sábado, 12 de maio de 2018

O CAÇADOR DE ORELHAS













“Sou caçador de orelhas, falo pra caramba!”, avisa Robertinho Silva.

Um dia, em setembro passado, acordei cedo em São Luis do Maranhão e fui ouvir uma aula-show de Robertinho, lendário percussionista e baterista.

Ele toca e conta sua história e a dos instrumentos e no meio de tudo dá aquelas risadas que são praticamente uma revelação. Fiz uma série de anotações e fotos que ficaram meio perdidas aqui alguns meses.

Filho de pernambucanos, Robertinho nasceu em Realengo, Rio de Janeiro, há 76 anos, quando aquilo ali era praticamente zona rural.

“Minha mãe era boleira. Fazia bolos muito bem. Eu pegava aquela latinha de Fermento Royal vazia, enchia de milho e ficava batucando. Eu não preciso de instrumentos porque eu faço instrumentos”.

O jeito de Robertinho contar a história é feito de breques e viradas improváveis. E muito ritmo.

“Um instrumento que marcou muito a minha vida foi esse aqui, a frigideira. Esse preconceito com a percussão vem desde 1900 e antigamente. O que é isso? Um neguinho tocando frigideira? Eu tinha vergonha de tocar na Zona Sul do Rio. Aí o Airto Moreira me viu tocando e me levou para os Estados Unidos para tocar frigideira com ele”.

Havia um soldado chamado Jair na pensão de uma tia, uma casa que alugava quartos no bairro de Oswaldo Cruz. O soldado tinha uma bateria no quarto. Robertinho era menino e entrava escondido no quarto quando o soldado não estava.

Robertinho sempre pedia: “Não fala pro soldado que eu mexi na bateria dele”. Era coisa que ele tinha visto no cinema, contou. Mas o soldado o viu tocando e perguntou: “Beto, você toca bateria? Toquei um baião pra ele”. A levada o soldado não conhecia e acabou tocando bongô com o grupo do soldado Jair.

Uma vez foi ao Méier comprar uma calça Lee e o dinheiro não dava. Viu uma bateria e levou a mãe para convencê-la a ajudar a comprar o instrumento, mas só conseguiu mesmo com extrema boa vontade do vendedor.

Em seguida, Robertinho se senta e toca o cajón com maestria, mas parecendo que é com displicência. “Já fui jardineiro. Nunca ninguém me ensinou nada. Eu sou autodidata em tudo. Não tinha bateria, ficava tocando caixote. Até que conheci o cajón. Soube depois que foi o Rubens Dantas que convenceu o Paco de Lucia a usar o cajón. Era um baiano que tinha criado o instrumento do flamenco".

"Tamborim não veio, vou tocar isso aqui. O chamado objeto sonoro".

Robertinho se diverte com suas próprias tiradas. Fulano era “inteligente, mas o lado burro dele era mais forte”.

"Nunca fui burro, mas eu sei. Mais de 70 anos e ainda ouço isso. Estava num estúdio de gravação e o artista distribuiu partitura pra todo mundo, menos pro percussionista. Mas o que é isso? Que preconceito é esse? Meus toques de tamborim eu sei escrever. Até hoje, tô estudando isso".

Quando estava em vias de desembarcar nos Estados Unidos, tocava com Caetano Veloso e disse: “Caetano, vou chegar nos USA e falar pro guarda: “My name is Bob Silver and i play very well!”. Esborracha de rir com seu próprio mimetismo da história.

“De repente, Jovem Guarda. Roberto Carlos. Todo mundo fala mal dele, mas para mim é gente boa”. Os nomes vão povoando sua narrativa. Jorge Negão, passista e ritmista da Portela.

"Cheguei a São Luis, queriam me levar para ouvir um boi. Eu disse que boi que nada, não quero ver boi. Mas acabei indo, e pirei. Aquele ritual, nego esquentando os tambores. Comecei a chorar. 'Toma catuaba que tu melhora', disse alguém. Chegaram e avisaram: 'Já são 8 horas da manhã, você tem que dar aulas daqui a pouco!'".

“Levei um tambor de criola para os USA. No aeroporto, os caras me disseram: ‘Meu irmão, comprou uma árvore?”.

"Não é que eu diga: agora vou estudar essa levada. Vai nascendo".

Ele vai ensinando e divertindo. "Gene Krupa botou tambor na bateria".

"Eu não quis ser ritmista de escola de samba. Para que serve a mão esquerda? Para dar tchau".

