quarta-feira, 10 de outubro de 2018

ÁGUAS TURBULENTAS












fotos: jotabê medeiros





“Quem mandou ele vir aqui pra falar tanto? Teu negócio é cantar! Canta, porra!”, berrava, na arquibancada inferior, uma espectadora do show Us & Them, de Roger Waters, na noite passada, no Allianz Parque.

A moça não parecia saber exatamente quem era Roger Waters e nem o que fazia no show dele. O pai do cantor e baixista, Eric Fletcher Waters, foi morto pelos nazistas durante um bombardeio em Anzio, Itália, quando ele ainda era um bebê. Para o pai, em 1983, ele compôs The Fletcher Memorial Home, na qual fala de “incuráveis tiranos” e os nomeia um a um: Ronald Reagan, Alexander Haig, Menahem Begin, Ian Paisley, Leonid Brezhnev, Joseph McCarthy , Richard Nixon.

Em 1990, Roger Waters montou o show The Wall (cuja essência é a metáfora do perigo do fanatismo e do fascismo) na base do que fora o Muro de Berlim, explodindo um muro de isopor simbólico como exposição de seu pensamento sobre aquela cortina comunista, a divisão do mundo pelo autoritarismo e pela força. Organizou um boicote internacional de artistas contra Israel, buscando asseverar direitos aos Palestinos e catalisando para si toda a raiva dos partidários do uso da força contra um povo (chegou a tretar com Caetano e Gil por causa disso).  Em meio ao processo eleitoral norte-americano, ele inflou seu porco com a cara de Donald Trump sobre os ares do País, em turnê - e segue fazendo isso, expondo a insânia de Trump, até em português.

Portanto, Roger Waters é a própria imagem do destemor e da liberdade de expressão. Ele faz seu show justamente para dizer às pessoas o que pensa sobre os perigos da opressão, da supressão de direitos, da perseguição a grupos sociais. A meta dele é essa: identificar o fascista, apontar o fascista. O primeiro pensamento que vinha à cabeça de quem presenciava as vaias e os xingamentos que Waters tomava na noite de ontem era esse: será que esse pessoal não errou de show? Sem questionar a legitimidade da vaia, mas o que Waters procura é basicamente isso: causar desconforto naquele tipo de pensamento que não se coaduna com a defesa da irrestrita liberdade, da admissão dos direitos civis, do humanismo.

A vaia começou quando surgiu a tag #EleNão no telão. Antes, Waters já tinha exibido durante pouquíssimo tempo uma lista com o título “NEOFASCISMO ESTÁ EM ASCENSÃO”. Logo abaixo, os nomes dos líderes neofascistas e os países:  Nos Estados Unidos - Trump; Na Hungria - Orban; na França - Le Pen; na Áustria - Kurz; no Reino Unido - Farage; na Polônia - Kaczynski; na Rússia - Putin?; no Brasil - Bolsonaro.

Houve já um apupo, mas Roger Waters cantou Wish You Were Here e saiu, anunciando um intervalo de 20 minutos. Ao voltar, logo após a execução de Dogs, um porco inflável gigante com os dizeres RESPEITEM AS MULHERES, NO WALL e AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA, além de grafites de palestinos atirando pedras e ilustrações simbólicas, percorreu os ares do Allianz Parque, agora fazendo jus ao seu apelido de Allianz Pork. Roger Waters e os integrantes da banda vestiram máscaras de porcos durante Pigs (Three Different Ones) e um garçom também mascarado servia-lhes champanhe. George Orwell reencarnava na Barra Funda. Mas quando a tag #EleNão voltou ao telão, aí começou a treta.

Jair Bolsonaro é considerado fascista por quase todas as publicações importantes do mundo (Le Monde, Libération, Der Spiegel, The Guardian, El País, New York Times) por seus próprios méritos. Já expressou mais de uma vez a sua disposição para o extermínio das diferenças, sua misoginia, homofobia, racismo, a apologia da violência. Ainda assim, parte significativa da plateia discordou veementemente de Roger Waters. Essa parte tem planos de votar no candidato com todo o pacote do que ele representa, e se incomodou com a identificação categórica do perigo nazifascista concentrado em Bolsonaro. Como rebateu isso? Alguns grupos isolados gritavam “Fora PT” em resposta. Outros ofendiam Waters. “Babaca! Filho da puta! Vai se foder!”.  Houve diversos casos de empurrões e agressões verbais de espectadores dessa corrente contra a outra metade da plateia que discordava. 
Enquanto tuitava sobre os acontecimentos em progressão, um jornalista celebrado das redes sociais tomou um tranco de um partidário de Bolsonaro.

