segunda-feira, 26 de setembro de 2016

FARSILA





MINISTÉRIO DA CULTURA ADULTERA OBRAS DE TARSILA EM PEÇA PUBLICITÁRIA

O Ministério da Cultura está usando em sua página no Facebook obras de Tarsila do Amaral adulteradas com fins publicitários, sem autorização legal.  As telas Religião Brasileira e Manacá, ambas de 1927, foram recortadas para uso como foto de perfil e como um selo (Manacá ganhou um círculo com o logo do ministério no meio do desenho).

Mesmo que obtenha autorização da família, o uso das obras com objetivos publicitários caracteriza violação de direito moral, que é inalienável e irrenunciável (ou seja: não podem ser transferidos para outra pessoa mesmo que o autor queira).  Conforme a lei 9610/98, os direitos morais asseguram ao autor a integridade da obra, opondo-se a quaisquer modificações.

Os leitores fizeram um vomitaço nos comentários de Religião Brasileira e, em Manacá, comentaram o desrespeito. “Gente, esse governo golpista é fraco em tudooo, sério, que porra de logo é essa?! Respeitem a Tarsila, Golpistas de MERDA!!!!”, escreveu Rafael Ferro. Houve um pequeno debate sobre a qualidade da obra. Com a adulteração, ficou parecendo uma toalha de rosto, escreveu Thiago Wonka. O MinC não comentou.

EM TEMPO: Após a denúncia do blog, ontem, publicada no Farofafá/Carta Capital, a família de Tarsila do Amaral manifestou contrariedade com a atitude do ministério e informou que estuda medidas judiciais contra o governo. Hoje, o MinC retirou de sua página as "ilustrações" sobre as obras adulteradas, sem nenhuma nota explicativa. Colocou no mesmo local ilustrações anônimas, produzidas por sua equipe.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

AGUARRÁS NA LISTA DE COMPRAS




Começa essa semana a CPI da Lei Rouanet, comissão criada com assinaturas de 212 deputados (são necessárias 171 para criar uma CPI) e que será presidida pelo deputado Alberto Fraga (DEM).
Os deputados abriram a comissão com intuito claramente político, o que é normal: todas as CPIs são instaladas para fustigar adversários políticos, não me lembro de uma que tenha sido aberta por necessidade espontânea e demanda genuinamente popular.

Houve recentemente a descoberta de uma quadrilha que fraudava projetos, com conluio de funcionários de empresas gigantescas, para lesar o sistema de incentivo fiscal da Lei Rouanet. Essa quadrilha foi desbaratada com a ação interna dos sistemas de fiscalização do incentivo, e seu enquadramento penal (e consequente prisão) foi conduzido pela Polícia Federal.

Mas o que move o Congresso não é esse eventual desvio de finalidade que, de resto, já alcançou até conselhos da Receita Federal; o objetivo é claramente constranger artistas que porventura tenham sido credenciados pela Lei Rouanet para captar recursos para projetos culturais.

Henilton Menezes, ex-secretário de Fomento do Ministério da Cultura, passou os últimos anos cruzando informações do uso da legislação (que são públicas, estão à disposição no site Salicnet) com outras fontes, como a Receita Federal. Descobriu o seguinte:

“Nas prestações de contas dos projetos executados, identificamos que 4,97% dos  recursos oriundos do incentivo fiscal foram investidos em transporte, 3,17%, em mídia, 1,62% em hospedagens, 1,27% em alimentação. A maior fatia, 68,31%, foi aportada em estruturas de produção artísticas, numa variedade incontável de itens, como figurinos, cenografias, estúdios de gravação, gráficas, fabricação de discos, instrumentos musicais, sonorizações e iluminações de espetáculos, estruturas de palco, até mesmo materiais e serviços de construção que são utilizados em centenas de projetos de restaurações de bens históricos, incluindo engenheiros e arquitetos. Cada item desses teve um grande número de profissionais envolvidos, o que gera um grande impacto na formação de empregos no País. Apenas 15,32% desses recursos foram utilizados para pagamento de cachês artísticos para músicos, atores, dançarinos, escritores, roteiristas, artistas plásticos, artesãos etc.”

