrás, e passou um tempo em cana. Nascido no Brooklyn, esteve no Exército e trabalhou para os Correios dos Estados Unidos. "Comecei a beber, e caí nas ruas", conta, antes de interromper bruscamente a entrevista. "Um minuto, pode ser alguém!", diz, e corre para ver a limusine que estacionou na rua. Volta em seguida, pára para checar a bicicleta Rolling Rock verde e recomeça como se nada tivesse acontecido.

Então, ele explica a história do rádio pendurado no pescoço. "Quando eu morava na rua, eu costumava ter um rádio. Mas aí eu dormia nos bancos do parque e quando acordava tinham roubado meu rádio. Aí eu resolvi amarrá-lo no pescoço, para que não o roubassem mais", lembra. "Um dia, estava andando pelo parque e um policial me chamou: Hey, Radio Guy!. O apelido acabou pegando e eu gostei. Isso foi há 12 anos. Virei o Radioman".
Sua figura dificilmente é ignorada. O Canal 13 de Televisão o acompanhou durante alguns dias em sua frenética busca por sets de filmagem em Nova York. Mostrou Radioman em ação no Central Park e depois o seguiu até o set de The Namesake, o novo filme de Mira Nair, em Downtown Manhattan. Em 2004, o The New York Times fez um perfil dele, em abril de 2004, ao descobri-lo ao lado de Susan Sarandon e John Turturro num cenário de produção de um filme. Era Romance & Cigarettes.

Pessoalmente, o que Radioman pensa do cinema? Quais seriam seus filmes preferidos? Ele não titubeia. "Todos os filmes O Poderoso Chefão. Gosto de todos. Meus atores favoritos são Pacino e De Niro", conta.

Mas, nesses filmes que participou, alguma vez lhe deram um script? "Não, apenas me dizem o que tenho de falar, e eu improviso. Minha atuação é realista e também é inacreditável. Quando você vive por algum tempo nas ruas do mundo real, sabe que nada é como isso aqui que o cinema mostra. O que se vive nas ruas é indescritível", ele conta.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

NAS ASAS DE BELCHIOR






Quando a gente lança um livro, nunca sabe até onde ele pode chegar e como vai ser recebido.
Mas, quando embarcamos com ele para os lugares aonde ele é enviado, dá uma certa sensação de responsabilidade - tipo aqueles batedores da Wells Fargo dos filmes, irmanados à diligência e sua carga. Eu me lancei na estrada, nos últimos meses, para uma odisseia de lançamentos de Belchior - Apenas um Rapaz Latino-Americano, perfil biográfico do grande cantor e compositor cearense lançado pela Todavia Livros.

De Belém do Pará até Rio Grande (RS), de São Luís a Vitória, entre noites chuvosas e tardes escaldantes, hotéis de frente pro mar e pousadas nas margens de rios, confesso que andei. Até janeiro, foram cerca de 32 mil quilômetros percorridos e 14 cidades.

São Paulo foi o ponto de partida, como não poderia deixar de ser. No dia 4 de setembro, o livro foi lançado na livraria do Shopping Higienópolis - dias antes, houvera uma festa com show das cantoras Ana Cañas, Karina Buhr e Taciana Barros no Pacaembu, e foi uma noite de muita alegria, música, cerveja grátis e gente bacana, como os garotos da banda Pessoas Cinzas Normais. Mas lançamento mesmo, com rabiscos nervosos do autor para os leitores, foi na livraria Saraiva do shopping.

Comprei um par de botas novas para a ocasião, e foi uma má iniciativa: sempre que uso sapatos novos, sinto-me o Neil Armstrong andando na Lua, não parecem meus. Havia na livraria uma profusão de amigos maravilhosos dando uma força: o Mauricio Stycer, a Mara Gama, a Thais Oyama (amiga que, há 27 anos, me emprestou carro para buscar o filho recém-nascido na maternidade). Jorge Mello foi buscar seu autógrafo (e, certamente, checar se havia sido corretamente citado). Ricardo Kelmer, poeta que organizou coletânea de textos sobre Belchior, também foi. Ainda assim, confesso que fiquei receoso que aquela fosse apenas uma formidável noite de generosidade. Alegre, mas circunscrita ao domínio geográfico e afetivo.