Tem 4 filhos bateristas. É o negócio da sua vida, diz. "Thiago, de 33 anos, malandrinho otário, me pede instrumento emprestado. 'Você nem usa'. Folgado!”.

"O agogô era proibido na escola de samba. Coisa de macumba. Mas sempre tem um maluco que invade a área. Já fui malandro. Eu sei".

"Um instrumento que não vai com a minha cara é a cuíca. É como dizem os mineiros: o trem fica enguiçado".


Em 1964, Robertinho foi levado para tocar com Cauby Peixoto na Boate Drink. Trabalhou um quarto de século com Milton Nascimento. No final dos anos 1960, integrou o mitológico Som Imaginário, que tinha Wagner Tiso, Luiz Alves, Frederyko, Zé Rodrix e Tavito.

Tocou com Lee Morgan, Airto Moreira, Wayne Shorter. "Airto é meu ídolo. Gravei um disco com ele, Identity".

Em mais de 6 décadas de profissão, tocou ainda com João Donato, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Flora Purim, Raul de Souza, Sarah Vaughan, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Bud Shank, George Benson, João Bosco e mais uma centena de outros artistas daqui e de outros lugares.

Acordar cedo para ouvir Robertinho Silva é uma doideira.


segunda-feira, 30 de abril de 2018

OS GRAVETOS DO VÉIO




Nenhuma exposição em curso no momento me causou tanta alegria quanto o universo de gravetos desnivelados do artista sergipano Véio, em exposição no Itaú Cultural.

A impressão inicial com as peças em exposição no centro cultural, na Avenida Paulista, é que não parecem guardar demasiado esforço, intrincada construção ou calculada engenharia. Quase não sentimos o suor do seu artífice nelas, é como se brotassem do nada.

O efeito da obra de arte guarda grande relação com o repertório cultural do seu espectador.
Umberto Eco já dizia que uma obra impacta mais ou menos o observador de acordo com as expectativas deste, de seu universo cotidiano, de sua familiaridade com certos objetos, técnicas e estratégias. 

Nas artes visuais, educados para nos enternecermos com a chave da abstração ou para atingirmos o grau máximo de satisfação com a habilidade figurativa do pintor descomunal, é desconcertante quando o que se posta à nossa frente é uma peça que se vale de tudo, mas não é feita para nós, é exclusiva de seu próprio escultor.

Véio independe de repertórios e de impacto, ele já definiu o valor de seu trabalho para si mesmo antes que o tenhamos capturado. A impressão que nos passa é de que o material só está ali em exposição porque o artista foi sequestrado para tal pelos caçadores de valor. A arte que produz é suficiente para Véio - tanto que ele construiu um museu só para si, para abrigar seu trabalho lá na chácara onde vive, no seu sítio no sertão de Sergipe, no município de Fonte Nova.

A arte de Basquiat, por exemplo, encontra sua força no afrontamento das expectativas e dos repertórios. Tem carga histórica, estabelece diálogos temporais, tem pesquisa. Véio busca apenas materializar sua imaginação. Sim, não é raro que tenha um componente daquela arte rupestre das cavernas, como na mínima escultura Liuliu. Animais e demônios, mulheres de pés invertidos montadas em bichos e corujas que parecem padres: são visões embaralhadas com elaborações.

Seu trabalho é um tipo de ready made. Véio resgata do sertão galhos de árvores desprezadas e enxerga neles significado. Na maior parte das vezes, entretanto, esse significado é desequilibrado, teratológico, contrário à orientação quase sempre realista do artista popular tradicional. Podem ser peças de 2 metros e de 20 centímetros. Sua pesquisa está no domínio do mistério, um encanto que seduz instantaneamente.

O nome real do Véio é Cicero Alves dos Santos. O apelido se deu porque ele, quando criança, ficava ouvindo sempre o que as pessoas mais velhas falavam interessadamente. Virou Véio, nos fez crianças.





sexta-feira, 27 de abril de 2018

O CANTOR QUE SE SABIA CANÇÃO










Antonio Carlos Belchior morreu no dia 30 de abril do ano passado. Na próxima segunda-feira completa-se um ano da partida do cantor, compositor e pintor cearense. Há tributos pipocando por toda parte, o mais simbólico deles um concerto nesta segunda-feira no Teatro São João, em Sobral, Ceará, onde ele nasceu. No Teatro dos Bancários e no Feitiço Mineiro, em Brasília, Marcos Lessa e Alessandra Terribili encaram seu legado.

