quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

LUIZ BRAGA




A mãe e a menina da boneca se reencontram em uma fotografia tirada clandestinamente em 1985



Dirigindo preguiçosamente outro dia numa manhã de domingo em São Paulo eu fiquei comparando a cidade com aquela que eu conheci quando cheguei aqui, em 1987.

Acho que o que mais me chama a atenção hoje é o bombardeio gráfico. Há zilhões de grafites, inscrições, frases, pixos, caricaturas e até charges. São Paulo era mais cinzenta e gutural, não havia essa polifonia toda. Os grafites se profissionalizaram enormemente, há desenhos estonteantes. Creio que prevalece um tom espirituoso no discurso, um estilo debochado-defensivo que alguém chamou de “ceticinismo” lá nos anos 1980. Entre as frases mais destacadas, tem muitas coisas que são parentes daquele famoso “o amor é importante, porra!”.

Recordo que, no mesmo ano em que cheguei aqui, conheci Alex Vallauri. Ele estava dando uma oficina de grafite numa lona de circo (não lembro se era o antigo Circo Benetton). Alex havia vivido em NYC no momento da explosão do grafite, com a emergência da arte de Basquiat e os outros, e demonstrava grande entusiasmo com a possibilidade de ensinar a um bando de garotos aquilo que tinha aprendido, a capacidade de subverter o olhar de uma cidade, uma metrópole. A lona do circo estava repleta de discípulos dele, meninos que nem mesmo sabiam porque faziam o que faziam.

Tanto aqueles primeiros grafiteiros quanto eu mesmo acreditávamos que a ocupação visual da cidade redundaria, a longo prazo, numa espécie de educação intelectual, política, sentimental e comportamental da população. Estávamos otimistas. Vemos hoje que não há relação entre uma coisa e outra; o moralismo está recrudescendo, a ignorância deu cria, a barbárie eleitoral se aprofundou. Vejo Nuno Ramos lutando contra a impunidade do assassínio do Carandiru com sua arte e não posso deixar de admirá-lo.

Desde Alex Vallauri, São Paulo se tornou uma sociedade muito visual, e paradoxalmente uma sociedade na qual a visualidade perdeu um pouco do seu impacto político. Não é que haja incapacidade de se comunicar. Pelo contrário: vejo manifestos visuais fantásticos, slogans políticos lindos, tudo é sedutor, forte. Mas parece que ninguém se importa, a política visual não mobiliza, embora tenha um escopo muito envolvente de décor, de elementos fashion.

Pode ser que seja um sintoma de época. Só para exemplificar: a foto da menina correndo com o corpo queimando de Napalm precipitou o fim da Guerra do Vietnã. Já a foto da criança morta numa praia da Turquia não mudou em nada a situação dos refugiados, embora compartilhada à exaustão. Temo que isso esteja relacionado com uma certa banalização da denúncia (ou a uma estratégia de estratificação social das denúncias).

Se me lembro bem, a denúncia séria sempre teve um caráter de aprimoramento social e político. A imprensa se robustecia nela. Hoje, enfraquece-se com sua própria seletividade denuncista. Um político conhecido pelo moralismo e discurso espartano não resistia a uma foto antiga de ficha policial ou à descoberta de uma amante em Barcelona. Agora, despejam-se quilos de e-mails comprometedores e escutas cabeludas e nada acontece. A conta na Suíça é numerada, tem depositantes identificados e movimentação pelo beneficiário, mas o político flagrado mantém influência suficiente para orientar o afastamento de um Chefe de Estado ou segue imperturbado em seu cargo no Itamaraty.

Por isso, acredito, o discurso da menina Ana Júlia na Assembléia Legislativa do Paraná tenha tido um impacto tão profundo. As palavras que ela usou não estavam viciadas, não vinham carregadas de media training. A sua lógica cristalina (“De quem é a escola? A quem a escola pertence?”), a atribuição direta de responsabilidades (“A mão de vocês está suja com o sangue do Lucas”), a clareza na identificação dos bloqueios (“A nossa dificuldade em conseguir formar um pensamento é muito maior do que a de vocês; nós temos que ver tudo o que a mídia nos passa, fazer um processo de compreensão”): tudo nela traía preocupações básicas, simples, fundamentais.

A crise, ou o que quer que se esconda sob esse nome, trouxe no seu bojo a institucionalização da bajulação e, por consequência, a mentira e o medo. O cinismo criou um fog que encobriu a verdade da indignação, perdeu-se o sentido de autopreservação comunitária. A violência classista virou mérito. As milícias do pensamento fustigam os fóruns de internet e fomentam perseguição ideológica, religiosa, de gênero. Entretanto, há momentos de sinceridade que se sobrepõem ao tsunami de discursos e virulência. Quando acontecem, marcam e indicam direções. Parece que há um movimento no sentido de recuperar a voz, sair desse emudecimento compulsório que nos é imposto no momento de maior potencial de comunicação da nossa existência recente.