Pressentindo o clima tenso, Roger Waters cruzou os braços no peito e tentou pacificar os ânimos. Lembrou que o Brasil está em meio a uma eleição, que iriam dizer que não era da conta dele. Mas não abriu mão um milímetro de suas convicções. "Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder do País não creia que uma ditadura é uma coisa boa. Eu me lembro das ditaduras da América do Sul e foi feio".

Durante pelo menos uns 10 minutos, Roger iniciava uma fala e as vaias recomeçavam. Tentava apresentar a banda e sobrevinham novas vaias. Com larga experiência no comportamento das turbas (Another Brick in the Wall é uma alegoria do comportamento das massas), ele levou a tensão até seu esgotamento e anunciou Mother. Durante a música, ele ia enfatizando versos com uma expressão facial de advertência. “Mãe, será que eu devo concorrer para presidente?”, e fazia um esgar com a boca. “Mamãe vai fazer todos os pesadelos se tornarem realidade”.

Ao sair de cena, após Comfortably Numb, de novo Roger Waters colocou a tag #EleNão no telão. Já refeitos dos confrontos, os antifascistas da plateia ironizavam o público bolsonarista. “Não teria sido melhor terem ido no show do Zezé di Camargo?”, brincava um gaiato. Muitos fãs na pista VIP, que custava R$ 810, usavam camisetas do Pink Floyd (um até tinha uma camiseta número 12 com o nome de Syd Barrett às costas) e mostravam fúria desmesurada em relação ao ídolo, como se alguém tivesse olhado dentro deles, do que carregam de mais íntimo dentro de si. A participação do coral de crianças em Another Brick in the Wall foi inebriante, a alegria dos garotos era tamanha em estar ali que Roger até se emocionou.

Poucos, entretanto, falavam mal do som na saída. Roger Waters fez um dos shows mais orgânicos de suas turnês recentes. Na época em que trouxe ao Brasil o show The Wall, em 2012, ele tocava muito pouco, cantava muito pouco e havia mais eletrônica do que instrumento na execução. Dessa vez ele soltou a banda, deixou que saísse do script, alguns solos foram menos xiitas em relação ao som gravado. O show perdia um pouco o pique quando entravam as canções novas, como Déjà Vu e Last Refugee, mas era irretocável em clássicos como The Great Gig in the Sky, com o habitual tour de force das suas vocalistas ao estilo replicante de Blade Runner. Os efeitos do prisma de luz durante Eclipse tinham até a capacidade de invadir as almas conflagradas de parte da plateia e reorientá-las, fazê-las voltar a acreditar no conceito de liberdade absoluta do artista.

Waters volta logo mais ao Allianz Parque para o último show em São Paulo. A caminho do Uber, jovens fãs amantes da democracia demonstravam preocupação com ele do lado de fora do estádio, mas esse não é o tipo do artista que cultiva a palavra medo. Daqui, ele vai a Brasília, ao Estádio Mané Garrincha, no dia 13; a Salvador, na Arena Fonte Nova, no dia 17; a Belo Horizonte, no Mineirão, no dia 21; ao Rio de Janeiro, no Maracanã, no dia 24; a Curitiba, no Couto Pereira, no dia 27; e a Porto Alegre, no Beira Rio, no dia 30.

sábado, 6 de outubro de 2018

TOMORROW NEVER KNOWS





O engenheiro de som Geoff Emerick, em junho, conversando com admiradores em Porto Alegre durante simpósio de que participou; Emerick morreu essa semana



Quando tinha 19 anos, Geoff Emerick esteve ao lado dos Beatles, como engenheiro de som, em três discos fundamentais da História da música pop: Revolver (1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (1967) e Abbey Road (1969). Mais do que isso: as soluções heterodoxas que propôs para algumas canções, especialmente Tomorrow Never Knows e A day in the life, criaram bases referenciais para muito do que se fez posteriormente.

A função de Emerick era justamente burlar as regras. “Geoff Emerick fazia truques para os Beatles e ficava com medo que alguém descobrisse”, disse George Martin. “Naquela época os engenheiros não podiam ficar brincando com os microfones e loucuras do gênero. Mas ele fazia coisas bem estranhas e que eram ligeiramente contra as regras, com o nosso apoio e aprovação”. Emerick veio ao Brasil em junho, para participar de master classes em Porto Alegre a convite da Audio Porto, empresa de inovação e tecnologia. Ele conversou comigo para a CartaCapital no dia 12 de junho. Emerick morreu no último dia 2, de um ataque cardíaco.

