sexta-feira, 14 de junho de 2019

NINGUÉM NASCE NA SÍRIA POR ACASO





André Midani (Damasco, Síria, 1932-Rio de Janeiro, Brasil, 2019)


"Eu levantava muito cedo para ir ao colégio, acordado pelo barulho lúgubre dos fuzilamentos dos membros da Resistência francesa, diariamente executados. Era como um sombrio despertador explodindo no meio do silêncio e das brumas da madrugada. As execuções tinham lugar no fosso gigantesco que, antigamente cheio de água, circundava o forte (de Monte Valerien, parte de uma rede de fortificações que circundava Paris dos séculos 16 e 17).
Em um fim de semana, na parte da tarde, tive a curiosidade de ir até lá, para ver o que havia no fosso. Nada havia para se ver, salvo alguns cavalos e burros pastando na maior paz do mundo, e soldados alemães tomando banho de sol, esperando chegar a madrugada seguinte e suas novas execuções".



PS: O título é da Nana, disse isso quando eu lhe disse que ele tinha nascido na Síria por acaso

sexta-feira, 7 de junho de 2019

SERGUEI





A última vez que eu vi Serguei no palco.
Foi no Rock in Rio de 2013.


PÚBLICO CARREGA VETERANO SERGUEI NOS BRAÇOS NO ROCK IN RIO
 
     Enquanto Frejat dominava o palco principal, a 700 metros dali o baixista Rodrigo Santos, ex-colega de Barão Vermelho, conduzia um “Barão Vermelho B” no palquinho Rock Street, lugar que presenciaria cenas fortes de tietagem explícita. Tudo começou quando Rodrigo Santos anunciou que chamaria um convidado para cantar consigo a última música.
    Quando Serguei entrou cantando Satisfaction, dos Rolling Stones, o palco quase foi abaixo. O público tentou abraçar Serguei, muita gente subiu no palco, os fotógrafos ensandeceram, os seguranças não davam conta. As calças de Serguei caíram, teve de entrar um produtor para erguê-las em plena função, enquanto ele cantava.
     “O cara mais rock’n’roll que eu conheço está aqui com a gente”, disse o baixista, que ao final do show distribuía seus discos para os espectadores. Uma repórter da Globo subiu ao palco com a equipe para entrevistar o músico quando ele confraternizava com os fãs, e teve de ouvir um brado ("Hey, Rede Globo, vai tomar no c..."). Serguei está para completar “80 anos de puro rock’n’roll”, continuava festejando o baixista. O cantor faz aniversário no dia 8 de novembro.
 
     Serguei (nome artístico de Sérgio Augusto Bustamante) ficou conhecido por sua devoção a uma noção clássica de rock e também por ter namorado, em 1969, a cantora Janis Joplin. Ele chegou a cantar em duas edições do Rock in Rio (1991 e 2001).

domingo, 5 de maio de 2019

AVE SANGRIA






O cosmopolitismo da banda pernambucana Ave Sangria no Nordeste dos anos 1970 desmente todas as teses sobre a evolução do som regional que desenvolvemos nos últimos anos.

Na Choperia do Sesc, ontem à noite, eu ficava ouvindo o som hipnótico daquelas guitarras (Paulo Rafael e Almir de Oliveira), do baixo e das vocalizações do grupo e dizia a mim mesmo que nada poderia ser mais equivocado do que o Nordeste sonoro que eu tinha imaginado para aquela década dos 70. Eu sempre imaginei um universo sonoro de celebrações coletivas (o frevo, o maracatu) e as derivações híbridas que juntavam asteróides do sertão com Beatles (Os Quatro Batutas de Zé Ramalho), Stones e Hendrix.

Mesmo o disco Paêbirú, de Zé Ramalho e Lula Côrtes, que é visionário, é fruto de uma cópula entre cogumelo alucinógeno e progressões infinitas e circulares de martelos agalopados.