Conversei há alguns dias com um fotógrafo especial, o paraense Luiz Braga, que é o centro da exposição Natureza Humanizada, no Museu de Arte de Belém, uma maravilha a 5 minutos de caminhada do Mercado Ver O Peso. Ele fotografa personagens anônimos de periferias e regiões ermas de Belém e outras cidades do Norte do País desde os anos 1970. Com muitos dos fotografados, o fotógrafo não trocou mais do que duas palavras. O curador Diógenes Moura garimpou no meio dessas fotos e fez um trabalho que é um marco da fotografia. O mais bacana é que algumas das pessoas retratadas se reencontraram com seu passado visitando a exposição, com histórias muito legais.


Houve o caso de uma senhora que ele tinha fotografado com as três filhas na manhã de Natal de 1985. “A filha que então era uma menina com sua boneca agora era professora. Encontros como esse são maravilhosos”, me disse o Braga. Houve também o relato da neta de um barqueiro que ele fotografou em Manaus em 1992 e que, viajando, abriu a revista de bordo e reencontrou o avô muito amado que havia falecido havia 2 anos. “O relato emocionado dela me fez perceber o quanto a fotografia é importante. Enviei o livro que tinha a fotografia dele e quando voltar a Manaus quero visitá-los, pois percebi a bela família que ele construiu”.




Acima, o açougueiro Alazir encontra-se consigo mesmo décadas depois




quarta-feira, 23 de novembro de 2016

PARADOS NAS OFICINAS


interior da oficina amacio mazzaropi, fechada atualmente



ALCKMIN ACABA COM OFICINAS CULTURAIS


Centros culturais, que atendem 400 municípios, começam a ser desarticulados pela gestão do PSDB



O governo do Estado de São Paulo iniciou essa semana o processo de extinção das 10 unidades do interior de São Paulo das Oficinas Culturais, espaços gratuitos de lazer que existem há 30 anos. A maioria delas existe em regiões carentes de infra-estrutura cultural, e convertia-se no único espaço do tipo.

Serão mandados embora da sede da instituição, no Bom Retiro, três coordenadores, um coordenador administrativo, um articulador, um assistente e todo o departamento financeiro das oficinas, cerca de 13 funcionários. Entre os dispensados, está o escritor Gonçalo Jr, autor de A Guerra dos Gibis e outros premiados livros. Ao todo, estima-se que entre 40 a 50 servidores serão dispensados.

Release da própria Secretaria de Estado da Cultura informa, no site das oficinas, que elas são 15 unidades no Estado e são responsáveis por atividades gratuitas de formação e difusão cultural em diferentes linguagens artísticas,entre elas as artes plásticas, audiovisual, circo, performance, HQ, dança, fotografia, literatura, música, teatro e também gestão cultural. Atenderiam cerca de 400 municípios.


Em São Paulo, a Oficina Cultural Amacio Mazzaropi, no Brás, que oferecia cursos de teatro, está fechada para reforma há mais de dois anos. A gestão das Oficinas Culturais é da organização social Poiesis, cujo diretor administrativo é Clovis Carvalho, e recebeu este ano cerca de R$ 17,5 milhões do Estado de São Paulo para a gestão de diversas estruturas, como a Casa das Rosas, a Casa Guilherme de Almeida e as Fábricas de Cultura.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

CAIU OU FOI CAÍDO?




A controvérsia a respeito da saída do ministério da Cultura de Marcelo Calero, O Breve


O ministro da Cultura do governo em exercício, Marcelo Calero, teria se demitido na tarde desta sexta, após somente 6 meses no cargo. Há controvérsia: ele teve audiências, na quarta e na quinta, com o senador Romero Jucá, líder do governo no Senado, e com Eliseu Padilha, Chefe da Casa Civil. Ambos externaram reclamações do governo com sua performance. Finalmente, foi chamado para conversar com o próprio Temer ontem, que chamou sua atenção para o fato de que parlamentares da base o procuraram com queixas dele (desmarcava compromissos sem justificativas e agia com arrogância, teriam dito alguns deles ao chefe). Convicto de que seria demitido, pode ter inventado uma saída honrosa, demitindo-se antes.

Há outra versão:  a saída de Calero seria sinal de que o PSDB estaria abandonando progressivamente o governo do golpe, que já faz água, para assumir em um sonhado “mandato-tampão” no ano que vem. Essa tese foi defendida por Chico Graziano em artigo na Folha de S.Paulo recentemente. Ou saiu para livrar-se de uma calamidade iminente. Calero era oriundo do PSDB, embora tivesse escondido essa gênese. Mas sua saída não muda nada: a ausência preenche uma lacuna, como diz o velho ditado; não havia de fato uma política cultural sendo esboçada.