É verdade a história de que o disco Abbey Road quase se chamou Everest por causa dos seus cigarros?
Então, era a marca do cigarro que eu fumava. Foi quando eles decidiram chamar o disco de Everest... Ringo tinha essa visão de que estava no alto do Monte Everest, onde ele nunca estivera. Quando viajava, Ringo levava comida embalada em uma marmita, para não ficar à mercê dos produtos locais. Mas fazer a foto da capa do disco no alto do Everest significava uma longa viagem, nem ele nem ninguém queria ir tão longe. Aí, acabaram escolhendo um lugar mais próximo, Abbey Road, porque a foto seria muito mais fácil de ser realizada. No final, foi uma boa escolha.

Tomorrow never knows estava muito à frente de seu tempo. Muita gente diz que influenciou gêneros como jungle, drum’n’bass, Você concorda?
Concordo. Porque eles queriam mudar o jeito que gravar a voz. Como sabemos, os alto-falantes Leslie eram usados para os vocais;  a guitarra de Harrison, o tamborim de Ringo e o baixo de Paul McCartney eram muito marcantes, e para colocar a voz de um jeito igualmente distinto precisava de uma solução. O alto-falante Leslie permitia mudar a rotação da voz, criar um som de vibrato intermitente. Foi uma revolução na maneira como a música passou a ser gravada.

Você trabalhou com os Beatles, os maiores. Como viu artistas que vieram depois, gente como Amy Winehouse ou Justin Timberlake.
Amy Winehouse foi extremamente talentosa, assim como Justin. Eu amo artistas do mundo real. O que não concordo é com artistas criados pela tecnologia e controlados por ela. Amy é uma grande artista, assim como Justin. São genuínos, claro que são.

Os sons psicodélicos dos Beatles foram criados, grande parte deles, sob o efeito de drogas, como o LSD. O sr. era muito jovem, como se situava nesse mundo?
Nós nunca tivemos que lidar com esse problema. Nós sabíamos que, se fôssemos usar substâncias, teríamos que fazer isso antes ou depois das sessões. Porque, quando entrávamos nas sessões, tínhamos que trabalhar tão duro quanto qualquer outro artista, íamos até 3 horas da manhã trabalhando. Não havia uma restrição, mas todos eram sérios. Certamente, usavam muitas substâncias no processo criativo. Mas nunca no estúdio. George Martin não usava, era de outra geração.

Contam que, para entrar nos estúdios Abbey Road, só na estica, com sapatos muito engraxados e ternos. É verdade?
Sim. Os engenheiros assistentes éramos obrigados. Havia muitas gravações de música clássica nos estúdios, muitos artistas desse universo. Tínhamos que mostrar que nos preocupávamos com a aparência, demonstrar respeito. Os técnicos usavam guarda-pós brancos como os de farmacêuticos. Nada de tecido xadrez.

Quais são as suas quatro canções favoritas dos Beatles?
Tomorrow never knows (do disco Revolver,  de1966), And your bird can sing (Revolver, 1966), Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band, 1967) e, claro, A day in the life (Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band).

domingo, 2 de setembro de 2018

QUEM MATOU O MUSEU?






 A destruição do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro, é uma tragédia anunciada. Sua articulação começou com a interrupção, pelo governo Temer, de diversos programas de apoio à museologia federal nos últimos dois anos. Vários programas tiveram descontinuidade e foram cortados cerca de 60% dos recursos pelo Ministério da Educação (MEC|) e pela UFRJ, a quem cabia a gestão do museu.

Entre os programas cortados, estava o de prevenção de riscos. Como as universidades federais foram algumas das instituições mais penalizadas pela gestão Temer, o desmonte respingou nos museus.

Na área museológica, o maior responsável por essa falta de políticas consistentes pediu demissão na semana passada, marcando a data do dia 30 de setembro para o desligamento definitivo. Marcelo Araújo demitiu-se do cargo de presidente do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), ligado ao Ministério da Cultura, para assumir outra função num museu paulista - especula-se que seu destino seja o Museu de Arte de São Paulo (Masp).

Marcelo Araújo divulgou na semana passada a seguinte mensagem:

“Colegas do IBRAM,
Apresentei hoje ao Ministro da Cultura meu pedido de exoneração do cargo de Presidente do IBRAM a partir de 30 de setembro próximo. Esta decisão foi tomada em virtude de convite para assumir a direção de instituição cultural em São Paulo. Gostaria de agradecer a toda(o)s vocês, calorosamente, pela convivência, parceria e apoio que tive o privilégio de receber ao longo desses últimos dois anos à frente do IBRAM, quando conseguimos, conjuntamente, tantas realizações exitosas. Para mim foi uma experiência, profissional e pessoal, marcante, além de aprendizado profundo. Espero poder continuar contando com a amizade de toda(o)s, e a expectativa de muitas outras ações conjuntas no futuro. Muito obrigado a cada um(a) de vocês ! Viva o IBRAM!”.