Apenas 15% dos recursos vão para cachês. O estudo de Henilton tem mais de 600 páginas e virou livro, A Lei Rouanet Muito Além dos (F)atos, da Editora Manole, que sairá em breve.

O eventual uso político da Lei Rouanet é um dos pontos aos quais se aferram os deputados mais belicosos da CPI, como o seu presidente. Conversei com ele recentemente, e tenho minhas dúvidas se Fraga sabe como funciona o mecanismo de incentivo - a Lei Rouanet não “dá” dinheiro, ela autoriza o proponente a buscar o dinheiro no mercado. Se conseguir, o que é raro, a empresa que o ajudou pode ter abatimento do dinheiro investido no Imposto de Renda no ano seguinte.

Claro que pode acontecer de uma empresa estar mancomunada com um artista ou produtor e fazer uso dessa autorização para locupletar-se. Não acho que seja esse o objetivo da CPI, mas se for, gostaria de sugerir um caso para exame: o Instituto Fernando Henrique Cardoso, atual Fundação Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Em 2015, a fundação de FHC conseguiu a aprovação da Lei Rouanet para projeto de manutenção de sua sede durante três anos, no valor de R$ 6 milhões. O objetivo é “dar continuidade à descrição, preservação e informatização” do acervo do ex-presidente - dessa vez, ele incluiu o pai, Leônidas, e o avô, Joaquim Ignácio, no lote. E também os seus ex-ministros Paulo Renato Souza e Sergio Motta (grandemente reconhecido pela contribuição à emenda da reeleição).

Veja no link abaixo: a Lei Rouanet paga desde a recepcionista, arquivistas, bibliotecárias, office-boys até os armários e as estantes de aço do instituto. Paga aguarrás e papel almaço, lápis, pincel, tesoura.
Esse recurso de FHC à Lei Rouanet é recorrente. Com R$ 14,5 milhões captados desde o início de funcionamento da legislação, ele é um dos 100 maiores utilizadores das verbas do sistema. O projeto trienal da atualidade, que vai até 2017, é o seguinte:


Mas FHC é também usufrutuário indireto dos recursos da Lei. Ele ganhou R$ 150 mil incentivados para ser o apresentador da série Os Inventores do Brasil, de Bruno Barreto.


Ganhou mais R$ 10 mil para uma palestra na feira literária Flipoços, entre outros casos. É uma personalidade da política cuja saúde das finanças pessoais depende bastante da Lei Rouanet.


Neste novo projeto trienal, que já captou R$ 3,2 milhões, o Banco Safra, indiciado na Operação Zelotes, é um dos maiores investidores no projeto de FHC, assim como o banco Itaú e a IBM (que foi mencionada pela Polícia Federal no caso dos fraudadores da Lei Rouanet que deram festa de casamento em Jurerê Internacional).

1
Banco J. Safra S.A
2
Cia Itaú de Capitalização
3
Cia Itaú Securitizadora de Créditos Financeiros
4
IBM - Brasil Indústrias Máquinas e Serviços Ltda
5
Safra Distr. de Titulos e Valores Mobiliários Ltda
6
Safra Seguros Gerais S.A.
7
Safra Vida e Previdência S.A.
8
Sercom Comércio e Serviços Ltda.



Tenho minhas dúvidas se a atual incursão de FHC nos bastidores da Lei Rouanet vai interessar à CPI em formação na Câmara Federal. Foi apenas uma ideia que me ocorreu. A comissão parece mais interessada em punir o delito de opinião política, constrangendo e intimidando. Mas algo que começa assim, como uma expressão da vendetta política, pode terminar expondo as nervuras mais expostas da própria natureza do vingador.


domingo, 11 de setembro de 2016

É HORA DE RECRIAR A GUANABARA!







COMO SE PRONUNCIA O NOME DO PARTIDO DO MINISTRO SEM PARTIDO?