Ocorre que Calero vinha se esmerando em descobrir que a realidade era mais imperiosa do que as aspirações dos golpistas na área cultural. Quase tudo que dizia era desmentido em seguida pelos fatos. Por exemplo: em 26 de junho, após reunião com dirigentes de associações integrantes do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição de Direitos Autorais (Ecad), Calero havia dito o seguinte: "Temos que buscar uma política de direito autoral mais conciliatória. Não poderia ser arrogante e achar autoritariamente que o Ministério tem que impor uma determinada decisão. Temos que escutar os vários lados e, a partir disso, trilhar o caminho do meio". Ato contínuo, o STF decidiu (por 8 votos a 1) que a Lei do Direito Autoral decidida por CPI mista era legítima (Lei 12.853/2013), não tinha nada de inconstitucional ou autoritária. O STF derrubou a demanda do Ecad, que era abraçada por Calero.

Calero também tentou boicotar a CPI da Lei Rouanet, que é um front casuístico da bancada da bala e dos evangélicos, também da base do governo em exercício. Teve de curvar-se à realidade: os vícios da legislação, já controlados pela polícia e pelo TCU, nunca justificaram uma Comissão Parlamentar de Inquérito, mas a conveniência política sim. Do seu lado, se permanecesse, teria de deslocar durante meses técnicos do Ministério da Cultura (que já são poucos) para atender às exigências de uma comissão sem norte e sem propósito a não ser o revanchismo político. Corria o risco de uma paralisia involuntaria.

Calero tinha se desgastado também com setores influentes da música e do audiovisual, não tinha como progredir em ações nessas áreas, que são vitais no entrechoque da cultura. Por outro lado, tinha construído alianças entre as forças economicamente mais poderosas do espectro cultural, o que lhe tinha garantido até uma certa estabilidade no cargo. Levou para seu governo nomes como o do ex-secretário de Cultura de São Paulo, Marcelo Araújo, homem forte da área de museus. Essa estrutura deve ruir com Roberto Freire, que tem seu próprio exército de mão de obra disponível para empregar.
Freire, que foi anunciado como substituto, é um mastim ideológico. Nunca teve estofo nem para assumir cargos de segundo escalão nas gestões que seu partido apoiou, como as dos governos paulistas. Apesar do voluntarismo, também não conseguiu cargos em estatais e outros cabides, apesar de sua dedicação canina. É a primeira vez que é premiado, e certamente não por suas qualidades na gestão cultural.


A saída de Calero tem um mérito indireto: ela escancara o início do isolamento de um governo ilegítimo que acumula indicadores negativos nas áreas econômica e social, e não demonstra capacidade de articulação parlamentar. Também se somam a essa onda as prisões de Sérgio Cabral e Anthony Garotinho, no Rio, capturas que esboçam um período negro para o partido no poder, o PMDB. Soa a debandada. Essa semana, o governo já cedeu aos Estados na questão da partilha do repatriamento de recursos. Vai continuar cedendo, é sua única alternativa, até que o vale-tudo extremo revele todas as vigas que os cupins já devoraram da forma como estão de fato hoje. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

A MÚSICA EM TEMPOS DE GOLPE



A MÚSICA INDEPENDENTE EM TEMPOS DE GOLPE



O que garantirá, nesse momento nebuloso de política, economia e incerteza cultural, a sobrevivência da música independente brasileira?

Alguns dos mais destacados produtores da cena alternativa nacional protagonizaram uma rara reunião na tarde de sexta-feira, dia 5, no Old School Rock Bar, em Belém do Pará, durante o evento de debates e reflexões Music on the Table, do 11º Festival Se Rasgum (o mais tradicional do gênero no Norte do País) para discutir esse tema e muitos outros.

Estavam lá Mancha Leonel (da Casa do Mancha, de São Paulo, também coordenador do festival Fora da Casinha), Paulo André (do Abril Pro Rock, de Recife, Pernambuco), Alê Muniz e Lu Simões (do festival BR-135, de São Luiz do Maranhão) e Luciana Adão (do Oi Futuro, Rio de Janeiro). Também participaram de uma rodada de negócios da música paraense, no mesmo local, os produtores Fernando Dotta (do Balaclava, de São Paulo) e Ana Garcia (do Coquetel Molotov, de Pernambuco).

Quase a totalidade da cena da música alternativa nacional passa (ou passou) por um desses nomes. “Para o ecossistema todo da música, os festivais são plataformas muito ricas, garantem a chegada dos novos músicos”, disse Luciana Adão, do Oi Futuro. A questão é:  há espaço para que esse universo, um tanto restrito, se expanda?

Não só há, como está acontecendo, ponderam todos. Paulo André, do Abril Pro Rock (e fundador da Associação Brasileira dos Festivais Independentes, a Abrafin), está em vias de levar uma edição do seu festival para o sertão de Pernambuco - a região que ele mira fica entre Afogados da Ingazeira e Flores (terra natal do maestro Moacir Santos). Paulo acha que é preciso que a cena cresça, isso é parte de sua motivação fundamental. Mas tem que ser em direção ao lugar onde há fertilidade artística, não deve se mexer apenas para abrigar os modismos externos.