No dia 5, embarquei cedinho para o Rio de Janeiro para o lançamento na Livraria da Travessa, em Ipanema. Ednardo, o lendário artista de Pavão Mysteriozo, tinha me dito que, se estivesse na cidade, iria. O Rio parecia ainda mais assustador, porque conto nos dedos das mãos os amigos. Ednardo demorou, mas chegou com sua boina inconfundível e me ladeou na mesa. A livraria foi enchendo, meu coração acalmando. Ednardo me chamou pelo meu nome (João Batista) e disse que me conhecia há mais tempo do que eu pensava.

“Eu me lembro de seus artigos na SomTrês. Sem falsa modéstia: você era um dos melhores”, sapecou Ednardo, e eu quase explodi de orgulho, inflado. Lucinha Menezes, a primeira intérprete de Belchior, também apareceu cheia de cachos e e cantou uma versão de Paralelas que a gente não conhecia, uma pedra bruta de Belchior. Ela contou sobre sua amizade com o poeta e chorou, e muitos de nós choramos junto. Depois, migramos para o outro lado da calçada, para um bar, e nos dedicamos a falar sobre as contradições de Belchior. Até que apareceu, tarde da noite, o cineasta Neville de Almeida com uma amiga para juntar-se à nossa trupe, uma dessas coisas fabulísticas que só o Rio de Janeiro proporciona.

No dia seguinte, desembarquei na gigantesca Bienal do Livro em cima da hora. Uma entrevista para uma emissora de rádio em Botafogo ultrapassou o tempo fixado e quase perco o lançamento na bienal, uma hidra de 600 mil visitantes e 3,7 milhões de livros vendidos. Cheguei quando o Ronaldo Bressane, um artesão do texto, saía. O mediador da mesa seria o Matthew Shirts, que eu só conhecia de nome. Ele veio falar comigo e tinha lido o livro e seu entusiasmo me deixou calmo e confiante. Éramos três escritores para discorrer sobre o tema num auditório-aquário muito muito cheio, pelo menos umas 400 pessoas, eu calculo. Ao meu lado, o notável botafoguense PC Guimarães, que sabe da arte de entreter multidões; mas não éramos nem eu nem ele o motivo da sala cheia.

Descobri o motivo rapidamente: repartia a mesa conosco uma autora de best-sellers, Ana Beatriz Barbosa, escritora de Mentes Perigosas (mais de 600 mil exemplares vendidos). A maioria das perguntas era dirigida a ela, que tinha uma autoconfiança apaixonante. Ana Beatriz dá consultoria a algumas produções da TV sobre psicopatas e mencionou estatísticas tenebrosas. Por exemplo: psicopatas são 4% da população. Pensei: acho que a estatística sobe quando se trata do Congresso Nacional.

De volta do Rio, me vi dirigindo às 6h da manhã de São Paulo até São José dos Campos, interior de São Paulo, para a Feira Lítero-Musical de São José (FLIM), no dia 17 de setembro. As edificações no parque Vicentina Aranha, projeto do arquiteto Ramos de Azevedo (o mesmo do Teatro Municipal de São Paulo), estavam coalhadas de famílias, crianças, música para todo lado. Entrei no camarim do anfiteatro e me dei conta de que, do meu lado esquerdo, estava Antonio Nóbrega, multiartista cujo jeito de narrar as coisas já é em si uma dramaturgia. Do lado direito estava Alice Ruiz, mulher tão forte que até o jeito dela olhar pra gente já é um manifesto do seu orgulho libertário.

Fomos incumbidos de levar até São José, cada um de nós, um livro que tivesse sido fundamental na nossa formação para discorrer sobre ele à plateia. Eu passara semanas pensado naquilo. Que livro? Que influência? Que formação? Levei um gibi, Ken Parker, dos italianos Ivo Milazzo e Giancarlo Berardi. Não há nada que tenha sido mais determinante no que eu me tornei do que essa HQ. Ali, entre tiros secos de um velho rifle Kentucky, aprendi poemas de Walt Whitman, versos de Shakespeare, canções de Woody Guthrie. Quando terminei de falar sobre o gibi, tava até com a voz embargada.

Em São José, autografei uns 50 livros e notei que as pessoas já começavam a ouvir falar da biografia. Muita gente vinha para pedir um autógrafo para o pai, a mãe, um tio, uma prima. A angústia de fazer uma dedicatória voltou - o desejo de expressar alguma gratidão sem subserviência, repetir-se com sinceridade, cansar-se sem desmilinguir. Lembrei de Borges citando Emerson (“A própria vida se converte numa citação”) e passei a encarar os autógrafos como algo além do livro, a expressão do momento vivido.