Na União Soviética stalinista, ficou famosa a técnica de apagar dos retratos oficiais aqueles camaradas que tinham caído em desgraça com os novos poderosos. Um expurgo violento teve início e, para se refazer para a posteridade a história da URSS, foi necessária anos adiante uma minuciosa reconstrução das imagens apagadas por Stalin e seu grupo.

No Brasil de 2016, há pelo menos um caso curioso que lembra, embora por motivos diversos, o esforço revisionista da URSS daquela época.

Trata-se da figura do ministro apartidário Marcelo Calero, da Cultura. Ele chegou ao novo regime como uma figura que paira acima da carniça dos partidos. Foi anunciado como um diplomata que empresta seu prestígio ao republicanismo por “altruísmo”. Foi assim que ele se apresentou, inclusive:


Mas acontece que essa história está mal contada. Calero é tucano dos quatro bicos. Se saísse da sombra, seria definido como o quarto ministro tucano de Temer, evidenciando que a partilha é mais ampla e polpuda do que se noticia frequentemente.

Em 3 de outubro de 2010, ele registrou sua candidatura pelo PSDB no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro pela coligação O Rio de Janeiro Pode Mais. Obteve 0,01% dos votos válidos (pouco mais de 2 mil votos), e não foi eleito para deputado federal.


No currículo que ele fez publicar na página oficial do MinC (http://www.cultura.gov.br/o-ministro) não consta a aventura eleitoral malfadada. Em nenhuma entrevista publicada recentemente ele ou seus interlocutores mencionam sua vinculação partidária.

Nos colunistas e nas reportagens quando de sua nomeação, nada saiu. É como se tivesse desaparecido de sua memória aquele corpo a corpo com o eleitor no distante ano de 2010. Claro que sua performance minguada não é um grande feito partidário, e também que sua militância pela “desfusão” talvez não tenha sido bem compreendida, mas porque mentiu o ministro sobre sua isenção?


Até o Ancelmo, que é muito bem informado, não conseguiu em sua coluna declinar de que ninho teria vindo o Marcelo, embora anotasse que ele tinha a habilidade de sorrir com os olhos:


Marcelo Caléro (na época, acentuava o nome, aparentemente para rimar Caléro com Zero, mas parece que depois da nomeação ele achou muito berrante e tirou o acento) tinha uma plataforma de governo. Uma de suas propostas era a recriação do Estado da Guanabara. Sonhava com um Rio de Janeiro como uma “Cidade-Estado”. Era contra a Copa e a Olimpíada, achava que só gerariam recursos “para outros Estados” do Brasil. Ele chegou a procurar um cacique do partido em São Paulo para dar aval a seus diagnósticos. Leia aqui:

Como um sujeito chega ao governo do País com tais credenciais e ninguém fica sabendo delas? Esse é um outro mistério sobre o qual me debruçarei um dia desses.

O problema pode não ser apenas o de transparência nesse novo Brasil, que parece cada vez mais evidente: e se o homem da desfusão, agora no MinC, se invocar e quiser separar do arrocha o axé e o forró? Seria uma tragédia sem precedentes.


sábado, 10 de setembro de 2016

ASA NO ASFALTO





Gosto do texto que comunica, mais do que daquele que descreve. Um texto que retém em si a memória, que dá algum colorido à memória. Que reflete sobre sua presença no mundo. Nosso tesouro de esperança reside na memória das coisas, e de como essa memória ativa as percepções.

Mas é complicado, às vezes passo meses sem dizer nada por escrito. Daí porque o jornalismo é uma espécie de refúgio para mim, ele me obriga a obrigações técnicas e éticas e portanto não me aprisiona no meu próprio exame de consciência, na minha tarrafa existencial.

Não que o jornalismo seja algo menor em minha vida, pelo contrário. Levo tão a sério que sou chato. O jornalista que diz “é só uma matéria, temos muitas” me provoca desconfiança. É como um obstetra que diga “é só um parto, tenho muitos outros”. Não respeito.