Durante a gestão de Araújo, não se conseguiu fazer concurso para fortalecer os museus federais e houve uma diminuição das ações de financiamento, o que acarreta interrupção de investimentos nos serviços básicos. Recentemente, fez uma vaquinha para reabrir a Sala dos Dinossauros (um absurdo, considerando-se que toda sua manutenção custava apenas R$ 520 mil por ano). Ao Ibram cumpria a supervisão do Museu Nacional da Quinta da Boa Vista - por sinal, um dos seminários organizados esse ano pelo Ibram foi sobre o tema do Museu Nacional.

O Museu Nacional da Quinta da Boa Vista é uma instituição fundada por D. João VI e tem mais de 200 anos de história. Possuía mais de 20 milhões de itens. A brincadeira golpista saiu caro - mas tão caro, que nossos netos e bisnetos ainda não terão claro o preço da fatura.

VOADORA NA PLEURA



Com o grande Ednardo, no Cantinho do Frango, em Fortaleza, na sexta







Vou contar como foram as últimas 24 horas da minha vida porque, juro por Deus, nunca tinha acontecido tanta coisa num período de tempo tão curto.

Cheguei ao Ceará às 12h30 e Dalwton Moura, cantor, produtor, compositor, violonista e cronista foi me buscar no aeroporto. Tinha me perguntado o que gostaria de comer na chegada a Fortaleza e especulou sobre duas opções que pareceriam inegociáveis para qualquer turista: peixes e frutos do mar. Mas eu disse, com sinceridade, que sonhava com carne de sol e macaxeira. Ele sentenciou: “Então, só tem um lugar: Cantinho do Frango”.

Apenas quinze minutos no Cantinho do Frango e parecia que eu já era amigo de décadas de Caio Napoleão, o dono do negócio, que me foi apresentado já na entrada. Caio ama a música de um jeito radical, tipo o amor que o Richard Gere tem pela música de Jerry Lee Lewis em Breathless. Entre todas suas paixões, pontifica a que dedica a Rodger Rogério, um dos mais notáveis capitães de areia do Pessoal do Ceará. Possui por ali, nas estantes do local, mais de 3 mil discos de artistas do Ceará. Por causa disso, o restaurante estabeleceu uma hierarquização de pôsteres de artistas lendários em suas paredes seguindo a seguinte ordem: Rodger Rogério, Miles Davis, Jimi Hendrix, Mick Jagger. Rodger Rogério é Deus no Cantinho do Frango. Eric Clapton é semideus.

Apenas outros vinte minutos no Cantinho do Frango e eis que dirige-se à minha mesa um homem de boina magro que caminha de um jeito balnear, como se levitasse sobre água. Era Ednardo, o lendário artista que legou à história da música o disco O Romance do Pavão Mysteriozo, em 1974. Ednardo vinha com a filha, a atriz e cantora Joana Limaverde. Demorou uns minutos para Ednardo me reconhecer e aí eu lhe dei um abraço de fã, de profundo agradecimento por toda lealdade quando eu escrevia Apenas um Rapaz Latino-Americano. Sentou-se do meu lado e pediu vinho tinto, enquanto eu tomava uma sucessão das batidas de cachaça de Caio Napoleão: Alucinação, Mucuripe e a imponderável Voadora na Pleura (vodca, tangerina, abacaxi e melaço de cana).

Seguimos ali falando de canções, da suavidade de Rodger Rogério, da misteriosa saga de Belchior, dos parceiros todos dessa turma. Ednardo foi ficando e só saiu dali porque tinha um encontro com o governador e não podia mesmo ficar mais. Foi então que sentou-se à nossa mesa outra figura magnífica: Yuri Kalil, produtor de uns 60% da nova cena da música brasileira que pontificou a partir de 2001, 2002: Marcelo Jeneci, Céu, Thiago Pethit, Otto. Kalil morou durante muitos anos em São Paulo, quando montou aqui o Totem Estúdio. Também é o baterista da banda Cidadão Instigado.

De volta a Fortaleza, Kalil instalou-se num prédio histórico no centro da cidade, o Edifício Dona Bela, da década de 1950, o primeiro condomínio residencial de Fortaleza. Ali segue produzindo a nata da música, naquele ambiente meio Bleecker Street. No andar de baixo do seu estúdio, vive o músico Fernando Catatau, que toca com Kalil no Cidadão Instigado e co-produziu, entre outros, o lindo disco Afastamento, de Juliano Gauche. Na esquina da casa de Kalil fica um lugar do qual escapam luzes hipnóticas. É o Salão das Ilusões, na Rua Coronel Ferraz, 80. Ali é um ponto luminoso de performances, debates, exibições de vídeos de dança, intervenções e improvisações artísticas.