Escrevi uma biografia dele da qual me orgulho cada dia mais. Porque a cada dia se avoluma a percepção de que foi mais que um cantor, mais que um compositor, mais que um transeunte das artes. Foi um visionário.

Esta semana, por exemplo, acordei convencido de que Belchior, para minha geração, foi o mais político entre os gigantes da MPB. Não foi político apenas no enfrentamento com as forças institucionais constituídas, mas também no sentido de compreender quais os antagonismos que nos dividiam e os que nos aproximavam. E de abraçar o Brasil profundo. E porque não foi só um cara de temáticas, foi também a temática.

“De olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava”, cantou Belchior, em A Palo Seco. Não há messianismo nem equacionamento fácil em sua compreensão do País. Há uma espécie de consulta à percepção do povo, um compartilhamento de sustos.

Mas, como tudo que a gente escreve às vezes consiste apenas numa pilha de argumentos, de racionalizações, eu seria um tolo se não falasse também da emoção que Belchior contrabandeia em suas canções.

Na última segunda-feira, dirigindo pela Castelo Branco rumo a São Paulo, no retorno da festa do centenário de meu pai em Cianorte, no Paraná, eu me peguei chorando a perda do meu irmão, Jack, que morreu também há um ano, uma semana antes de Belchior. Meu livro é dedicado a ele. Ainda com o gosto amargo daquele sentimento ambíguo de uma festa que celebrou a longevidade de um e pranteou a fugacidade do outro, e para estancar as lágrimas, que atrapalhavam a direção, eu liguei o CD player. Por um mistério da fé, estava lá um disco do Belchior. Os versos que surgiram assim que liguei o aparelho me acolhiam como se tivessem sido feitos para nós:

“Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo) desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto. E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto”.

Nada definiria tão completamente a partida de Jack. O anjo veio convidá-lo para uma cerveja, e ele foi porque nunca se negaria a uma cerveja. O local em que ele fazia churrasco e bebia era carinhosamente chamado de Canto do Jack.

Belchior veio em meu socorro, agradeci e segui viagem. Esse compositor tem um jeito de se envolver na narrativa que é incontornável, porque afetuoso e cúmplice. Ele põe a mão no ombro do ouvinte para conversar. “Você não sente nem vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo” (Velha Roupa Colorida).

Talvez eu só tenha visto um caso de um intérprete-compositor tão intimamente ligado à sua poesia: Cazuza. “Você nunca ouviu falar em maldição, nunca viu um milagre, nunca chorou sozinha dentro de um banheiro sujo”.

O que ocorre é que o País em que Belchior produziu seus hinos mais importantes era também um mundo movendo uma guerra suja contra o artista, contra o povo, contra o Brasil. Mais ou menos a mesma guerra suja que se implanta agora, após um período em que tivemos esperança de que um País de tolerância e aproximação vingasse. “O que é que pode fazer um homem comum nesse presente instante senão sangrar, tentar inaugurar a vida comovida, inteiramente livre e triunfante?”

A vida comovida, de pura compreensão e ternura, não o impedia de diagnosticar as feridas da terra. Por exemplo: quando Belchior gravou Voz da América, no disco Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo, já era 1979. Mas ele tinha a composto alguns anos antes, em 1975. E, em 1976, o cantor Antonio Marcos (1945-1992), portento artístico de São Miguel Paulista, que foi casado com Vanusa, gravou a canção com sua voz trágica.

Nessa música, Belchior fala da Operação Condor, investida repressiva em conjunto dos vários regimes militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai em colaboração com a CIA norte-americana). Funcionou ativamente entre 1970 e 1980.

“El Condor passa sobre os Andes e abre as asas sobre nós. Na fúria das cidades grandes eu quero abrir a minha voz”, ele canta. “El Condor Pasa” disfarçava-se em citação a Simon & Garfunkel ou Daniel Robles. A letra de Belchior era uma afirmação na crença de que a humanidade venceria a barbárie, que o carinho seria maior do que a brutalidade. “Quem teve que partir para um país distante: não desespere da aurora, recupere o bom humor”.

Havia uma coragem extraordinária naquele cearense reservado. Comparando com a política na obra de Chico Buarque, creio que Belchior foi mais acionador, mais deflagrador. Sempre vi Chico como alguém mais oblíquo, mais dissolvido. Claro que Apesar de Você e Jorge Maravilha são antifa total, mas Meu Cordial Brasileiro de Belchior não é menos contundente: “Com/contra quem me dá duro com o dedo na cara me mandando calar”.