Mas, fora das redações pela primeira vez após 30 anos, me curei de algumas dependências. Teve época de, lúmpen convicto, fazer até seis matérias por dia, e todas me faziam sofrer igualmente com seus dilemas de acabamento, sua necessidade de versões, seus arremates. Sempre foi comum dormir mal por conta de algo cuja execução não me tinha deixado confiante.

Lamento informar, mas quase toda a História do Jornalismo, assim como a da espécie humana, consiste em tentar fazer uma versão prevalecer sobre a verdade. Os jornalistas sempre enxergaram a si mesmos como heróis puxando a corda da versão mais nobre (um pacto invisível com os oprimidos, os sem voz, contra o poder) para alinhá-la o mais perto possível à linha central da verdade.

Obviamente, sabemos que o jornalismo carrega os vícios dos jornalistas (até o da insinceridade), mas quando é dominado pelos vícios dos seus patrões, piora sensivelmente. Descamba para a situação mais trágica, que é essa que vivemos hoje, quando não sobra quase nenhum fiapo de verdade para equilibrar aquela equação. Esse quadro insufla os ânimos e encoraja desvios, efeitos colaterais: do corporativismo ao apadrinhamento ideológico, do cinismo à injustiça, do plágio institucionalizado ao jabazismo descarado. Dá tristeza, porque houve um momento de anfetamínica grandeza em tudo aquilo.

Hoje posso me dar ao luxo de ficar de fora. Me incomoda sobremaneira ficar refém de um acontecimento, tipo uma Olimpíada. Ficam esperando do jornalista que ele se manifeste sobre certas ondas massivas noticiosas, mas ele acha que todos os outros já estão fazendo bem o seu trabalho, não precisa se meter. Tem gente que se incomoda com esse silêncio. Creio que deve ser assim que se sente um poeta quando se vê cercado por pessoas que esperam que ele diga coisas extraordinárias o tempo todo, que seja uma espécie de Pound-torneira, um jorro-Whitman, um vacinado contra a trivialidade.

Tem uma situação que frequentemente invoco: se você tem um filho pequeno, vai notar que ele acredita em tudo que você disser e te observa atentamente o tempo todo. Vai chegar o momento em que você vai ter que escolher entre dizer o que efetivamente pensa ou falsear, ou então deixar que ele tire sua própria conclusão da experiência do mundo. Pela atual situação do País, tenho a sensação que muitos pais enxergaram nesse momento uma chance de perpetuarem em seus filhos suas crenças mais rancorosas e atávicas. Assim, os estão condenando a serem como eles, o que considero uma das maiores crueldades.

Ontem um carro matou uma pomba na rua e ela ficou lá, sendo achatada. B a viu morta e foi a primeira coisa morta que viu na vida e estava pedindo para vê-la de novo de vez em quando. Hoje, quando eu chegava da padaria, ventava muito e notei que o vento descolava a asa dela do asfalto e a desfraldava como uma bandeira. Não esbocei nenhuma espécie de beatitude sobre a inevitabilidade da morte ou da completude da vida para enrolar o B, acho que ele tem a capacidade de lidar com aquela cena sozinho, sua alegria é a prova dos nove.

Voltamos juntos para fotografar a asa no asfalto. Foi um jeito de mostrar a ele que as coisas brotam das coisas, e isso é tudo. É preciso entender o tempo dos filhos, que segue uma dinâmica mágica e que é alheia a quase todo pai que conheço. Na maioria das vezes, somos autoindulgentes.

Nana esqueceu de me deixar a chave e acabo lendo hoje, na garagem, por acaso, um conto do Jorge Filholini, no livro que ele me enviou e abri automaticamente depois de ler as epígrafes: Somos mais limpos pela manhã (Selo Demônio Negro). O conto era justamente um exocet, como disse outro dia o Ailton Krenak: uma espécie de Henry Chinaski do Inferno recebe a visita no bar, entre uma cachaça e outra, de uma garota que diz ser sua filha. Ele não lembra do que pode ter acontecido, ela tem uma mochila e vai atrás dele e se instala em sua casa. Ela o incomoda. Muito. Sua memória afetiva está embotada pelo álcool e pela vida infamante. Esqueceu de sua própria humanidade.