Caio, que tinha abandonado o restaurante para nos seguir Fortaleza adentro, levou dois engradados de Heineken do Cantinho do Frango e nós entramos no estúdio para ouvir discos e tomar cerveja, não necessariamente nessa ordem. Ouvimos inteirinho o álbum Praia Futuro, um disco de supergrupo que reuniu em 2017, além de Kalil, o saxofonista e compositor sueco turco Ilhan Ersahin; Dengue, da Nação Zumbi; e Fernando Catatau e Kalil, do Cidadão Instigado. Ilhan Ersahin é fundador do Nublu, o clube e gravadora independente de Nova York (e, posteriormente, festival de jazz que alcançou já o Brasil há um tempo).

Ganhei o vinil de Praia Futuro, que é lindo e quase ninguém conhece. Ali mesmo no estúdio Totem, em Fortaleza, cuja antesala é o estúdio de dança de Lenna Beauty (mulher de Kalil) e as sombras das bailarinas ficam recortadas na janela enquanto o Kalil grava, o quarteto Praia Futuro trabalhou em imersão durante dois dias, fazendo uma jam memorável com temas improváveis como Roberto Carlos.

Aí então apareceu Gabriel  Aragão, vocalista do grupo Selvagens à Procura de Lei, uma banda de garotos de Fortaleza que ganhou o Brasil nos últimos tempos, fazendo shows para até 10 mil pessoas. Tocou em março no Lollapalooza, em São Paulo, e também tocou em Moscou durante a Copa do Mundo. Ele veio colocar a voz numa faixa e depois dividiu uma cerveja com a gente.

Estava caindo a noite, chegava a hora de ir para o Theatro José de Alencar, para o show Futuro & Memória, aglutinação de intérpretes raros da música cearense para o batismo de uma série de canções da dupla Rogério Franco e Dalwton Moura, meu anfitrião na jornada. Eudes Fraga, Kátia Freitas, Rodger e Téti: quanto talento cabe numa única parabólica do mundo?

Mas, antes ainda do Theatro José de Alencar, Caio e Kalil me convidaram para sair caminhando pelo centro para conhecer o Lions, um bar que tem feito história na Praça dos Leões, com suas festas e o cenário de quase memória. Lembra muito o Chico Discos de São Luís, mas é menos cifrado que o maranhense, mais aberto. Ali, encontramos e dividimos cerveja com uma dezena de militantes que vinham do comício de Fernando Haddad na cidade, e debatemos suavemente política e reconquista democrática.
No Theatro José de Alencar, encontrei  Gildomar Marinho e a poeta Shirlene Holanda, que me ciceronearam pelas canções da noite. Em pleno show, a filha criança de Calé Alencar subiu ao palco enquanto ele cantava, pegou o seu triângulo e ajudou na percussão.

Eu ainda diria mais, mas a Voadora na Pleura tinha me derrubado de tal modo que quando finalmente dei entrada no Hotel Americas, logo após o show, eu desabei (mal tive tempo de dizer para o Careca no whatsapp que eu tinha tomado uma com o Ednardo).

Acordei no dia seguinte e fui ao Mercado Central para comprar alpercatas. Ali onde nada pareceria me ser apresentado de renovador eu ainda tomei conhecimento de um artista excepcional: Diógenes Alencar, que molda caricaturas de artistas no barro, como Zé Ramalho e Chico Anysio.

Ali no mercado eu me perdi do meu celular, mas antes disso combinei com Dalwton de ele me levar para Pax Lachaise, como eu tava chamando o cemitério Parque da Paz, para fazer um brinde a Antonio Carlos Belchior em frente a sua lápide. Esqueci só do vinho, então fizemos um brinde com suco de uva e copo de plástico e cantamos Todo Sujo de Batom no túmulo do Bigode. Dalwton fez uma foto minha colocando uma rosa na lápide, mas por algum motivo a foto não saiu e nós brincamos: “Mais uma do Bel!”.

De volta ao Cantinho do Frango, em busca de uma despedida suave da Voadora na Pleura, encontro já na beira da churrasqueira os garçons e DJs Marquinhos e Barry White, sempre com uma façanha nova para contar. De repente, dou de cara com Jorge Mello, notável frontman da música cearense, que faria show à noite no restaurante. Morremos de rir dos apelidos infames da MPB que descobrimos ali com o pessoal  (Nasceu Valença e Morrerás Moreira, entre outros menos citáveis).