Belchior nunca baixou a guarda, não abandonou o combate após a redemocratização. Sabia que o inimigo estava ativo. Enquanto houvesse algum modo de dizer não, ele cantaria, avisou. 

Em 1993, em Bahiuno, Belchior cantou: “Dá flores ao comandante/ que um dia te dispensou do serviço militar/ Ah! quem precisa de heróis: feras que matam na guerra/ e choram de volta ao lar”.

Claro, a indignação política também está presente em coisas como Brejo da Cruz e Meu Guri, Chico quase sempre transferindo a uma terceira pessoa a responsabilidade da insurreição. Chico é mestre no deslocamento do sujeito; conhece a realidade brasileira como poucos, e a descreve como se partilhasse a tragédia do homem invisível nacional. Mas ele não se confunde com ela, é uma testemunha privilegiada, assiste a quase tudo de um mirante (no máximo, tem um japonês trás de si).

Caetano Veloso é mais discursivo em seus momentos mais políticos, tipo quando fala de “o silêncio de São Paulo diante da chacina”. Ou então, assume uma abordagem de antropólogo frente à realidade brasileira. “O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara/ O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/ A Baía de Guanabara/ O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara”.

Veja, não estou dizendo que uma obra é melhor que a outra, mais efetiva que a outra, mais bonita que a outra. Estou tateando uma diferenciação. Belchior fala direto com o seu interlocutor. Ele o chama para uma conversa.

Sem ter tido a sacada de um matreiro Julinho da Adelaide, Belchior usa somente a brasilidade como escudo. Ele não se arvora a condição de observador, fala como um pedaço da realidade que trata. Exige igualdade de tratamento, de interlocução: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você que me ouve agora”.

Todos denunciam fundações sólidas e profundas das mazelas nacionais. Caetano, em Noites do Norte, musicou Joaquim Nabuco em 2000. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade.”

Belchior já tinha ido mais longe. Musicou Castro Alves em Aguapé, que gravou em 1980. Mas, no trecho que escolheu, no pedaço do qual se apropriou, não há apenas análise, há também sangramento, gracialianismo seco:

“Esta casa não tem lá fora
A casa não tem lá dentro
Três cadeiras de madeira
Uma sala, a mesa ao centro
Rio aberto, barco solto
Pau-d'arco florindo à porta
Sob o qual, ainda há pouco
Eu enterrei a filha morta”.

Belchior também já tinha examinado a questão da construção da consciência identitária em Monólogo das Grandezas do Brasil, de 1999, que se reporta a Diálogo das Grandezas do Brasil, livro escrito pelo fazendeiro Ambrósio Brandão no século 17.

“Todo mundo sabe/todo mundo vê
Que tenho sido amigo da ralé da minha rua
Que bebe pra esquecer que a gente
É fraca
É pobre
É vil
Que dorme sob as luzes da avenida
É humilhada e ofendida pelas grandezas do Brasil
Que joga uma miséria na esportiva
Só pensando em voltar viva
Pro sertão de onde saiu”.

Chico e Caetano são escultores de canções, artesãos. Belchior é igualmente manufaturado, mas ele é também a sua obra. Diz-se do D. Quixote, de Cervantes, que foi o primeiro livro que se sabia livro. Belchior, por analogia, poderia ser descrito como o cantor que se sabia canção. “Fique você com a mente positiva/Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)/ Pois sou uma pessoa/ Esta é minha canoa: Eu nela embarco/ Eu sou Pessoa!/ A palavra pessoa hoje não soa bem? Pouco me importa!”



terça-feira, 3 de abril de 2018

O PROFESSOR CALASANS




O professor Calasans (centro) ensinando in loco, no sertão de Canudos




“Faz pena um homem como eu morrer assim acocorado”, disse Pedro José de Oliveira, o Pedrão Porteiro, homem de estrita confiança de Antonio Conselheiro, sentado numa gamela em Cocorobó, paralítico das pernas, aos 90 anos.

Pedrão Porteiro disse isso a José Calasans, o grande historiador de Canudos. Calasans me contou a história na biblioteca da Faculdade de Medicina da Bahia, em Salvador, em 1996, quando o entrevistei frente ao único manuscrito de Antonio Conselheiro (Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo para Salvação dos Homens, 554 páginas copiadas do Novo Testamento e 256 páginas com ideias do Conselheiro sobre os Evangelhos). O notável historiador Calasans recolhera todos os fragmentos documentais e orais da história de Canudos em sua longa vida.