Mas, no sábado à noite, estava ali à minha frente, sob a pele de um Ave Sangria redivivo (fazendo a primeira turnê de um novo disco após 45 anos), um produto da fissão nuclear entre John Bonham e o Cego Aderaldo, Tony Iommi e Jackson do Pandeiro, Keith Relf e Patativa do Assaré. Caiam por terra ali, frente aos meus ouvidos incrédulos, todas as minhas profecias de paróquia, todos os diagnósticos da assimilação acidental.
"Isso é rock nordestino.Aliás, eu queria dizer que está aí entre vocês um amigo nosso: Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado.A gente queria dedicar essa música a ele", disse o vocalista Marco Polo, antes de espalhar ferro sobre o mangue.

Os versos do Ave Sangria que se separam da massa sonora de guitarras e estrondosa bateria (de Júnior do Jarro, novo na trupe) parecem reerguer uma encíclica antiga, uma declaração de princípios esquecida: "Só resta eu com a minha faca", canta Marco Polo. É uma lírica que tem um tanto de Rimbaud e outro de Zé Limeira.

O poeta suicidou-se de repente
Deu um teco na ideia e silenciosamente
    Nos abandonou
(O Poeta)

E era evidente que os veteranos do Ave Sangria tinham sido mais do que alfabetizados políticos: "Tem que despertar o senso crítico. Sem sociologia e sem filosofia não tem senso crítico. Por favor, né?", disse Marco Polo na Choperia.

O único "hit" do Ave Sangria, se é que se pode dizer isso, é o samba psicodélico Seu Waldir, um verdadeiro colar de alho para os homofóbicos, que pode ter levado inclusive a censura a tolher o desenvolvimento do grupo no passado. Um estudioso e amigo, Rafael Pinto Donadio, fez um estudo do udigrudi nordestino e biografou a banda, que foi Tamarineira Village antes de ser Ave Sangria (e mudou de nome para não ter que ficar explicando a origem daquele). Tamarineira Village foi homenageada por Zé Ramalho no disco Opus Visionário.

"Nada de novo no front. E na retaguarda também", diz a música Por quê?, que lembra terrivelmente Belle de Jour, de Alceu Valença, banda para onde foram tocar Paulo Rafael e Almir, após o final precoce do Ave Sangria. Não é apenas dali que se vê o futuro a partir do passado do Ave Sangria: o mangue beat teve boa cama, todo mundo bebeu fartamente dessa fonte. O mais bacana é que agora eles também podem beber do próprio destilado psicodélico que criaram, resgatados pela própria grandeza.







terça-feira, 5 de março de 2019

COCORICÓ

 A cantora cearense Nayra Costa


Jorge Helder, aos 56 anos, já tocou com Caetano, Gil, Chico, Bethânia, Ney, Cassia Eller, Zelia Duncan e toda a constelação da MPB. Mas é interessante: mesmo com tal prontuário, Jorge não exauriu sua curiosidade acerca dos novos intérpretes e das novidades frescas da música. Parece um garoto no meio dos garotos, insuflando uma divertida irresponsabilidade em si mesmo. 

 Durante esse Carnaval, Jorge, que é cearense expatriado, praticamente carioca, foi astro da segunda edição do festival Cocoricó Jazz, no restaurante Cantinho do Frango, em Fortaleza. Helder se apresentou com seu quinteto esgrimindo o refinado  repertorio de Toninho Horta - acompanhado de Marcio Resende (sax), Hermano Faltz (guitarra), Tito Freitas (teclado) e David Krebs (bateria), tocou Viver de Amor, Essas Coisas Todas, Waiting for Angela, Pecém, Mountain Flight, Diana, Beijo Partido e Manoel, o Audaz. Mas Jorge Helder também fez o solidário papel de satélite de um combo apetitoso de novas (e insolentes) caras da música. 

Uma dessas criaturas deu o ar de sua graça no Cocoricó. Cearense de 34 anos, a cantora Nayra é provavelmente uma das mais impressionantes cantoras da nova safra em atividade. E põe atividade nisso: na mesma noite em que encarou o repertório do jazz e do blues, após cantar por quase duas horas, sob pedidos insistentes de bis, Nayra se desculpou por não poder atender, já que cantaria em outras duas casas na mesma noite.  