Conosco estava o guitarrista, compositor, arranjador e diretor musical Mimi Rocha, que tocou com Belchior, Ednardo e outros e é fiel escudeiro de Fagner. Mimi Rocha contou grandes histórias sobre Terry Winter, Michael Sullivan, Ralf Richardson e outros brasileiros que gravaram em inglês nos anos 1970. Mimi estava deixando a barba crescer apenas para poder ser navalhado no domingo durante a inauguração da barbearia que Caio Napoleão inaugurou no coração do seu restaurante, com aquelas cadeiras vintage de barbeiro.

Súbito, mais duas surpresas: sentam-se nas cadeiras da barbearia, espécie de lounge do restaurante, o compositor, cantor e arquiteto Fausto Nilo e o colega Zé Renato (do não menos mitológico grupo Boca Livre, em turnê pela cidade). Dou um abraço no Fausto, um desses prodígios brasileiros que mais alegraram o espírito nacional. Ele compôs, por exemplo, Bloco do Prazer e Meninas do Brasil, com Moraes Moreira; compôs Zanzibar, com Armandinho; compôs Tudo com você, com Lulu Santos; Paroara, com Chico Buarque e Fagner; Amor nas estrelas, com Roberto de Carvalho.
“Teve um momento, nos anos 1970, que você ligava o dial do rádio e em quase todas as estações encontrava uma música do Fausto Nilo tocando”, disse Mimi Rocha.

Teve mais gente nessa levada. O rapper paulista Dexter baixou na casa para um frango assado e veio nos abraçar. Fiquei conhecendo as histórias fabulosas do mito Chico Pio, músico e compositor talentoso da segunda leva do Pessoal do Ceará que, quem sabe, talvez tenha sido subestimado pela História.

O poeta Ricardo Kelmer ainda apareceu para me contar que está organizando o GEBEL (Grupo de Estudos de Belchior) para debater as canções e o legado do bardo do bigode. Gente de Sobral, gente de Quixeramobim, da Vila Madalena, de Pinheiros, do Leblon: o País vibrava ali naquelas 24 horas de Fortaleza. 

Talvez eu esteja enganado, mas ainda não conheci um restaurante com tanta alma quando o Cantinho do Frango de Fortaleza.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

TINHA AS CHAVES DO PARAÍSO NA GARGANTA







Ela tinha cantado para reis e presidentes. Fez duetos com Freddie Mercury, Luciano Pavarotti e Ray Charles. Cantou no funeral de Martin Luther King. Ela inspirou cantoras de diversas gerações, de Gladys Knight, Martha Reeves, Sharon Jones e Patti LaBelle nos anos 1960 e 1970;  Whitney Houston e Mariah Carey nos anos 80s e 90; a Tia Carroll, Jill Scott, Joss Stone e Rihanna no século 21. Foi cruel com Dionne Warwick e com outras que a veneravam, sabia ser arrogante e má.

Daí, quando a vi entrar no palco pela primeira vez na minha vida, com um vestido vermelho de dimensões continentais, no palco do Madison Square Garden, em Nova York, na noite do dia 30 de outubro de 2009, parecia que não era uma pessoa que eu via, mas um espírito de cinema, uma aparição holográfica de Ghost. Não tinha fé o suficiente para enxergá-la, mas ainda assim a via como se estivesse envolta numa névoa vermelha.

Naquela noite, ela cantou Make Them Hear You, Don’t Play that Song, Baby I Love you, New York New York e Respect. Aquele set seria toda a participação dela na festa do Hall of Fame do Rock’n’Roll, frente a 20 mil pessoas.  O taxista australiano que me levou para o hotel após o show quase chorou quando eu disse que tinha ouvido Aretha cantar.

Toda minha vida como jornalista de música eu tinha ouvido as alegações dos empresários do showbiz sobre os motivos de ela nunca ter vindo ao Brasil. “Aretha não considera as poltronas dos aviões capazes de acomodá-la”, disse um. “Aretha assina o contrato, mas depois não vem, cancela. É arriscado demais”, explicou outro.

Depois daquela versão de New York, New York, nunca mais consegui ouvir Sinatra da mesma forma. Porque Aretha tingia as canções de uma sacralidade diferente, tinha de fato as chaves do Paraíso em sua garganta. A raiz das tradições gospel nunca deixou de ser a marca registrada de suas interpretações, e isso vinha lá do pai pastor Batista em Detroit, de certa forma seu primeiro agente e produtor artístico. Os sermões do pai dela foram lançados em disco pela Chess Records e sua casa era frequentada por gente como Nat King Cole, Art Tatum, Dinah Washington e outros.