Filholini escreve bem pra cacete. O conto me lembrou a história de Jack Kerouac e da filha que renegava. Muitas histórias vieram à tona, como a do filme Lua de Papel, de Peter Bogadnovich, com Ryan e Tatum O’Neal. Fiquei tão impactado que não vou mais abrir esse livro por uma semana, pelo menos.


domingo, 28 de agosto de 2016

PASSOU GELO NO JOELHO E FEZ O GOL DO TÍTULO




Não há equivalente de Edvaldo Santana na música brasileira. Digo isso de um longínquo e ao mesmo tempo privilegiado posto de observação. Ele não é um Elomar porque não é sedentário, não é o sábio de uma montanha; é um andarilho, um artista em movimento. Ele não é um Cartola porque não pertence a uma geografia, a uma agremiação; ele é margem de muitos rios. Ao mesmo tempo, contém todas essas histórias. Ele aproxima pontas que parecem distantes, como Celso Blues Boy e Luiz Melodia e Augusto de Campos e Arnaldo Antunes.

Por conta de tudo isso, seus discos sempre tiveram uma admirável diversidade de pontos de vista e de urdiduras musicais. Mas agora ele fez um álbum conceitual, uma coisa de uma unidade e simetria absolutas. É como se fosse um curriculum vitae em forma de poesia e ourivesaria sonora: Só Vou Chegar Mais Tarde (Distribuição Tratore).

O piano de Daniel Szafran pontua a canção 40 com um toque de boogie woogie sulista, aproxima Edvaldo de Jerry Lee Lewis. Tem até um washboard no som - aquele instrumento de New Orleans originado de uma tábua de lavar roupa, que espalha pequenos batuques pelas reentrâncias da música.
A tuba de Eliezer Tristão é que constroi as lombadas de Só Vou Chegar Mais Tarde, um country tingido de bluegrass que tem uma crueza musical calculada, um refinamento de distraído, tipo Wilco. A voz parece que vem de algum milharal lá no fundo.

Em Predicado, ele fala do alheamento urbano, da solidão das pessoas em suas unidades móveis de internet (“o sonho que não foi conectado”), de novo numa canção piano-driven, dirigida pelo piano, como dizem os críticos americanos. Quando chega ao lalalalalá delicioso do final, a gente se pergunta: como um compositor desse nível não está no palco de um Lollapalooza, no lugar de algum desses bostinhas que estão lá todo ano imitando Tame Impala?

Ando livre é uma surf song ancorada numa guitarrinha havaiana fornecida pelo maestríssimo Luiz Waack, um lorde da música paulistana. O fio da meada da canção conduz o ouvinte como se fosse um road movie, fazendo-o atravessar o País em um ritmo de outro tempo, entre Elvis e Joe Pass, bebendo água de cacimba, tomando banho de riacho. O dueto com a cantora Rita Beneditto parece evocar um diálogo de um encontro marcado pelo destino.

Gelo no Joelho é um samba encoxado por sanfona e trombone que fala sobre a posição crepuscular de um velho jogador de peladas, um craque amador que descobriu como diminuir os trajetos dentro do campo para que o corpo dure mais. “O tempo não para mas o tempo passa gelo no joelho”, diz Edvaldo, autor de alguns dos mais belos hinos sobre o futebol, que ele ama - mais adiante, em Dom, ele volta ao tema com um samba, homenageando o doutor Sócrates (“Num pé pequeno, homem de coração bom”) e acentuando o caráter retrospectivo do trabalho (“Fiz minha parte/Deixo aqui minha alegria”).

Retorno do Cangaço é ultrapolitizada, a canção mais chute nos bagos do lote, mas está a milhas de ser panfletária. “A grana que sumiu tá na casa do pastor”, canta Edvaldo, numa canção de construção sonora mais assimétrica, resultado de todas as vanguardas das quais ele se alimentou, começando pela música dos colegas Arrigo e Itamar.