Mancha, da Casa do Mancha, também está em movimento. Quer montar um palco Casa do Mancha dentro do festival paraense Se Rasgum (já estruturou um palco no festival Bananada, de Goiânia). Também quer assumir um dos contêineres do festival DoSol, pilotado por Anderson Foca em Natal (RN). Ele acredita que só uma cena genuinamente autoral pode garantir um futuro concreto para as bandas. “Quando comecei, em 2007, a casa só abria para banda autoral independente. Era e continua sendo o seu pilar de sustentação. As pessoas me diziam: isso não vai rolar, só vai atrair amigo e banda de amigo. Eu disse: F... se vem gente ou se não vem”, conta. Não tinha pressa: o espaço era na sua própria casa, era seu estúdio doméstico, de onde teve que se mudar com o crescimento.

Para Mancha, existe um período de no mínimo 5 anos para se solidificar um projeto dessa natureza, um reduto de música alternativa. “Vivo de música há alguns anos. Mas levei na cabeça durante 5 anos. É  um trabalho de estruturação, uma batalha constante. Leva anos para acontecer”.  

“Por muito tempo (o circuito alternativo de festivais) vai ser a principal plataforma de circulação de música no Brasil”, disse Paulo André, citando mostras emergentes, como a Demo Sul, em Londrina (PR). “Há muita coisa acontecendo, mas tem que ter um nível de empreendedorismo. Não pode achar que tem facilidade. O Abril Pro Rock, por exemplo. Todo mundo diz: ah, mas tem patrocínio da Petrobras, está na boa. A Petrobras dá um terço do orçamento, outros patrocinadores dão outro terço e um terço vem da venda de ingressos. Tem que fechar essa equação”, conta. 

Alê Muniz, do festival maranhense BR-153 e da banda Criolina, conta que a centralização dos lugares de música ao vivo alternativos é também local - muitos artistas do interior do Maranhão sonham em um dia tocar na Capital e poucos conseguem. A criação de um circuito que abrigue essas bandas fertiliza a cena, traz sangue novo. “Isso também aumenta o envolvimento, a relação entre a cidade e os artistas”, considera Muniz.

Luciana Adão, coordenadora do programa de patrocínios culturais incentivados da Oi Futuro, diz que “a saída é coletiva; senão, não vai rolar”. Ela acredita que as fontes de recursos devem ser diversas, e têm que incluir necessariamente as leis de incentivo. Ainda assim, é preciso envolver-se diretamente no processo de realização das mostras. Apesar da equipe pequena, “a gente não terceiriza nada”, diz. “Ninguém escolhe trabalhar com cultura pra ser rico; é algo quase religioso”, afirmou ela.

Paulo André diz que falta apoio nos locais até onde a sensibilidade para o novo deveria ser mais aguçada. “Os maiores gargalos são as rádios públicas mofadas. Rádio que só tem 242 seguidores no Twitter está fazendo alguma coisa errada... É o caso de grande parte das emissoras públicas”, considera. Cita a Universitária FM do Recife, “a rádio que mais toca Richard Clayderman e Ray Conniff”.

A diversidade é um dado a ser radicalizado, concordaram os debatedores. “O cara gosta do que conhece, mas pode gostar daquilo que não conhece”, diz Alê Muniz, citando Gilberto Gil. Ele acredita que é preciso ampliar o debate, criar um envolvimento maior. “Os caras das rádios universitárias deviam estar aqui agora, sentindo esse chute na canela”, afirmou.

Segundo Paulo André, há uma acomodação geral. “A galera paga caro para ver Ana Carolina, mas não paga para ver a nova geração que canta nos bares”. Os artistas locais, que poderiam fazer algo para criar seu próprio circuito de shows, não têm por hábito conversar entre si, traçar estratégias. “Não há sincronicidade entre os artistas, é muito novo esse movimento”, ponderou a cantora paraense Liège, que acaba de lançar o EP independente Filho de Gal. “Essa angústia é coletiva, até São Paulo ficou pequena para a música autoral”, considerou Ale Muniz.

Outro problema, acentuam os produtores, está na falta de reconhecimento, pelo Estado, de vocações regionais em música.  Belém, por exemplo: considerada Cidade Criativa na categoria Gastronomia pela Unesco (só duas cidades receberam o título na América Latina), não tem uma política de valorização de sua produção musical. “É ridículo não ter uma Cidade da Música no Brasil. Em Buenos Aires, o tango é um vetor de atração turística. Fui com a banda Cascabulho para o festival de jazz de New Orleans e vi como eles acreditam, lá, que a música traz divisas para a cidade, fomenta desenvolvimento”.

Para Paulo André, os novos artistas da cena independente precisam entender que sua atuação não pode ser estanque, têm que estar conectados com outras áreas artísticas, saber o que se passa em toda a cena. “Não adianta fazer música se não transitam pelas artes como um todo, se não sabem quem são os artistas visuais do seu tempo”, diz Paulo André.