Pedrão Porteiro e seus homens derrotaram 1.300 soldados armados do sanguinário coronel Moreira César, em março de 1897, e enfrentaram despachos de juízes e desembargadores que representavam o poder instituído. Nem armas tinham. Mas chegou a velhice e o abandono e a pobreza e ele se preparava para morrer ali, anônimo, imóvel. “Nenhum amor lendário está baixando para encher esse quarto no final”, como cantou Lou Reed em Legendary Hearts.

Mas a frase de Pedrão Porteiro era ainda carregada de orgulho, não de capitulação. “Um homem como eu”. Carregava em si não a nostalgia do que fora, mas o valor presente e inalienável das cicatrizes de sua batalha. Pedrão não podia mentir a si mesmo, de algum modo ele sabia que mudara o mundo.

Pensei na frase de Pedrão Porteiro, que vive na minha cabeça, porque vivemos tempos de extrema covardia e, mais sombrio ainda, do elogio da covardia. Tocaiar, exterminar, difamar, mentir: tudo parece motivo de orgulho. Bravura é tida como idiotia, numa jornada de assombrosa inversão humanística. A deslealdade é tutelada pelo Capital, ganha coluna em jornal, assume postos de comando nas autarquias. Subiu à tona uma vaporosa consciência coletiva de negatividade, que é mobilizada conforme se quer abafar toda voz contraditória.

O que não parece mudar, no entanto, é a disposição dos Pedrões Porteiros. Eles estão aí, às vezes capengando, sentados em uma gamela, mas conscientes de que o mundo se muda a partir do enfrentamento, não da entrega. Que o servilismo, no qual se fundam quase todas as teses do desenvolvimento, não é o destino dos homens. Vi um documentário de Rose Panet sobre outra dessas figuras, Manoel Bernardino, o Lenin da Matta, guerreiro que viveu no início do século 20. Em pleno sertão maranhense, Bernardino organizou e emancipou homens do mato. Encanta, mais do que tudo, ver o poder da autogênese, do nascimento espontâneo de um líder em territórios quase esquecidos.

Ao final de Canudos, Antonio Conselheiro tornou-se aquela descrição de Euclides da Cunha ­- um "anacoreta sombrio, cabelos crescidos até aos ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante; monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao clássico bastão, em que se apoia o passo tardo dos peregrinos...". Essa imagem prevaleceu durante muito tempo, mas Antonio Conselheiro (em toda sua complexidade) emergiu lentamente do fundo do açude de Cocorobó e hoje já é maior do que todos os tempos.

Garimpeiro das grandezas do povo, o professor Calasans, que era sergipano, morreu em 2001 aos 95 anos, em Salvador. Meu artigo sobre sua partida tinha o título: “Calasans foi o primeiro a ouvir o lamento do sertão”.




segunda-feira, 5 de março de 2018

O CONTRATO QUE PODE SER NULO







CONTRATO DE GESTÃO DA CINEMATECA PODE NASCER NULO




Os ministros da Cultura, Sergio Sá Leitão, e da Educação, Mendonça Filho, assinam nesta terça-feira, em São Paulo, a transferência da gestão da Cinemateca Brasileira para uma organização social, como o ministro Leitão já tinha adiantado em fevereiro com exclusividade para o jornal O Globo.  

A cerimônia de assinatura do contrato será às 15h no Largo Senador Raul Cardoso, 207, na Vila Clementino, na sede da Cinemateca (antigo Matadouro), onde fica a representação regional do Ministério da Cultura (o representante é o radialista Nello Rodolpho). Antes, o ministro almoça com o jornalista Augusto Nunes, ex-Roda Viva.  A instituição passa a ser gerida pela Associação Comunicativa Roquette Pinto (Acerp), sediada no Rio de Janeiro.

O problema é que a Acerp já possui um contrato de gestão anterior com o governo: ela é gestora do programa TV Escola, do Ministério da Educação. Recebeu R$ 27 milhões em 2016 para a administração desse contrato. E, de acordo com o artigo 29 do decreto 9129, de 1º de novembro de 2017, só é permitido a uma OS (Organização Social) um único contrato com a administração federal.

O texto do decreto, assinado pelo próprio governo de que fazem parte Leitão e Mendonça, é claro: “A entidade privada qualificada como organização social somente poderá celebrar UM contrato de gestão com a administração pública federal”. A Associação Roquette Pinto terá o segundo amanhã, o que assegura a nulidade do ato.