No dia 21 de setembro, caí do céu em Vitória, no Espírito Santo. No mesmo avião que eu, viajaram a cantora Tiê e o comediante e ator Moacyr Franco, que caminhava à minha frente rodando uma mala pequena. Pensei até em tirar uma foto dele escondida, Moacyr é um ídolo desde criancinha. Rogerinho Borges, meu anfitrião, foi me buscar e me levou direto para um almoço no restaurante Pirão para encontrar os integrantes da banda Os Mamíferos, talvez uma das formações mais antigas da psicodelia nacional. Hipsters dos anos 1960, anteciparam os Secos & Molhados em figurino e cenografia e flertaram com a poesia beat enquanto o resto da MPB cortejava a pop art.

Pirão é como chamam o dono do restaurante, Hercílio Alves. À nossa frente, enquanto ouvia histórias sobre Beth Faria, Sergio Sampaio, Max Roach, Edu Lobo, Art Blakey e outros, uma moqueca capixaba borbulhava como um gêiser em Yellowstone. Eu estava ali com os Stones locais: Marco Antonio Grijó (bateria), Mario Ruy (guitarra) e Afonso Abreu (baixo), cavaleiros que, há 50 anos, derrotaram a província na própria província.

À noite, no campus universitário, meu interlocutor seria João Moraes, primo de Sergio Sampaio, a outra grande voz de Cachoeiro de Itapemirim ao lado de Roberto Carlos. Eu contei mais de 300 pessoas no gramado da universidade, e a maioria ainda nem tinha 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Jessica, 18 anos mas cara de 13, veio me pedir um autógrafo para um amigo dela gaúcho, Otto. Eu disse, meio gratuitamente: “Acaso não seria Otto Guerra, o cineasta?”. Ela: “Ele mesmo. Como sabe?”. Não acreditei. Como tivesse grana apenas para um exemplar, ela optou por presentear o amigo. Então, combinei com ela de enviar um para sua casa autografado.

Em Belo Horizonte, no dia 29 de setembro, no auditório da Fiemg, eu esfreguei os olhos e me belisquei: sentado no meio do público, incólume, estava o grande Arnaldo Dias Baptista, dos Mutantes, com sua mulher, a Lucinha. Fiquei baqueado; nosso Syd Barrett, nosso chapeleiro maluco, o mais revolucionário de sua geração. Até brinquei ao microfone contando que tinha prometido não escrever mais biografias, mas se o Arnaldo quisesse, eu esquecia a promessa na hora. Ele riu sem jeito. Fizemos fotos juntos, ele me deu uma foto dele com o Belchior.
Dali, a noitada se estendeu para o Mercado, para um show do inacreditável bloco carnavalesco Viva Belchior. Meu sobrinho Tando dirigiu 200 quilômetros do interior de Minas até Belo Horizonte com uma garrafa de cachaça, uma Antônio Rodrigues exclusiva, e nós a abrimos ali mesmo.

Foi corrido, porque no dia seguinte já tinha a Tarrafa Literária, em Santos, com o Marcelo Rubens Paiva e o João Gabriel de Lima. Um carro veio me buscar no Sumarezinho com outros dois autores que também rumavam para a Baixada Santista: Maria Rita Kehl e o Matthew Shirts novamente. Foi engraçado demais, eles contaram histórias de divórcios e casamentos e amizades e amores comuns em uma única vizinhança de São Paulo durante décadas.

O imponente Teatro Guarany de Santos, de 1882, tava lotado. Como eu estava adiantado, caminhei até o outro lado da praça em frente, um sebo em uma banca, e comprei Verdade Tropical, do Caetano Veloso. Me ocorreu de checar quantas vezes ele menciona Belchior no livro. Zero vezes. De volta ao teatro, eu e Marcelo Rubens Paiva falamos sobre o tema A Vida dos Outros e eu fiquei impressionado em como o Paiva encanta um público com sua franqueza e talento. Ao final, nosso anfitrião José Luiz Tahan nos levou a uma pizzaria e conversamos sobre Pepetela e a literatura portuguesa. Conheci o cartunista Rafael Coutinho, de uma das mais talentosas dinastias de cartunistas do Brasil.