Como produtor, Mancha conta que estabeleceu alguns critérios básicos para selecionar bandas para tocar em seus eventos: primeiro, o artista tem que trabalhar seriamente tanto a divulgação do seu trabalho quanto a produção visual; segundo, não quer saber de alienados, artistas que ignoram ou são mal informados em relação à situação de exceção política que vive o Brasil atual.

“Eu examino a postura dele em relação à política e à sociedade. Já vetei artista por posicionamento golpista ou homofóbico”, conta. “Dizem pra mim: mas isso não é censura? Eu digo: f...”, conta. Uma certa fama adquirida em grande exposição na mídia não é necessariamente um elemento facilitador, diz Mancha. Ele cita o caso da banda Plutão Já Foi Planeta, que tinha grande mídia e não conseguiu lotar a Casa do Mancha em seu primeiro show lá.

“Banda que está na Globo, sendo falada, não necessariamente vai encher uma casa de 100 pessoas”, analisa Mancha. Paulo André concorda, e lembra grupos que receberam convite para participar de reality shows, como o Superstar (da Rede Globo), e lhe pediram conselho sobre isso. “Superstar não vai acrescentar nada à carreira da Cabruêra”, respondeu a um grupo. O motivo é simples: a banda, que era alternativa, provavelmente não será mais chamada para o circuito independente, porque perde a identificação com essa plateia; por outro lado, o frisson da superexposição passa logo. “Eu não acredito nesse público”, afirmou.

Há casos e casos. Por exemplo: o cantor Johnny Hooker, hoje em evidência, tentou e perdeu diversos concursos em sua terra, Pernambuco, antes de conseguir ganhar espaço e destaque na cena atual - em parte, após a participação no filme Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013) e posterior entrada em telenovelas.

Os produtores identificam uma nova configuração de pequenas casas independentes que se articulou, historicamente, a partir da onda fiscalizatória nacional que sobreveio com o desastre da boate de Santa Maria (RS), “que passou o rodo em todos os inferninhos”. A fiscalização apertou e muita gente fechou. O que veio depois foi uma movimentação de novos lugares, menores, no País todo - boa parte deles aberta pelos próprios artistas. “Não querem me contratar? Vou fazer eu mesmo".


sábado, 5 de novembro de 2016

GIRLS ON FIRE








11º FESTIVAL SE RASGUM
Alguns flagrantes do maior festival do Norte do País, em especial ebulição por conta dos 400 anos de Belém do Pará


1. Julia Reis, baterista portuguesa da banda Pega Monstro (a banda é ela e a irmã, a guitarrista Maria), de Lisboa

2. Sammliz, cantora paraense de apetite rock, investida de valquíria da floresta na noite de ontem

3. Mariko Doi, baixista e vocalista da banda inglesa Yuck (cujo vocalista, Max Bloom, mandou um "Fora Temer" em português cheio de convicção na noite de ontem)

4. Verônica Valentino, vocalista transformista da turbulenta banda cearense Verônica Decide Morrer

5. A cantora carioca Barbara Ohana, sobrinha de Claudia, que fez show acompanhada de Adriano Cintra, ex-Cansei de Ser Sexy

6. Dançarina de carimbó do grupo Carimbó de Maria, que dança aos sábados na Quitanda Bolonha, dentro do Mercado de Carnes


quinta-feira, 3 de novembro de 2016

CATTO











Chego a Belém justamente no momento em que Filipe Catto faz sua estreia na cidade. O teatro está lotado, tem gente sentada no chão nessa noite de quarta-feira. Não consigo entender: quem é ele? Fora Elis, que tipo de gaúcho seria capaz de provocar essa euforia num Dia de Finados?
Filipe lembra a história de quando, uns 8 ou 10 anos atrás, quando vivia em Porto Alegre, teve um amigo de Belém, e de como a cidade na Amazônia que o amigo lhe descrevia lhe pareceu intangível, com sua comida própria, sua música própria, sua cultura própria, suas histórias tão peculiares . 

Contou que nunca imaginou fazer uma viagem do Rio Grande do Sul ao Pará, parecia tão distante e impossível de se chegar. Enfim, ali estava - e agora com status de ídolo popular precoce.
Filipe se move como Ney Matogrosso. Isso me lembrou divertidamente a música do Maroon5, Moves Like Jagger. Tem agudos de Ney Matogrosso. Tem gestos de Ney Matogrosso. Mas ele tem alguma coisa que o liberta de Ney Matogrosso e da minha sanha comparatista: ele acredita no que canta, ele canta com vontade e uma potência vocal extraordinária. E tem uma juventude e autoconfianças exasperantes, daquele tipo de juventude que parece indestrutível. Eu me lembro de ter ouvido uma ou duas de suas músicas no computador, e não tinha me detido porque não sabia de onde partia a música - o show ao vivo é 100 vezes melhor.