O contrato prevê a transferência da gestão integral dos núcleos de Preservação, Documentação e Pesquisa, Difusão, Administração e Tecnologia da Informação da Cinemateca Brasileira. Segundo o MinC, o “principal centro de memória e referência do cinema brasileiro será a primeira instituição do MinC a ter este tipo de gestão, que traz mais autonomia administrativa e financeira”.

O ministério já tinha anunciado intenção de fazer o mesmo na Casa de Rui Barbosa e no Museu Imperial de Petrópolis. A Cinemateca Brasileira surgiu a partir da criação do Clube de Cinema de São Paulo, na década de 1940. Presente na estrutura do MinC desde 1984, é a mais antiga instituição de cinema do País. É também o centro nacional de informações cinematográficas e audiovisuais, responsável pelo registro, guarda, reparo e preservação da produção cinematográfica nacional.



EM TEMPO: Durante a cerimônia, Sérgio Sá Leitão comentou a reportagem aqui do blog. Ele explicou o seguinte: "O decreto determina que pode ter contrato com um só órgão da administração. Estamos celebrando este contrato no âmbito do mesmo contrato que a Acerp tinha com o Ministério da Educação. O ministério da Cultura entra como interveniente. Este contrato passou pelas consultorias jurídicas e também pelo Ministério do Planejamento".
Só lembrando que o texto da legislação diz: “A entidade privada qualificada como organização social somente poderá celebrar um contrato de gestão com a administração pública federal”. 
O contrato da TV Escola e o contrato da manutenção e guarda de todo o acervo cinematográfico nacional parecem "do mesmo âmbito?". Têm a mesma natureza? Não me parece o caso. 

sábado, 17 de fevereiro de 2018

TUIUTI






Qual é o lugar da política na vida comum, cotidiana, da gente comum brasileira?

Eu, como jornalista, descobri mesmo antes de sair da universidade que, no jornalismo, esse lugar estaria reservado para as editorias de política, economia e internacional. Como muito cedo me acochambrei nos territórios da música, da literatura, do cinema, da cultura, política seria apontado a mim como algo para o qual eu não estaria habilitado (nem a fazer nem a palpitar).

Quando fui convocado pela primeira vez para cobrir uma eleição presidencial, a editora-executiva veio me cumprimentar cumprimentando a si mesma pela aquisição de um texto refinado de “comportamento”, como ela chamou, algo que poderia dar conta dos “respiros” entre as reportagens. Em outras palavras: eu encararia as frescurices, o pastel dos candidatos, as reportagens de apoio, o frufru da coisa.

Eu concordei imediatamente com ela: “Sou um analfabeto político, espero poder ser útil”, eu disse, rindo-me da minha própria ousadia: a de dizer claramente a ela que seu sonho em matéria hierárquica era justamente esse, ter um exército de analfabetos políticos à sua disposição para preencher sua expectativa de manipulação e consentimento.

Em duas ou três semanas, a editora descobriria que eu era perigosamente instruído naqueles domínios - um dia conto essa história. Só sobrou uma alternativa pra ela: me barrar na cobertura, restringir a circulação entre minha mesa e o cafezinho. Claro: sem assumir que era uma interdição. Eu já tinha a consciência de que havia uma guerra suja, jamais declarada, nos territórios da cobertura de política que vinha de muitos anos. Aturavam-se as diferenças, mas até o ponto em que elas não fossem diferentes demais. Ainda assim, havia algo de democrático naquilo, eu pensava.

Não que eu tivesse um currículo bárbaro nessa seara. A maior façanha foi nos anos 1980, quando fui julgado e posteriormente expulso da Casa do Estudante Universitário, entre outras barbaridades, por termos, eu e alguns amigos, colocado uma faixa DIRETAS JÁ PARA PRESIDENTE na fachada da residência universitária, na Avenida JK.

Não sei explicar porque tenho o germe da política na íris dos meus olhos (para citar uma notícia recente de uma mulher que descobriu vermes em seu olho). Teria sido melhor ter sido um palermoso inocente. Eu sempre soube, por exemplo, que a neutralidade dos repórteres da área de Política era uma farsa; 98% deles tinham um lado, 1% eram mercenários cujo lado seria determinado pelos prêmios que conseguiriam obter com suas informações. Os outros 1% eram muito muito burros, o que os levava a confundir até a si mesmos.