Já a acústica Sou da Quebrada, emoldurada pela gaita de Bene Chiréia, é a nossa equivalente de This Trains is Bound for Glory, de Woody Guthrie; uma balada biográfica folky sobre uma geografia afetiva de Zona Leste, erguida sobre muito tempo de camaradagem. “Sou da quebrada mas eu sou das antigas/Quem me ensinava tinha uma letra linda”.

Fazendo pra Aprender mostra Edvaldo, orlandosilvanamente crooner, encontrando Tom Waits numa quebrada de São Miguel Paulista.

Arte Depura descobre Edvaldo citando a si mesmo, o primeiro disco (Lobo Solitário, de 1993), e as suas mais antigas influências (no verso de Divino Maravilhoso, de Caetano Veloso, que canta), como se fechasse um ciclo. Sob um lençol musical que usa da percussão de um cajón até banjo e cavaquinho, o filtro de Edvaldo depura os ouvidos.

Em Domínio, a profissão de fé encontra seu manifesto logo no início da música. “Como diz o Tião Carrero, amigo do Pardinho, minha viola ainda paga o aluguel”. Nem tudo que Edvaldo aprendeu veio da estrada (ele desfruta da amizade de concretistas e estetas do portunhol selvagem), mas quase tudo que o fortalece vem do movimento contínuo.

De repente, em Cabeça na Mesa, comparece a influência do blues rock inglês, Led Zeppelin, John Mayall, Eric Clapton, sob um cozido de guitarra, baixo e bateria e uma vozinha de Holy Golightly (trata-se da gigantesca Alzira Espíndola, no disco) se contrapondo à sua saga de Zé do Chapéu do bilhar da esquina (“Eu não sei jogar com rato no meu taco falta giz”).

A décima terceira canção é a versão musicada de Edvaldo para o poema provençal de Guillaume de Poitiers, na tradução de Augusto de Campos. De novo acústica, Edvaldo e Luiz Waack apenas, é o fecho perfeito de um disco autobiográfico minucioso. Edvaldo parece ter escolhido essa por ser um manifesto da fé no homem que se basta, no cavaleiro solitário de poucas e suficientes convicções - nenhuma delas baseada na concessão. Essa é a vida dele.

Tem um poema do Paulo Leminski que diz assim: “Um bom poema leva anos/cinco jogando bola/mais cinco estudando sânscrito/seis carregando pedra/nove namorando a vizinha/sete levando porrada/quatro andando sozinho/três mudando de cidade (...)”

O melhor disco do Edvaldo Santana levou 40 anos. E ele o dá assim a você de mão beijada.


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O BLUESMAN SOZINHO







A voz é rascante, rouca. A guitarra é selvagem, massuda, mistura um tanto de Steve Ray Vaughan com Jeff Beck.
Toca em pé a guitarra, o baixo, a gaita. Com pedais e baquetas presas no braço da guitarra, ele martela pratos e bumbos.
É um novo fenômeno do blues rock e vem de Quebec, no Canadá. Visualmente, parece um dos Allman Brothers.
Na quarta, dia 7 de setembro, às 21 horas, Steve Hill estreia no Brasil tocando no Bourbon Street Music Club (Rua dos Chanés, 127, Moema), em São Paulo.
Conversamos ontem por telefone. Ele me contou como se tornou um homem-banda. Falou quase num fôlego só e eu preservei como um depoimento.