No dia 5 de outubro seria a vez de Fortaleza. O Dragão do Mar organizou shows-tributo a Belchior, e eu mesmo me encarreguei de convidar figuras fundamentais dessa história, como o compositor e cantor Rodger e o arquiteto e compositor Fausto Nilo. Ambos foram sensacionais. Primos e tios de Belchior chegaram de Sobral, e até o irmão do bardo, Gilberto Belchior, esteve lá para conferir a noitada e me dar um abraço. Fortaleza acorreu em peso ao Dragão do Mar: todos os 269 lugares do teatro estavam ocupados, e ficou gente de fora.

No dia 8, no Recife, depois de muitos embates literários em Olinda (após conhecer o Clóvis, que atravessa Goiás numa kombi doando livros), eu me vi numa avenida infinita rumo a um restaurante de comida nordestina, O Parraxaxá, um buffet com forró entre as mesas. Em meio a carne de sol, farofa matuta, bode guisado, sarapatel e pudim de rapadura, um impressionante sósia de Luiz Gonzaga fez o aquecimento da noite e, logo a seguir, a hostess anunciou a nossa presença no recinto.

No dia 15 de outubro, o Festival de Jazz e Blues de Iguape, no litoral Sul de São Paulo, me convidou para uma noite literária. Arrumaram um belo salão num dos edifícios históricos (Iguape é uma das mais antigas cidades brasileiras) e nem a chuva espantou os leitores. Lotada a sala, muitas perguntas bacanas, muitos depoimentos e até uns recortes de jornal sobre a passagem de Belchior pela cidade. No caminho de volta, encontrei o Renato Piau, que acompanhou Luis Melodia por quase 40 anos, e conversamos longamente.

No dia 9 de novembro, voltei a São Luís do Maranhão, uma das noites mais alegres de toda a jornada. No club Fanzine Rock Bar, no centro histórico, o grande músico Tutuca organizou o Tributo a Belchior, com artistas convidados: Marconi Rezende, Milla Camões, Tássia Campos e o próprio Tutuca; além deles, houve o show Transa e outras fodas, com a banda Calabar tocando músicas de Caetano Veloso. Morri de rir com os causos de Robertinho Silva e consegui uma façanha: que o dono do Bar do Léo, o próprio Léo, colocasse uma música a meu pedido.

De volta à pauliceia, no dia 12 de novembro teve uma tarde na Balada Literária, no B_Arco, em São Paulo. Eu e Lira Neto fomos escalados para falar de muitas coisas. Lira Neto biografou Padre Cícero, Getúlio Vargas, a cantora Maysa. Enfrentou a contrariedade de beatos e fanáticos, de doidos e extremistas. “A biografia bem feita é aquela que, no lugar de responder a todas as perguntas, deixa no ar mais um monte de questões a serem respondidas”, ele disse (não é a frase exata, mas é o que ele expressou).

Em 14 de novembro, embarquei para a Feira do Livro de Porto Alegre, um evento literário de rua com 63 anos de tradição. Meu parceiro de mesa era o Juremir Machado, um intelectual sofisticado e humanista combatente. E que tinha acolhido Belchior na cidade quando este chegou ao Rio Grande, fugindo do Uruguai, em 2013. Foi muito divertido. O escritor Eduardo Bueno, que também fazia uma palestra por ali, veio ao auditório e virou uma conversa debochada e amigável. Apareceu o Otto Guerra, caminhamos pelo calçadão, ele me contou histórias assombrosas do Júpiter Maçã, de quem eu usava uma camiseta. A doutora Josy Teixeira e o notável Dogival Duarte me levaram para jantar na Cidade Baixa, no Via Imperatore.

No dia seguinte, peguei um novo voo até Pelotas, pra Feira do Livro de Pelotas. Pirei com a cidade. Meus anfitriões tinham uma livraria de rua na cidade, Vanguarda, que é de dar inveja às das metrópoles. Além de me receber com alegria, me levaram para conhecer Rio Grande, terra do primeiro time de futebol, e a insondável Praia do Cassino, sua extensão fenomenal de 254 quilômetros) e seus molhes como diques holandeses acima do oceano. Comprei um casaco de couro num brechó de um gaúcho e senti saudade antes mesmo de ir embora.