 O que a torna extraordinária? Poderia ser a potência vocal, mas certamente isso sozinho não credencia cantora alguma ao Olimpo. Sacrílega, selecionou um lote de canções do repertório de Etta James e Nina Simone para seu set. Entre elas, I'd Rather go Blind, I wish i knew how it would to be free, Summertime, Ain't Got No, I Got Life, Feeling Good, entre outros clássicos. Como essa menina se atreve?, perguntaria um desavisado da plateia.

 "Eu toquei com Cassia Eller", diz Jorge Helder. "Ela (Nayra) é da mesma categoria". Jorge sabe que pode soar herético, mas diz a frase sem qualquer empostação, maior naturalidade. Quem também concorda que Nayra pertence ao grupo dos ETs é o impressionante saxofonista Márcio Resende (que foi aluno de Joe Lovano em Nova York durante 6 anos).

Nota-se que, a partir do momento em que Nayra solta a voz, ela não mais se preocupa em se poupar, em momento algum do show se percebe que ela esteja se guardando para explodir mais adiante (algo bem legítimo, por sinal). Canta sempre no centro do ciclone, como se fosse a última vez. A maquiagem que cobre totalmente suas pálpebras,  como uma máscara de melindrosa de J.Carlos, realça seu estilo blasé, de distraído desinteresse. Parece que Nayra é a ponta de um iceberg de uma geração de novos intérpretes colossais no Ceará. O outro monstrinho dessa safra é Oscar Arruda e a sua Bird on the Wire Band. Ele canta Leonard Cohen, simplesmente. Fez da canção The Partisan um manifesto da nova rebelião. Pedi um vinil, ele não conseguiu trazer porque está enrolado com seu doutorado. Daqui a pouco falo mais dele.

          

domingo, 10 de fevereiro de 2019

ZÉ RAMALHO DA PARAÍBA, QUASE 70





O rosto de Zé Ramalho é como se tivesse lava escorrida de um vulcão antigo, é cheio de sulcos e formações rochosas indiferentes, tipo as colinas de Lanzarote. Ele ri pouco, e mesmo quando ri é uma risada que parece de alguma forma dolorosa, incubada. E ele sempre termina suas canções com um lamento, um uivo de novena. Ele faz isso mesmo com as canções dos outros. Muito frequentemente, ele capricha em um “Ê, boi!” enxertado nas músicas, a convocação pelo boi bumbá.

O Tom Brasil estava lotado para o show, cerca de 4 mil pessoas. Sábado em São Paulo, estacionamento de 40 a 50 reais: não é moleza não. Há pouquíssimos artistas no nosso star system capazes de tal proeza, tirando tanta gente de casa para ver e ouvir em carne e osso, e Zé Ramalho da Paraíba é um deles (após mais de 40 anos de carreira).

Zé Ramalho abriu com O que é, o que é?, samba de Gonzaguinha, canção de 1982, do sonho da redemocratização, de pensar o que vem depois do idealismo. “Mas e a vida? Ela é maravilha ou é sofrimento? Ela é alegria ou lamento? O que é? O que é, meu irmão?”. Zé Ramalho transforma o êxtase e a celebração de Gonzaguinha em missa, com sua versão pontuada e folk, que é radicalizada na canção que vem a seguir, Tá Tudo Mudando (Things Have Changed), versão do single do ano 2000 de Bob Dylan, agora frita à milanesa com mandacaru.

Na plateia, preponderam, como eu mesmo, os “sabiás velhos” - coroas de pernas finas e orelhas em desabalado crescimento que eram meninos em 1978, quando Zé Ramalho lançou Avôhai. Mas é curioso notar que, quando toca canções como Chão de Giz e Admirável Gado Novo, quem tem mais domínio da voz e do coro é o grupo dos mais jovens, os que descobriram Zé Ramalho pelo Spotify.