“Eu tocava com uma banda, tinha uma carreira regular, gravava com um grupo. Então, cinco anos atrás, algo aconteceu. Acontece que eu descobri de repente que meu empresário era um cara muito mau, muito picareta. Tinha levado tudo que eu tinha. Meu disco estava sendo um fracasso. Precisava achar um jeito de continuar fazendo música e não conseguia. Eu estava quebrado, ferrado, sem um tostão. Ao mesmo tempo, eu tinha um vício terrível: eu era um maluco colecionador de guitarras. Eu não podia ver uma guitarra que já queria comprar. Eu não sei quantas guitarras eu tenho porque não as conto, mas acho que tenho bem mais de 30 instrumentos. E apareceu uma Gibson 56 ES225 e eu enlouqueci. Só que eu não tinha dinheiro para comprar, então tive a ideia de organizar um show solo de blues. Era para ser uma noite apenas, e eu não tinha banda, então improvisei e toquei tudo sozinho. A plateia adorou, todo mundo vinha me dizer: “Faça de novo!”. Acontece que eu me diverti muito tocando daquele jeito, então resolvi continuar e acabei gravando um disco sozinho, um álbum que se tornou muito popular, Solo Recordings Volume I. Ganhei o prêmio Juno, que é uma espécie de Grammy canadense, e fiz mais de 150 shows sozinho. Depois, gravei Solo Recordings Volumes II e III. Agora, posso dizer que eu me tornei um verdadeiro homem-banda. Há cinco anos, se me dissessem que eu seria um homem-banda, eu diria: “Você é louco?”. Nunca tinha passado pela minha cabeça. Isso é para você ver que a gente nunca deve dizer que não vai fazer algo na vida. O jeito que eu faço meu show one-man-band é que é muito pessoal, não vi nenhum outro que faça do mesmo jeito que eu faço. É muito particular. Quando você ouve rádio, vê que 99% do que é feito hoje tem computador no meio, tem algo feito eletronicamente. Meu negócio é completamente ao vivo. O que eu faço é basicamente blues, blues rock. Tem também folk e country e alguns dizem que é rock’n’roll. Eu sou muito ligado aos primórdios do blues, sou ligado em Robert Johnson. E em Jimi Hendrix. E gosto de Ray Charles, de Buddy Guy, de B.B. King, Muddy Waters. Então, pode-se dizer que minha música é uma mistura disso tudo, com meu próprio condimento. Gosto de Albert King, Freddy King, B.B. King, mas também amo Judas Priest, Black Sabbath. Sou um homem-banda, mas eventualmente, eu ainda toco com um grupo, porque afinal de contas eu sou um guitarrista. Do ponto de vista da política, eu digo sempre: temos que ter paciência. Os americanos estão defronte de um grande problema no momento. Tenho sorte de ser canadense. Há muita confusão. Vi a Olímpiada no Brasil pela TV, um ou outro flash dos Jogos. Percebi que o problema aí é o mesmo de todo lugar: 1% das pessoas têm muito e o resto não tem nada. É uma vergonha. Estou feliz a caminho do Brasil pela primeira vez, espero que seja uma bonita experiência”.


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

OLHAR




Virgine foi casada com um diplomata francês durante anos. Por conta da vida em movimento, de País em País, eles carregavam malas de aço - para que as coisas mais íntimas e os objetos mais queridos permanecessem seguros. Mal dava tempo para reacomodar tudo nas novas casas. Um dia, quando foram morar em Madagascar, Virginie foi abrindo as malas. “Tinha um ventilador de corpo de plástico. Na hora em que eu o apalpei, quebrou inteirinho. Aí abri outra mala e estava lá, intacta, a roupa que usei no primeiro show do grupo A Gota Suspensa. A saia de borracha, os vídeos, as fitas cassete, tudo inteirinho”, ela conta.

Estamos no café Le Pain Quotidien da Wisard. Eu, a cantora Virginie Boutaud e o tecladista Yann Laouenan. Logo chega Dany Roland, o baterista (faltaram o baixista Xavier Leblanc e o guitarrista Alec Haiat). Há 30 anos, eles contam, os ônibus de turnê em que viajavam como o grupo Metrô (a Gota Suspensa era o embrião da banda, em 1978) viviam cercados de fãs, era até difícil a locomoção, uma loucura. Tão louco que eles acabaram com a banda no ano seguinte.