Portanto, a mim não restava outra saída a não ser fingir o grau de consciência política que eu tinha sobre esse universo. Vivi muito tempo assim: saía do esconderijo, atirava e depois, repreendido, me recolhia a um isolamento profundo, ia para o Gulag dos insensatos. Ficava alguns dias ou meses na solitária, depois me liberavam por necessidade de mão de obra. Conforme recrudesceu o debate político, as diferenças foram sendo extirpadas das redações, foi tudo ficando mais parecido com o sonho daquela antiga editora-executiva.

Escrevo tudo isso não porque tenha ficado subitamente memorialístico. É uma forma de introduzir ao debate que sobreveio com a fabulosa aparição do desfile da escola de samba Paraíso do Tuiuti.
Muita gente tem escrito sobre a Tuiuti. Eu li de tudo um pouco. E me detive basicamente nos argumentos da esquerda, que repete, como a direita, aquele cânone institucional da política. A Tuiuti, nessa ótica, seria uma coisa do povo que acertou fantasticamente ao tratar de algo que não é de sua "alçada". Já para a direita, errou fenomenalmente, como é do seu feitio.

Mas tratar a Tuiuti como mais uma “ousadia” carnavalesca com efeito circunstancial é errado, em minha opinião.

O que a Tuiuti fez, e me deixou profundamente balançado, foi ter invadido o terreno “exclusivo” da política com o mais duro, eficaz, jornalístico, político e ético dos discursos. A Tuiuti dinamitou uma bolha.

A política vinha se tornando uma coisa muito reativa no mundo atual. Após uma decisão monocrática do STF, um júri qualquer, as delações juramentadas e vazadas, uma prisão, uma prescrição de crime, uma pesquisa de opinião, vinham as enxurradas de opiniões e argumentações. Quase tudo permeado por sarcasmo e ironia. Tudo inócuo, tudo controlado e mediado pela força dos robôs.

A Tuiuti foi um ato orgânico de desobediência civil. Em vez de reagir a um acontecimento, ela FOI o acontecimento. Não sublimou os fatos, ela os sequestrou para si.

Afrontou o poder de um uníssono midiático. Identificou cúmplices involuntários e voluntários desse uníssono no próprio povo do qual faz parte, aceitando a satanização que (sabia) viria a seguir.

Ao amarrar as duas pontas da escravidão, com raro talento dramatúrgico, encenou a tese dos best-sellers de Jessé de Souza, para quem são indissociáveis a figura do senhor de escravos daquela do bacana que entra na areia da praia, no Litoral Norte, com um carrinho de bebê ladeado por duas babás de uniforme (ou do mentecapto que lava os pés com Veuve Clicquot no Jurerê).

Em plena avenida das transgressões sazonais admitidas, a Escola insurgiu-se contra um golpe de Estado de peito aberto. Afastou a generalidade, foi ao particular, ao ponto preciso. Ao fazer isso, reagrupou a fogueira de vaidade das forças democráticas em torno de uma unanimidade, pela primeira vez em dois anos.

A cobertura jornalística ordinária não tem como dar conta da dimensão do acontecimento que foi o desfile, porque não se trata simplesmente de um único acontecimento. São vários. Tentei falar com o carnavalesco, Jack Vasconcelos, porque achava que alguns pontos ele poderia esclarecer. “Jack não quer falar. Está muito chateado com o que anda saindo na imprensa”. Na verdade, isso é uma dedução minha, mas falta ainda sair o essencial.

É de uma profunda imbecilidade achar que a política é maior do que a cultura (ou que a contém, mas não o contrário). O problema é que, na prática, não se desafiam essas compartimentações. Concordamos, jornalistas, acadêmicos, ensaístas, ativistas, que é preciso rotular as coisas. As compartimentações regem a vida cotidiana, todo o resto seria ponto fora da curva. Mas a Tuiuti desentortou a curva. Dentro do território do simbólico, a escola devolveu a política ao povo. O seu lugar de origem. Não é pouca coisa.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

DUAS CORONAS NA MÃO, UMA NO BOLSO




o guitarrista inglês jack broadbent em seu show de estreia no Brasil, ontem, no bourbon street

(fotos de juvenal pereira)



Vendo Jack Broadbent tocar, na noite passada, no Bourbon Street Music Club, me ocorreu uma ideia antinatural, a de que a tecnologia não tem como vencer. Senti uma sensação juvenil de conforto. Porque a tecnologia pode forjar combinações inimagináveis, pode juntar as bases do Inferno com as do Paraíso, pode exumar a voz de Elvis e Nat King Cole e fazer Lady Gaga parecer k.d.lang, mas não pode traficar a pureza, a imprevisibilidade e a volúpia de Jack.