Então, quando ele começou a cantar os versos de O Fundo do Coração, de Julio Barroso e a Gang 90, eu achei que ele tava de brincadeira. Ninguém canta Julio Barroso hoje em dia, não há tal compreensão de sua essencialidade. Na versão original, Julio Barroso se acompanhava ao violão com sua voz gutural e Taciana fazia o refrãozinho new wave. Filipe trocou o violão por uma tecladeira e bateria e a interpretação ficou impossível de ser passada adiante, porque o cantor pôs veneno nela e a reinventou.

A canção na qual Filipe Catto amarra as pontas do amor e da morte, Auriflama, “a morte é a esquina onde o amor termina”, tem um componente de eternidade pop.  É construída em torno do verso do escritor angolano José Eduardo Agualusa (musicado por Thalma de Freitas). Há de fato uma alma lusa sob o sorriso de kamikaze de Filipe Catto, um jeito meio fadístico que comparece quando ele se agarra à repetição de frases como “Depois de Amanhã”. Penso bobamente que não haveria George Michael ou Freddie Mercury ou outro ídolo anglosaxão capaz de igualar esse sentido português da palavra que Catto domina com tanta maestria.

A plateia conhece todas as canções de Filipe: Redoma, Tomada, Rima Rica, Saga. Canta com ele Adoração. Luz, Vida, Arte: ele manipula clichês com tal segurança que os despe de suas fragilidades demagógicas. Filipe exerce sem cerimônia a arte de ser doce sem ser servil. Bajula o público, mas o mantém a uma distância prudente com uma autoridade sub-reptícia. Declama a capela uma música de Joelma, Cavalo Manco. Knock out: a plateia entrega os pontos.

Nunca há o tédio no show de Filipe Catto. Ele rege a atenção do público. Ninguém sai antes do final, como num jogo de pôquer. Pelo contrário, vão indo para a frente, cada vez mais para a frente, para terminar numa tietagem coletiva como num show de Roberto Carlos. Que música brasileira doida é essa que gesta figuras assim como se não houvesse prazo para exaurir a jazida?


quarta-feira, 12 de outubro de 2016

CRÔNICA DO DESERTO






Desci do metrô na estação 7th Street às 6h da manhã. Duas policiais hispânicas tentavam acordar um homem que dormia no hall da estação e fazê-lo sair na marra para a rua. Ele fedia mesmo de longe, então elas ordenavam que saísse a uma distância prudente, com as mãos na cintura. Na estação Universal, eu tinha lido que Los Angeles fora fundada por 26 homens negros, e agora eles eram milhares tirando sonecas nos vagões e nas calçadas. Lá fora, na rua, legiões de doidões, prostitutas, homeless vagavam sob a luz prateada do quase dia. A moça da loja de depilação de estilo granny hair recusou-se a abrir a porta para dar uma informação, para que lado eu deveria seguir até a estação dos ônibus Greyhound? não há mais táxis pelas ruas a essa hora pelas grandes cidades do mundo, o Uber os aposentou todos e gente sem cartão de crédito como eu tem pouca chance nessa configuração. Não culpei a moça, tinha gente rosnando para todo lado. Fiquei pensando que o mundo moderno seria inclemente com os vagabundos de outrora, o crack aniquilou o homeopático álcool, e outsiders como o velho Buck seriam triturados por essa nova ordem. Imaginei o velho Buck sendo expulso de um vagão do metrô abraçado a uma doida que encontrara num trem deserto.

Comecei a andar mais rapidamente e minha boca sempre fica seca quando estou nervoso - considerando-se que não gosto de água e que estava no deserto, só piorava o cenário. O ônibus sairia às 7h e já dava 6h20 e, pela numeração, a estação dos ônibus Greyhound ficava a uns quatro quilômetros à frente, com sorte. Pelo menos eu estava do lado certo, o lado leste, pensei, quando um táxi surgiu como se fosse um bote salva-vidas no oceano de Los Angeles, eu acenei e ele veio. “Deus te abençoe!”, exclamei, e o homem sorriu. Me levou em 10 minutos, embarquei com meu ticket comprado numa 7Eleven por US$ 27 na noite anterior. Conforme o ônibus avançava pela região metropolitana de Los Angeles, o sotaque chinês do motorista fazia um grupo gargalhar nos últimos bancos. “Garemonte!”, disse o motorista. “Ele quis dizer Claremont?”, grasnou um garoto de voz metálica, e uma festa de gansos se instalou no busão. O rapaz do meu lado era caminhoneiro e queria conversar, falou longamente sobre como ainda há empregos regulares, mas que ele não os quer, que ele prefere os bicos, que está indo buscar um caminhão em Vermont, quanto iria ganhar por hora e que no último emprego regular ele perdeu a liberdade e não ganhou nenhuma vantagem.

Em Riverside, me chamou a atenção uma espécie de oficina de coisas recicladas que um artista desses de solda e cola tinha transformado numa espécie de Casa Battló de periferia.