Eles estão relançando, remasterizado, o disco Olhar, de 1985, acrescido de um disco ao vivo (da mesma turnê, de 1985) e faixas bônus. É um dos raros álbuns lançados no Brasil, no último século, em que quase todas as canções se tornaram hits radiofônicos: Johnny Love, Beat Acelerado, Tudo Pode Mudar, Sândalo de Dândi, Olhar, Ti Ti Ti, Cenas Obscenas. Mais impressionante ainda: até hoje, 31 anos depois, essas canções ainda tocam o tempo todo no dial do rádio do carro, basta testar - dificilmente vai passar uma hora sem uma delas.

O relançamento se dará com um show em que todas as canções serão tocadas na ordem em que estão dispostas no disco. Será esta noite, no espaço Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500, Sumaré, ao lado da Estação Sumaré do Metrô). Os ingressos custam R$ 50 (R$ 25 meia). O comeback do grupo Metrô já tem um tempinho, eles tocaram no Palco Arouche da Virada Cultural e foi envolvente, apesar de probleminhas técnicos. Agora, é um tour de force em torno de sua obra-chave.

A história desse disco é cheia de lances cinematográficos. Recentemente, Danny estava no aeroporto esperando voo para o Rio, onde vive, quando foi abordado pelo executivo português Paulo Junqueiro, novo presidente da Sony Music Brasil. Junqueiro, em 1985, chegara ao Brasil para trabalhar na indústria musical e caiu no Estúdio Transamérica. O primeiro trabalho que lhe deram foi acompanhar uma turnê da banda Metrô como técnico de som. Ele gravou toda a turnê do disco Olhar (que passou por Recife, Cruzeiro, Jaú, Tupã, Cornélio Procópio e dezenas de cidades), e manteve as fitas durante 31 anos em uma gaveta em sua casa, em Lisboa.

Junqueiro repatriou as fitas, Luiz Carlos Maluly (o produtor de Olhar, em 1985) as recuperou, e elas são do disco 2 do pacote lançado agora pela Sony (que era CBS na época em que gravaram).
Em 1985 e 1986, saíram alguns dos mais importantes discos do rock brasileiro daquela década, como Selvagem?, dos Paralamas, Cabeça Dinossauro, dos Titãs, e Dois, da Legião Urbana. As bandas mais pop, como o Metrô, Kid Abelha e Sempre Livre, eram frequentemente alvo de chacota e desprezo. 
Havia muito preconceito da crítica - embora todos frequentassem o mesmo circulo, houve até jantar na casa de Fernando Zarif em que odiadores e odiados dividiram a mesma mesa, pacificamente. 
E acabo de descobrir que não foi só repulsa, muita gente gostava - como o Silvio Essinger, que os entrevistou hoje para O Globo. Ele escreveu no Face: "Um grupo me proporcionou duas descobertas na mais tenra idade: a da alegria new wave (com o LP Olhar) e, depois, a da beleza e do inusitado (com o disco A Mão de Mao; quem não ouviu, procure já). Era o Metrô, muito mais do que uma nota de rodapé na história do rock brasileiro, com suas canções, letras e timbres invulgares. Uma honra tê-los entrevistado - espero ter feito alguma Justiça a esses grandes artistas",

O pioneirismo dos sintetizadores de Yann e a voz pequena e bem colocada de Virginie fizeram escola, entretanto, embora eles tenham enveredado por outros rumos  - há muito de Metrô no Pato Fu e no Cansei de Ser Sexy, ela reconhece.

Curioso é que eles não ganharam muito dinheiro com o disco. Havia muito desvio no caminho, os direitos não eram bem-recebidos e também a estrutura de suas turnês era muito cara, com 23 pessoas na equipe, ônibus, caminhão, aparelhagem cara. Sobrou pouca coisa, não se tornaram milionários do rock. Mas há ainda uma legião de fãs - Virginie carrega uma sacola cheia de envelopes de Sedex que vai despachar para os fãs que lhe pedem o disco pelas redes sociais.


O papo com a banda Metrô (e um pouco do disco ao vivo inéidto) eu coloco mais para a frente aqui. Hoje, posto só esse aperitivo para dar um alô para o show.