Irônico tentar apreender o que significa hoje, do ponto de vista comportamental, a longevidade das canções de Zé Ramalho. “Em meu cérebro coágulos de sol. Amanita matutina e que transparente cortina ao meu redor”, canta ele, em Avôhai. Amanita é um cogumelo que serve de base para uma bebida alucinógena. Matutina é por causa do uso cotidiano que, na definição do antigo visionário Zé Ramalho, causa um efeito de placidez. O famoso chá de cogumelo. Cuja menção poderia fazer a ministra Damares reencarnar na Perpétua de Joana Fomm em pleno 2019.

“E isso explica porque o sexo é um assunto popular”, diz ele, em Chão de Giz. É popular mas, por via das dúvidas, o deputado neófito de cabeça de pera apresentou um projeto que previa a proibição do comércio de anticoncepcionais. Repentinamente, o País das brigadas moralistas de ocasião não tem como defender o seu próprio paganismo existencial - o que inclui até Zé Ramalho, neoconservador de reunião de condomínio no Leblon (ou será que sempre terá sido? me endereça um amigo essa pergunta irrespondível).

Admirável Gado Novo é uma protest song cáustica e sem rodeios. Não tem ambiguidade interpretativa, é da mesma cepa de Polícia, dos Titãs, ou Que País é Esse?, do Legião Urbana. Tivesse sido composta hoje por uma banda de garotos, era capaz de o general Heleno mandar o Exército monitorar os pivetes subversivos que, muito provavelmente, estariam falando mal da messiânica reforma da previdência. “É duro tanto ter que caminhar/E dar muito mais do que receber”.

Não há mais sanfona no show de Zé, apenas teclado, sintetizador e, eventualmente, uma flauta.As vozes femininas dos vocais de apoio fazem falta, foi num ambiente gospel que a canção de Zé Ramalho se desenvolveu. Zé Gomes faz da zabumba ao pandeiro. Ao longo de duas horas, Zé só se relaciona mais com Chico Guedes, há 35 anos o baixista da banda Z, que o acompanha. Há um grau de profissionalismo ligeiramente incômodo, que beira o mecanicismo de baile, como se o grupo não conseguisse tirar grande satisfação da incumbência.

Em dado momento, Zé Ramalho empunha duas canções de Raul Seixas: Gita e Medo da Chuva, uma enganchada na outra. É outro momento adorável do show. Zé Ramalho não fala muito, não explica muito bem o que fazem aquelas canções ali e o que têm a ver com seu repertório e vida pessoal. Em 2001, ele gravou um disco só com canções do Maluco Beleza, Zé Ramalho Canta Raul Seixas. Em 1984, ele e Raul tinham se tornado grandes amigos e dividiram segredos do misticismo, e não é de modo algum um tributo do nada.

Zé Ramalho é barroco, Raul Seixas é popular e universal. Não viajariam no mesmo disco voador para o espaço sideral, mas é perfeitamente possível compreender o esforço de Zé.

Ao longo de duas horas, quase sem pausas, Zé Ramalho faz do apocalipse uma harpa no penhasco, reencenando os versos dantescos de A Terceira Lâmina e Eternas Ondas como se Brumadinho não estivesse ainda audível, a poucos quilômetros daqui. Zé Ramalho adverte, mas ninguém escuta.
Ele toca ainda Beira-Mar, Frevo Mulher, Garoto de Aluguel, Entre a Serpente a Estrela, Admirável Gado Novo, Táxi Lunar. Todas exatamente como a gente ouve no disco, sacralizadas na voz desse anti-Dylan de camisão de Mago Merlin. Zé Ramalho completará 70 anos no próximo dia 3 de outubro, a voz está tão potente quanto já foi, e a forma física admirável - criado no chão da usina, é lindo que esteja tão preservado, tão nosso e tão perdido.