Eu tinha a meta de gastar apenas US$ 300 em seis dias nos Estados Unidos (meta ou teto, chamem como quiserem), e quando o motorista chinês anunciou que o ônibus, parado na estação de San Bernardino, não sairia mais dali porque o ar-condicionado tinha quebrado, gelei. Era perto de 10h da manhã e ainda faltavam umas duas horas até Indio. O motorista disse que em uma hora chegaria outro ônibus e isso me reconfortou. Saí da estação para comer algo, fui caminhando até um posto de gasolina. Prostitutas gordas em todo o perímetro, homens de rua com seus carrinhos de supermercado atulhados de panos velhos, um posto de gasolina desértico e sua loja de conveniência abarrotada de colesterol. O cachorro-quente ainda vai demorar 10 minutos para ficar pronto, me disse a garota. Eu peguei um capuccino e fui esperar no meio-fio, aquele cachorro-quente me parecia naquele momento a diferença entre a vida e a inanição. Voltei à estação após devorar o sanduba e o motorista chinês estava sentado sobre um caixote. Perguntei sobre a previsão. Ele disse: “Duas horas”. Saquei que ele chutava as previsões sem ter nenhum tipo de informação da companhia. Havia um casal de mexicanos, Jorge e a mulher, e um americano, James, numa reunião de emergência ao lado do ônibus, falando em chamar um Uber. Eu perguntei quanto sairia até Indio se fossemos em quatro. “Uns 90 dólares divididos em quatro”, disse Jorge. Eu disse: “Estou dentro”. Chamaram o Uber, e eu e Jorge fomos até o guichê da Greyhound pedir o dinheiro da passagem de ônibus de volta. Um senhor atrapalhado bateu vários carimbos numa guia, pediu para a gente preencher um formulário e por fim devolveu meus US$ 27.

O motorista do Uber, Daniel, tinha uns 25 anos, cabelo de emo e era mexicano também. Ouvia uma rádio de oldies pop, canções que vieram 10 ou 15 anos antes dele. Chegou em 10 minutos e voltamos à estrada, deixando San Bernardino e seus vultos de rua para trás. Jorge me contou como ele e a mulher (esqueci o nome dela) foram até Cuba para ver os Rolling Stones, e como já tinha visto 11 shows deles. James era blasé e mal conversava, só exigia que o deixássemos no seu hotel primeiro, depois fôssemos buscar ingressos e credencial. Eu fotografava os moinhos de vento da janela atrás do motorista, e cada vez que batia a lente no vidro James olhava para ver o que eu estava aprontando. O território da cidade de Indio é roubado ao deserto, então dá para observar as estratégias de fertilização do solo por todo lado, as palmeiras cuja existência tem o sentido de dar sombra para que um pequeno oásis de relva se desenvolva sob elas. Chegamos muito rápido às tendas do credenciamento, e só tinha uma garota na minha frente. Mesmo assim, ela demorou uma barbaridade.

O Quality Inn só tinha uma vending machine com snacks, cocas, sprites e água. Na piscina dormitava um casal que me lembrou terrivelmente Nicolas Cage e Elizabeth Sue em Leaving Las Vegas, um dos filmes da minha vida. Era um hotel horizontal clássico, motelizado, a 300 metros de um cassino no qual tentei comprar baralhos Kem, mas eles não tinham. Notei que havia uma van no estacionamento com o selo do festival. O operador da coisa me disse que estavam cobrando US$ 60 pelos três dias, para levar e trazer hóspedes até o Desert Trip. Eu puxei uma nota de US$ 100 e ele não tinha troco, dei US$ 30 e ficou por isso mesmo, ele me deu a pulseira.




O sol fazia crepitar folhas mortas no meio-fio e um lava-jato no meio do nada jorrava água em cima de carros enormes. O deserto resseca a pele e cria tijolos de pó dentro das narinas, em três dias dá para fazer um muro. Foi aqui que John Fante encontrou a motivação para as famosas linhas de Pergunte ao Pó: “Pergunte ao pó na estrada! Pergunte às árvores de Joshua onde o Mojave começa. Pergunte a elas sobre Camilla Lopez, e elas sussurrarão seu nome”. Sam Shepard morou nessa fronteira, e os moinhos de vento que mal se mexem insinuam uma dinâmica de natureza que é feita de belezas insólitas e arapucas.

Eu estava com uma coisa na cabeça: como eles terão chegado até aqui? Bob Dylan certamente está no deserto a essa hora, com seu chapéu enfeitado com uma pena e suas botas de couro de cobra. Paul McCartney andaria de bicicleta por aqui como fez no Itaim, no Parque do Povo? Neil Young teria vindo dirigindo seu jipe conversível Willys 1951 desde seu rancho Broken Arrow, nas montanhas de Santa Cruz? Roger Daltrey e Pete Townshend costumam viajar juntos? Roger Waters conseguiu descer de jato nesse poeirão? O motorista do Uber me disse que Bill Gates tinha casa ali em Palm Springs, não fui checar.