De Pelotas, com escala em Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, fiz o mais longo e demorado voo da jornada. No dia 18 de novembro, já em Belém do Pará, desfrutei da condição de convidado do  magnífico festival Se Rasgum, e lancei o livro para poucos e bons no hostel Ziggy, base de operações do festival. Foi uma espécie de trégua: em vez de falar muito, eu ouvi mais. Ouvi a novidade de Giovanni Cidreira, grande cantor baiano. Molho Negro, banda de demolição. Baiana System. Maglore, junção perfeita entre o indie rock e a baianidade tropicalista.

No dia seguinte, no Mercado Ver-o-Peso, encarando um pirarucu frito, uma cerveja gelada, ouvindo uma versão para o tecnobrega de Crazy, do Gnarls Barkley, vi a ilha do Combu lá adiante, a brisa do rio no rosto, e pensei que era a hora de fazer o check out e deixar o livro viajar sozinho a partir dali.





(texto escrito em janeiro a convite da editora Todavia, hoje publicado aqui como um tributo ao aniversário de 72 anos de Belchior, celebrado hoje; depois disso, já fui a mais uma infinidade de cidades, a última em Curitiba, há três dias, e em dezembro chego a Sumé, Paraíba, onde nasci)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

ÁGUAS TURBULENTAS












fotos: jotabê medeiros





“Quem mandou ele vir aqui pra falar tanto? Teu negócio é cantar! Canta, porra!”, berrava, na arquibancada inferior, uma espectadora do show Us & Them, de Roger Waters, na noite passada, no Allianz Parque.

A moça não parecia saber exatamente quem era Roger Waters e nem o que fazia no show dele. O pai do cantor e baixista, Eric Fletcher Waters, foi morto pelos nazistas durante um bombardeio em Anzio, Itália, quando ele ainda era um bebê. Para o pai, em 1983, ele compôs The Fletcher Memorial Home, na qual fala de “incuráveis tiranos” e os nomeia um a um: Ronald Reagan, Alexander Haig, Menahem Begin, Ian Paisley, Leonid Brezhnev, Joseph McCarthy , Richard Nixon.

Em 1990, Roger Waters montou o show The Wall (cuja essência é a metáfora do perigo do fanatismo e do fascismo) na base do que fora o Muro de Berlim, explodindo um muro de isopor simbólico como exposição de seu pensamento sobre aquela cortina comunista, a divisão do mundo pelo autoritarismo e pela força. Organizou um boicote internacional de artistas contra Israel, buscando asseverar direitos aos Palestinos e catalisando para si toda a raiva dos partidários do uso da força contra um povo (chegou a tretar com Caetano e Gil por causa disso).  Em meio ao processo eleitoral norte-americano, ele inflou seu porco com a cara de Donald Trump sobre os ares do País, em turnê - e segue fazendo isso, expondo a insânia de Trump, até em português.

Portanto, Roger Waters é a própria imagem do destemor e da liberdade de expressão. Ele faz seu show justamente para dizer às pessoas o que pensa sobre os perigos da opressão, da supressão de direitos, da perseguição a grupos sociais. A meta dele é essa: identificar o fascista, apontar o fascista. O primeiro pensamento que vinha à cabeça de quem presenciava as vaias e os xingamentos que Waters tomava na noite de ontem era esse: será que esse pessoal não errou de show? Sem questionar a legitimidade da vaia, mas o que Waters procura é basicamente isso: causar desconforto naquele tipo de pensamento que não se coaduna com a defesa da irrestrita liberdade, da admissão dos direitos civis, do humanismo.

A vaia começou quando surgiu a tag #EleNão no telão. Antes, Waters já tinha exibido durante pouquíssimo tempo uma lista com o título “NEOFASCISMO ESTÁ EM ASCENSÃO”. Logo abaixo, os nomes dos líderes neofascistas e os países:  Nos Estados Unidos - Trump; Na Hungria - Orban; na França - Le Pen; na Áustria - Kurz; no Reino Unido - Farage; na Polônia - Kaczynski; na Rússia - Putin?; no Brasil - Bolsonaro.

Houve já um apupo, mas Roger Waters cantou Wish You Were Here e saiu, anunciando um intervalo de 20 minutos. Ao voltar, logo após a execução de Dogs, um porco inflável gigante com os dizeres RESPEITEM AS MULHERES, NO WALL e AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA, além de grafites de palestinos atirando pedras e ilustrações simbólicas, percorreu os ares do Allianz Parque, agora fazendo jus ao seu apelido de Allianz Pork. Roger Waters e os integrantes da banda vestiram máscaras de porcos durante Pigs (Three Different Ones) e um garçom também mascarado servia-lhes champanhe. George Orwell reencarnava na Barra Funda. Mas quando a tag #EleNão voltou ao telão, aí começou a treta.