Jack entrou em cena com três garrafas de cerveja mexicana Corona, duas na mão esquerda e uma no bolso direito da calça. Na mão direita, a guitarra e o cantil de uísque que usa para fazer slide sobre as cordas do instrumento. Bebeu todas as três cervejas durante o show.

Jack é um britânico tímido, então usa umas “muletas” de gags como amálgama do show, costurando uma espécie de deboche quase mastigado entre as canções. Tipo assim: “Vocês estão se divertindo? Não deviam, isso é blues...”.

Ele abriu com uma canção própria, On the Road Again, do seu disco Along the Trail of Tears, de 2015. A forma como ele desliza o cantil de uísque por cima das cordas, arrancando pele dos dedos ao dedilhar a guitarra, é um tipo de sacrifício físico que não faz mais parte do léxico do showbiz. Jack dá o sangue, literalmente.

Após tocar Wind Cries Mary, de Jimi Hendrix, canção do Jimi Hendrix Experience, de 1967, Jack disse sorrindo: “Jimi Hendrix. O melhor”. Alguém berrou Rory Gallagher na plateia. Jack disse que adorava o guitarrista irlandês, e que seu pai tinha tocado com Gallagher. Foi além: contou que o irlandês só tinha um problema: bebia muito (dizia isso enquanto fazia “sniffs” com o nariz no cantil).

Outro espectador pediu para ele tocar Little Wing e ele abriu mais a risada. “É uma só de Jimi Hendrix. O resto é minha própria porcaria”.

Mas não era só dele e definitivamente não tinha porcaria ali. Ele ofereceu uma linha evolutiva do blues e do folk na sua estreia no Brasil. Tocou Leavin’ Blues, de Leadbelly, o avô da música folk, uma canção de 1940. Depois, viajou para a urbanidade e mandou Moondance, do irlandês Van Morrison, canção de 1970.

“Essa foi para o meu pai. Mick Broadbent. Um baixista fodido”, disse Jack, após tocar Willin’, da banda Little Feat. Esse grupo setentista, Little Feat, foi liderado pelo guitarrista Lowell George (a música, reza a lenda, foi o motivo de George ter sido demitido da banda de Frank Zappa, Mothers of Invention, porque a canção falava de drogas, “weed, whites and wine). Durante a gravação original de Willin’, Lowell George machucou a mão e não pode fazer o slide, então chamaram Ry Cooder para tocar no disco, que é de 1971. Então, vocês podem imaginar o que foi um ex-busker como Jack enfrentando à frente de uma plateia de iniciados um slide guitar que já teve Ry Cooder dichavando. E saindo dele aplaudido entusiasticamente - nada mal para quem disse que teve medo de chegar aqui e só encontrar cinco pessoas na audiência.

O visual “stoned” de Jack, magrelo e barbado como um dos Freak Brothers, era referendado pelas brincadeiras. Usando uma caixa acústica como banquinho, ele provocou a plateia, indagando se não havia nada que quisessem saber a respeito dele. Um gajo devolveu: “O que tem no seu cantil?”. Jack deu sua risada soluçante de novo e respondeu: “Cocaína”. Alguém o convidou para ir à sua casa depois do show e ele disse: “Se tiver maconha eu vou”.

Depois, quase perto do bis, Jack tocou Hit the Road Jack, de Percy Mayfield, de 1960, talvez o maior sucesso de Ray Charles. “Soube que Ray Charles cantou aqui”, disse. Sim, cantou. Exatamente no mesmo lugar onde ele tocava, há 23 anos.

Após uma hora de show, Jack começou a olhar para o relógio. Fez isso umas três vezes, rindo. Depois, arrancou o relógio e jogou no fundo do palco, perto do violão. Perguntou se já era Carnaval e festejou: “Amanhã estarei no Rio. Assustado”, brincou. Ele toca esta noite e amanhã no Blue Note carioca e não é de perder.

Jack tocou uma canção inédita, If, que estará no seu novo disco, gravado em Nashville, no Tennessee, com produção do tecladista do Lynyrd Skynyrd, Peter Keys. Mostrou um falseto admirável numa balada linda, Too Late. Alternava violência nos arremates do cantil de uísque contra as cordas da guitarra e um dedilhado preciosista no violão.

No início da tarde, Jack Broadbent veio caminhando do seu hotel na Avenida Ibirapuera até o Bourbon para passar o som e terminou a noite abraçado com os fãs no centro do clube, ao lado da guitarra Lucille, doada por B.B.King. O blues dominava a noite novamente.