Na chegada à noite de abertura no Empire Polo Club, vi o primeiro camelô que furara o bloqueio (eles aumentariam em número no último dia, chegando a vender de porta em porta no hotel, mas nunca mais que uma dezena). O cara vendia por US$ 20 cada camiseta mal impressa, enquanto as oficiais podiam chegar a R$ 80. Comprei uma para o Jack. No sábado, o senhor na cadeira à frente, Ron Alexander, perguntou algo e  descobrimos que ele era um psicanalista que tinha estado em Woodstock em 1969, quando tinha 19 anos. Disse que faltava lama, topless e sexo no Oldchella. No domingo, Alexander demorou para aparecer e achei que ele tinha deixado de gostar do Who, mas aí ele surgiu com o parceiro e ergueu os braços e o chapéu para os céus quando Roger Waters tocou Time.

Não era o caso de Alexander, que ainda toma suas pílulas, mas todos aqueles velhos hippies com cadeiras nas costas demonstraram ter se dividido bastante quando Waters mandou a artilharia para cima de Donald Trump. Metade aplaudiu, mas uma boa parcela fez cara de contrariada, embora calada. Trump certamente representa o oposto de tudo que foi utopia nos tempos do Flower Power: os direitos civis, paz & amor, solidariedade, vida desregrada e livre. Não que eu acredite que Hillary Clinton represente algo melhor, mas Trump é uma agressão em progresso, um acinte em movimento.
Eu tinha esquecido o meu laptop em Los Angeles, estava digitando os textos no celular. Minha tendinite grunhia mais do que a guitarra do Lukas Nelson, o guitarrista do Neil Young. Na sala de imprensa, vi Jon Pareles, do NYT, e ele me pareceu uma versão não-paranóica do Art Spiegelman.

Na frente de uma espécie de coreto do clube de pólo, o público se divertia fazendo ola para um drone que voava baixo coletando imagens das pessoas. No corredor polonês para a arquibancada do lado direito, vi uma camisa do Grêmio e outra do Cruzeiro caminhando lado a lado e eu apertei o passo e emparelhei com eles para ouvir o que diziam. “Olha isso aqui, caralho! Villa Mix, vai tomar no cu!”, berrava o rapaz com a camisa do Grêmio. Eu disse: “Wesley Safadão é gênio”. Um segundo de surpresa e eles começaram a gargalhar e zombar de mim e rindo entramos na arena.




Sábado, dia 9, pouco depois do meio-dia, enquanto Paul McCartney fazia a passagem de som no clube de pólo Empire, em Índio, Califórnia, a 39 quilômetros dali, os policiais Jose Gilbert Vega, de 63 anos, e sua parceira Lesley Zerebny, de 27 anos (que tinha acabado de voltar de licença maternidade e tinha uma filha de quatro meses) atenderam um chamado para mediar um aparente distúrbio familiar em Palm Springs. Eles pediram para um homem, que parecia o centro nervoso da bagunça, sair da residência para conversar. O homem abriu fogo, matando Vega e Lesley e mandando um terceiro policial para o hospital.

O  lugar é tradicionalmente tranquilo: os policiais foram os primeiros a morrer em ação desde 1962, segundo informou o jornal The Desert Sun. Mas o crime passou a incomodar os policiais da região, que intensificaram barreiras e batidas pela área toda. Foi preso um sujeito de olhos esbugalhados chamado John Felix, que estava em litígio com a mulher e foi surpreendido pelo pedido dos policiais. Preferiu abrir fogo a conversar, e isso colocou em polvorosa todas as viaturas da região, estavam fazendo pente-fino em todo lugar, a entrada no Empire Polo Club ficou mais arrastada sob o sol e o pó insalubres do deserto.

O assassinato dos dois policiais tornou as revistas no Desert Trip ainda mais minuciosas e demoradas. Chegaram a abrir o compartimento de minha mochila no qual eu guardo o comprovante do PIS.

No mesmo sábado, conheci o engenheiro Arley Gonzalis, que estava no mesmo hotel que a gente e pegava a mesma van. Tomamos uma cerveja italiana e concordamos que Eric Clapton e Santana comporiam uma boa noite do ano que vem no festival. Ele perguntou quando iríamos embora, eu disse que sairia muito cedo na segunda-feira porque ainda tinha de achar onde era a rodoviária. Ele disse: “Não vou sair muito cedo, mas se quiser uma carona até Los Angeles, na boa”. 10h30 mais ou menos deixamos Indio, Arley tinha alugado um Mustang. No caminho, cruzamos um utilitário no qual o dono tinha escrito, no parabrisa traseiro: OLDCHELLA. O motor do Mustang ronronava rumo a Los Angeles, e a rádio tocava Foxy Lady, de Jimi Hendrix, que Paul homenageara lá no segundo dia do Desert Trip.