Jair Bolsonaro é considerado fascista por quase todas as publicações importantes do mundo (Le Monde, Libération, Der Spiegel, The Guardian, El País, New York Times) por seus próprios méritos. Já expressou mais de uma vez a sua disposição para o extermínio das diferenças, sua misoginia, homofobia, racismo, a apologia da violência. Ainda assim, parte significativa da plateia discordou veementemente de Roger Waters. Essa parte tem planos de votar no candidato com todo o pacote do que ele representa, e se incomodou com a identificação categórica do perigo nazifascista concentrado em Bolsonaro. Como rebateu isso? Alguns grupos isolados gritavam “Fora PT” em resposta. Outros ofendiam Waters. “Babaca! Filho da puta! Vai se foder!”.  Houve diversos casos de empurrões e agressões verbais de espectadores dessa corrente contra a outra metade da plateia que discordava. 
Enquanto tuitava sobre os acontecimentos em progressão, um jornalista celebrado das redes sociais tomou um tranco de um partidário de Bolsonaro.

Pressentindo o clima tenso, Roger Waters cruzou os braços no peito e tentou pacificar os ânimos. Lembrou que o Brasil está em meio a uma eleição, que iriam dizer que não era da conta dele. Mas não abriu mão um milímetro de suas convicções. "Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder do País não creia que uma ditadura é uma coisa boa. Eu me lembro das ditaduras da América do Sul e foi feio".

Durante pelo menos uns 10 minutos, Roger iniciava uma fala e as vaias recomeçavam. Tentava apresentar a banda e sobrevinham novas vaias. Com larga experiência no comportamento das turbas (Another Brick in the Wall é uma alegoria do comportamento das massas), ele levou a tensão até seu esgotamento e anunciou Mother. Durante a música, ele ia enfatizando versos com uma expressão facial de advertência. “Mãe, será que eu devo concorrer para presidente?”, e fazia um esgar com a boca. “Mamãe vai fazer todos os pesadelos se tornarem realidade”.

Ao sair de cena, após Comfortably Numb, de novo Roger Waters colocou a tag #EleNão no telão. Já refeitos dos confrontos, os antifascistas da plateia ironizavam o público bolsonarista. “Não teria sido melhor terem ido no show do Zezé di Camargo?”, brincava um gaiato. Muitos fãs na pista VIP, que custava R$ 810, usavam camisetas do Pink Floyd (um até tinha uma camiseta número 12 com o nome de Syd Barrett às costas) e mostravam fúria desmesurada em relação ao ídolo, como se alguém tivesse olhado dentro deles, do que carregam de mais íntimo dentro de si. A participação do coral de crianças em Another Brick in the Wall foi inebriante, a alegria dos garotos era tamanha em estar ali que Roger até se emocionou.

Poucos, entretanto, falavam mal do som na saída. Roger Waters fez um dos shows mais orgânicos de suas turnês recentes. Na época em que trouxe ao Brasil o show The Wall, em 2012, ele tocava muito pouco, cantava muito pouco e havia mais eletrônica do que instrumento na execução. Dessa vez ele soltou a banda, deixou que saísse do script, alguns solos foram menos xiitas em relação ao som gravado. O show perdia um pouco o pique quando entravam as canções novas, como Déjà Vu e Last Refugee, mas era irretocável em clássicos como The Great Gig in the Sky, com o habitual tour de force das suas vocalistas ao estilo replicante de Blade Runner. Os efeitos do prisma de luz durante Eclipse tinham até a capacidade de invadir as almas conflagradas de parte da plateia e reorientá-las, fazê-las voltar a acreditar no conceito de liberdade absoluta do artista.