E até que a morte eu sinta chegando
Prossigo cantando, beijando o espaço

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

OURO DO PÓ DA ESTRADA






Elba Ramalho fotografada por Mana Fernandes


Em 1971, de passagem pela cidade de São Bento do Una, em Pernambuco, Luiz Gonzaga entrou numa agência do Banco do Brasil para fazer uma transferência. O caixa ficou encantando com aquela notável presença e, conversador, arranjou um jeito de recomendar vivamente a Gonzagão: Luiz tinha que conhecer um compositor da cidade, Nelson Valença, com mais de 100 fabulosas canções inéditas, conterrâneo que seria de grande préstimo para a carreira do sanfoneiro. Gonzagão gostava dessas ousadias (foi assim que conheceu Zé Marcolino) e pediu para o rapaz levá-lo ao tal compositor. 

Embora tímido, Nelson Valença não demorou para se entrosar com o visitante famoso, que levaria dali três músicas daquelas que mostrou. Mas o sanfoneiro gostou de tudo, tanto que, no disco seguinte, Luiz Gonzaga (1973), que tem notas de encarte de Câmara Cascudo, Gonzagão inclui outras cinco de Valença, a primeira delas o xaxado O Fole Roncou. Nessa canção, além dos tradicionais zabumba, triângulo e sanfona, Lua incluía guitarra, baixo e bateria. Virou rock’n’roll, só que não.

Essa história, evidentemente, não saiu dos escaninhos da minha memória privilegiada, ela está no livro O fole roncou!: Uma história do forró, de Carlos Marcelo.

Pois bem: tudo isso para dizer que quem for ouvir o novo e imprescindível disco de Elba Ramalho, O Ouro do Pó da Estrada, e resolver começar como eu, pelo final, vai encontrar O Fole Roncou lá nos estertores do álbum e não vai ter dúvidas de que se trata de uma iguaria. Com guitarra, baixo e cavaco (todos tocados por Yuri Queiroga), a pedra preciosa descoberta por Gonzagão no pó da estrada revitaliza tudo que é selvagem no espírito desterrado da viagem: o ritmo, o contágio, a fúria da convocação libertária.

O Zé Buraco, Pé-de-Foice, Chico Manco
Peba Macho, Bode Branco:
Todo mundo foi brincar

Esse apelidos todos da música de Nelson Valença me lembram alguns que meu primo Fred me contou de Campina Grande, como Horácio Espinhaço de Pão Doce e Cu de Pombo. Elba Ramalho nos faz ver, em 2019, que ainda é possível fazer um disco com grande orgulho, grande senso de unidade, de exame do espírito.

Entretanto, eu confesso que corri ao disco, quando ele chegou, afoito para ouvir outra canção: Princesa do Meu Lugar, composição de Belchior. É uma das canções jamais gravadas pelo cantor e compositor cearense - quem a gravou primeiro foi a cantora Guadalupe Mendonça, em 1980, no disco Princesa do meu lugar (RCA, com direção artística de Osmar Zan e direção de estúdio de Dominguinhos).

Não há pranto que apague
Dos meus olhos o clarão
Nem metrópole onde eu não veja o luar
O luar do sertão

Com arranjo de cordas e solos de violoncelo e violino, é o grande presente do disco. Em seus discos recentes, Amelinha e Daíra gravaram também essa canção. Música que eu não analisei com tanta atenção em meu livro. Faço isso agora.

Em sua versão, Elba acentua bastante no final da música o verso Luar do Sertão. Entendeu que está ali o diálogo seresteiro fundamental de Belchior com o clássico de Catulo da Paixão Cearense, composto há 104 anos. Luar do Sertão é a maior das canções deixadas por Catulo, uma parceria com João Pernambuco que foi gravada, ao longo de um século, por Vicente Celestino, Francisco Alves, Maria Bethânia, Milton Nascimento e ele, Luiz Gonzaga.

O diálogo de Belchior com Catulo da Paixão Cearense é feito de divergência e concordância, tudo ao mesmo tempo. Catulo desconfiava da modernidade. “Os médicos serão substituídos por outros médicos, sem serem médicos?”, indagou. “Como será o comércio? O dinheiro desaparecerá? Como farão os trocos? Que nos dirá o rádio?”, perguntava, em suas crônicas.