Criança prodígio que se tornaria mãe ainda adolescente, ela já surgiu sendo apontada como sucessora de Mahalia Jackson e Clara Ward. Foi muito além: pode ser considerada uma descendente direta da saga agoniada e ao mesmo tempo emancipatória de Billie Holiday, Dinah Washington e Bessie Smith.  Quando escreveu sua autobiografia, Aretha: From these Roots (com David Ritz), que não é de jeito algum confiável, não foi surpresa quando Aretha deixou ali seu manifesto:  "I’m Aretha, upbeat, straight-ahead, and not to be worn out by men and left singing the blues". ("Sou Aretha, otimista, direta, e não para ser esvaziada por homens e largada cantando o blues". Provavelmente só Nina Simone encarnou com tanta propriedade o orgulho da condição feminina. “Ela sabe mais do que nós sobre tantos e tantos aspectos da experiência humana”, disse de Aretha o New York Times em artigo famoso de 1973.

Sempre que ouço as diatribes sobre o estrelismo de Aretha, parece que calha de vir à memória uma história que a Sharon Jones me contou de quando começaram a fechar as portas das gravadoras para ela, nos anos 1970, o que a levou a trabalhar como carcereira durante anos. Os executivos diziam: "Muito baixinha, muito preta, muito feia".

Foi o pai de Aretha quem a encaminhou para uma seara diferente, para a assimetria do pop e do jazz. Ele seguiu o atalho bem-sucedido de Sam Cooke para o pop e impediu que a filha seguisse o caminho da Motown, como era o caminho de sua época, para buscar um contrato com uma conpanhia internacional. Aos 18 anos, assinou contrato com a Columbia Records. Seis anos mais tarde, sem hits ainda, mudou-se para a Atlantic Records, bunker que impulsionaria de fato sua fama mundial, especialmente após ela ter gravado Respect. A canção, de 1967, originalmente gravada por Otis Redding, materializava um sentimento de liberdade que ressoava livremente naquele momento-chave da luta pelos direitos civis. Virou um passe livre de transversalidade na voz de Aretha, um manto de proteção da afroamericanidade, do empoderamento feminino. “Sua rendição de Respect lançou uma revolução”, disse Otis Redding sobre sua gravação.

Quase 50 discos gravados, 150 singles, incontáveis performances em megaeventos esportivos e políticos. Há coisas formidáveis na sua discografia e outras nem tanto. Mas é possível pinçar de cara, para uma introdução definitiva, o mais influente de seus discos:  I Never Loved a Man (the Way I Love You), seu 10º disco de estúdio, gravado há 51 anos em apenas duas horas com três músicos brancos (grande ponto de controvérsia na história da gravação, de tensão racial) nos lendários estúdios Muscle Shoals (onde Wilson Pickett tinha gravado), e que se tornou um marco divisor na história do rythmn’n’blues.

O produtor desse álbum, Jerry Wexler, escreveu que a angústia cercava Aretha Franklin da mesma forma que a glória de sua aura musical. “Seus olhos são incríveis, olhos luminosos encobrindo uma dor inexplicável. Suas depressões podem ser tão profundas quanto o mar negro”.

Sam Cooke, Ahmet Ertegun, Luther Vandross, Smokey Robinson, Marvin Gaye: a vida pessoal de Aretha Louise Franklin cruza com quase todas as terminações nervosas da música de nosso tempo. Um câncer no pâncreas a levou hoje, aos 76 anos, e eu vi no Twitter do Brian Wilson que ele escreveu: "Ela foi uma das maiores e mais emocionais cantoras. Eu costumava ouvi-la nos anos 1960, mas sua música é atemporal". 

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

O POVO NO TEATRO



fotografia: sergio silva

Às 23h30 do dia 18 de julho de 1968, na sala O Galpão, do Teatro Ruth Escobar, em São Paulo, assim que terminou a apresentação da peça Roda Viva, os atores foram surpreendidos por um ataque brutal e covarde. Integrantes do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) começaram a bater nos atores e na equipe do espetáculo.  Cerca de 90 homens, armados com cassetetes, facas, bombas de gás, dois revólveres e socos-ingleses, agiram dentro do teatro, e 20 ficaram fora. Espancaram as atrizes Marilia Pera, Jura Otero, Eudoxia Acuña, Margot Bird (Walkiria Mamberti estava grávida e berrava isso aos agressores), tiraram suas roupas, tocaram seus corpos, morderam-nas.

A peça, de Chico Buarque de Hollanda, tinha direção de Zé Celso Martinez Corrêa.