Waters volta logo mais ao Allianz Parque para o último show em São Paulo. A caminho do Uber, jovens fãs amantes da democracia demonstravam preocupação com ele do lado de fora do estádio, mas esse não é o tipo do artista que cultiva a palavra medo. Daqui, ele vai a Brasília, ao Estádio Mané Garrincha, no dia 13; a Salvador, na Arena Fonte Nova, no dia 17; a Belo Horizonte, no Mineirão, no dia 21; ao Rio de Janeiro, no Maracanã, no dia 24; a Curitiba, no Couto Pereira, no dia 27; e a Porto Alegre, no Beira Rio, no dia 30.

sábado, 6 de outubro de 2018

TOMORROW NEVER KNOWS





O engenheiro de som Geoff Emerick, em junho, conversando com admiradores em Porto Alegre durante simpósio de que participou; Emerick morreu essa semana



Quando tinha 19 anos, Geoff Emerick esteve ao lado dos Beatles, como engenheiro de som, em três discos fundamentais da História da música pop: Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e Abbey Road (1969). Mais do que isso: as soluções heterodoxas que propôs para algumas canções, especialmente Tomorrow Never Knows e A day in the life, criaram bases referenciais para muito do que se fez posteriormente.

A função de Emerick era justamente burlar as regras. “Geoff Emerick fazia truques para os Beatles e ficava com medo que alguém descobrisse”, disse George Martin. “Naquela época os engenheiros não podiam ficar brincando com os microfones e loucuras do gênero. Mas ele fazia coisas bem estranhas e que eram ligeiramente contra as regras, com o nosso apoio e aprovação”. Emerick veio ao Brasil em junho, para participar de master classes em Porto Alegre a convite da Audio Porto, empresa de inovação e tecnologia. Ele conversou comigo para a CartaCapital no dia 12 de junho. Emerick morreu no último dia 2, de um ataque cardíaco.

É verdade a história de que o disco Abbey Road quase se chamou Everest por causa dos seus cigarros?
Então, era a marca do cigarro que eu fumava. Foi quando eles decidiram chamar o disco de Everest... Ringo tinha essa visão de que estava no alto do Monte Everest, onde ele nunca estivera. Quando viajava, Ringo levava comida embalada em uma marmita, para não ficar à mercê dos produtos locais. Mas fazer a foto da capa do disco no alto do Everest significava uma longa viagem, nem ele nem ninguém queria ir tão longe. Aí, acabaram escolhendo um lugar mais próximo, Abbey Road, porque a foto seria muito mais fácil de ser realizada. No final, foi uma boa escolha.

Tomorrow never knows estava muito à frente de seu tempo. Muita gente diz que influenciou gêneros como jungle, drum’n’bass, Você concorda?
Concordo. Porque eles queriam mudar o jeito que gravar a voz. Como sabemos, os alto-falantes Leslie eram usados para os vocais;  a guitarra de Harrison, o tamborim de Ringo e o baixo de Paul McCartney eram muito marcantes, e para colocar a voz de um jeito igualmente distinto precisava de uma solução. O alto-falante Leslie permitia mudar a rotação da voz, criar um som de vibrato intermitente. Foi uma revolução na maneira como a música passou a ser gravada.

Você trabalhou com os Beatles, os maiores. Como viu artistas que vieram depois, gente como Amy Winehouse ou Justin Timberlake.
Amy Winehouse foi extremamente talentosa, assim como Justin. Eu amo artistas do mundo real. O que não concordo é com artistas criados pela tecnologia e controlados por ela. Amy é uma grande artista, assim como Justin. São genuínos, claro que são.

Os sons psicodélicos dos Beatles foram criados, grande parte deles, sob o efeito de drogas, como o LSD. O sr. era muito jovem, como se situava nesse mundo?
Nós nunca tivemos que lidar com esse problema. Nós sabíamos que, se fôssemos usar substâncias, teríamos que fazer isso antes ou depois das sessões. Porque, quando entrávamos nas sessões, tínhamos que trabalhar tão duro quanto qualquer outro artista, íamos até 3 horas da manhã trabalhando. Não havia uma restrição, mas todos eram sérios. Certamente, usavam muitas substâncias no processo criativo. Mas nunca no estúdio. George Martin não usava, era de outra geração.

Contam que, para entrar nos estúdios Abbey Road, só na estica, com sapatos muito engraxados e ternos. É verdade?
Sim. Os engenheiros assistentes éramos obrigados. Havia muitas gravações de música clássica nos estúdios, muitos artistas desse universo. Tínhamos que mostrar que nos preocupávamos com a aparência, demonstrar respeito. Os técnicos usavam guarda-pós brancos como os de farmacêuticos. Nada de tecido xadrez.

Quais são as suas quatro canções favoritas dos Beatles?
Tomorrow never knows (do disco Revolver,  de1966), And your bird can sing (Revolver, 1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, 1967) e, claro, A day in the life (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band).