Na segunda-feira à noite, 50 anos depois daquele dia, Zé Celso e Chico Buarque voltaram a se encontrar num teatro em São Paulo, em uma nova circunstância de afirmação libertária. Chico não veio pessoalmente, mas seu texto estava de novo presente. Zé Celso compareceu de corpo e alma, vestido com um poncho do México: dançou, cantou uma canção moçambicana e insuflou os presentes a fazerem a rebelião da alegria, a tomar o poder pelo humor, pela consciência da Justiça, a abandonarem a sisudez da militância tradicional.

Foi no Teatro Oficina, abrigo das liberdades democráticas, como discursou Eduardo Suplicy durante o sarau. Sim, um imenso sarau de poetas, em prol da liberdade do presidente Lula.

Estava totalmente lotado; eu, desde a reunião de poetas para levantar fundos para o tratamento de Roberto Piva, nunca mais tinha presenciado algo do tipo. Não havia, apesar das presenças de Suplicy, Adriano Diogo e outros políticos, uma conformação partidária no encontro (não que haja algo errado nisso, não vivemos tempos de clandestinidade partidária - ao menos ainda). Mas expressava-se ali uma rara unanimidade política: a consciência de que se vive um momento de arbítrio; que se criou no País, além de um bloco de retrocessos políticos e comportamentais, um ambiente de censura, de restrição às liberdades individuais, de ataques subterrâneos à democracia travestidos de legalidade jurídica.

Me chamou a atenção, além dos textos de qualidade excepcional que foram lidos por seus próprios autores (apenas Carlos Rennó deixou que um vídeo de seu texto, gravado como música por Paulinho Moska, rolasse no telão), a amplidão etária dos presentes. Zé Celso e Sérgio Mamberti, octogenários de entusiasmo adolescente, juntavam-se à vulcânica verve da poeta e rapper Roberta Estrela D'Alva. O humor debochado de Manoel Herzog e a lírica contraída de Chico César e a presença sólida de Paulo Lins. 

Mas confesso que pirei mesmo foi no poeta Carlos Moreira, de Roraima. Magnético, com seu chapéu de Crocodilo Dundee, a segurança irônica de sua figura, o sotaque de alguém que vive num mundo que se integra ao nosso mas não o alcançaremos nunca totalmente e a profundidade de sua leitura do linchamento moral, da interdição existencial. Seu poema Sete Lições para Estripar um Homem nasceu clássico. Tomo aqui a liberdade de reproduzi-lo, espero que o Moreira não se importe.




primeira lição para estripar um homem:

estripa-se o seu nome em praça suja
sua língua na lama sua sombra na sombra
em cada passo um golpe de medo
e no segredo que nunca houve
as larvas de milhões de segredos
segunda lição para estripar um homem:


para saber sua altura usar a régua do porco
a régua do rato a métrica do nojo
a balança do fogo: cada quilo valerá
menos que o outro e cada centímetro
um corpo a menos: a menos que o corpo
se jogue da ponte ou do porto 
e poupe o inútil trabalho da vila 
de matar um homem morto


terceira lição para estripar um homem:

não se estripa um homem só:
estripam-se os avós e netos
amigos silêncios e objetos
que cercam o homem a ser estripado
e tudo deverá caber no mesmo saco
um mundo inteiro reduzido
ao suposto fato de que tudo
retornará ao nada de que foi originado

quarta lição para estripar um homem:

estripa-se a palavra do homem
o dito o não dito o interdito
naquilo que sendo fala também cala
o que o torna homem: sua palavra
de homem que agora estripada
vale nada ou menos o que a pele
diria à faca: bem-vinda, senhora
sinta-se em casa

quinta lição para estripar um homem:

após estripado lança-se tudo
no fosso do fundo do calabouço
entre outros tantos estripados
carcaças de sonhos pedaços de loucos
para que até o fim dos tempos
de nenhum corredor possa brotar
o vivo reflexo de seus olhos

sexta lição para estripar um homem:

a vila inteira deverá lavar a praça
as ruas as casas as igrejas as estradas
e a própria vila deverá mergulhar
e manchar o rio com o vermelho
que escorrer de suas roupas pálidas
e queimá-las numa fogueira imensa
e caminharem nus e em silêncio
cada um em direção à cova de sua casa

última lição para estripar um homem:

verificar com exato cuidado
se a baleia não quer vomitá-lo
se não possui uma flauta de pedra
ou uma antiga lira afiada
que faça arrepiar a terra:
neste caso foi inútil estripá-lo:
multiplicado milpartido libertado
ele rompe a corrente do tempo
e atinge maior o outro lado:
inútil o sono da vila enquanto

canta o estripado