Por ter rodado o mundo todo e todos os corações, Belchior responde, em sua canção:

A terra toda é uma ilha
Se eu ligo meu radinho de pilha

Ou a internet é a ilha, hoje em dia. Mas esse sentimento de plena comunicação não o impedia de zelar pelos afetos da terra:

Se me der vontade de ir embora,
Vida adentro, mundo afora
Meu amor, não vá chorar
Ao ver que o cajueiro anda florando
Saiba que estarei voltando, princesa do meu lugar

Temos então que no disco de Elba há diversas obras fundacionais da música brasileira revestidas de uma análise da mixórdia evolutiva da MPB ao longo de um século. A cantora garimpou um lote irrepreensível de composições de diversas épocas e as tingiu de uma perenidade tangível. 

“Além da Última Estrela”, de Dominguinhos e Fausto Nilo, traz Mestrinho na sanfona e harpa de Cristina Braga; “José”, do pernambucano Siba, evoca Mestre Ambrósio e o revolucionário movimento manguebit.

“Se Tudo Pode Acontecer” traz a geração dos anos 1980 ao relevo (Arnaldo Antunes, Alice Ruiz, João Bandeira e Paulo Tatit), equilibrada entre o rococó típico da época e uma delicada marimba de vidro. Outro espécime é André Abujamra, com O Mundo, na qual Elba recebe reforços vocais de Roberta Sá, Maria Gadu e Lucy Alves.

Oxente, de Marcelo Jeneci e Chico César, pega a geração imediatamente subsequente, a bordo de sintetizador e zabumba.

O hit parade, o sucesso incontornável do rádio, como diríamos antigamente, não ficou de fora. Com introdução de cordas (com arranjo e regência de Arthur Verocai), ela reinventa “Girassol”, megasucesso do grupo Cidade Negra (de Pedro Luís, Bino Farias, Toni Garrido, Lazão e Da Gama). O sucessão aciona o lado de diva de São João de Elba.


Ouso dizer que, se tiver de recomendar um disco para esse começo de ano tão conturbado, é esse aqui.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

DEZ LIVROS SOBRE MÚSICA





Geralmente se diz que a questão da música se resume à preferência pessoal, o que é evidente: todas as paixões humanas estão relacionadas a um jogo de favoritismo e subjetividade.
Mas haverá sempre o esforço de descrever ou narrar a saga histórica, biográfica e objetiva da música. A música e sua circunstância criam consideráveis capitais simbólicos, culturais, éticos, estéticos. Festivais, tendências, comportamento, poesia e atitude: todas essas variáveis implicam em narrativas interessantes. Artistas criam bunkers sociais e culturais que mobilizam gerações. Outros fabricam sua "lenda" de forma a influir na retroalimentação de uma mitomania.
Alguns livros sobre música são, em minha opinião, fundamentais. Me desafiei aqui para, entre os livros mais decisivos sobre a música pop, destacar alguns por motivos objetivos: historiografia, narrativa, documento social, exercício estético, científico ou manifesto cultural. Uma bibliografia básica (com auxílio de alguma pesquisa) para a introdução à música com explicação.


MATE-ME POR FAVOR - (Legs McNeil e Gillian McCain, L&PM, 1996). Um dos principais livros sobre o movimento punk , inventário dos anos 70 e da chamada Blank Generation, com entrevistas intercaladas como se fossem um papo em que os personagens são Iggy Pop, Patti Smith, Joey Ramone, Debbie Harry e Malcolm Mclaren. Passeando desde a Factory de Andy Warhol até o Max's Kansas City (nightclub e restaurante no 213 da Park Avenue, em NYC, que foi bunker de artistas nos anos 60 e 70), chegando à Inglaterra operária dos anos 80, os autores Legs McNeil e Gillian McCain inventariam o que significou o movimento. McNeil batizou o movimento punk em 1975, ao dar este nome a uma revista de música e cultura pop dos anos 70. Foi editor da Spin e editor-chefe da Nerve. Gillian McCain foi coordenadora de programação do Poetry Project na St. Mark’s Church, onde Patti Smith fez suas primeiras leituras e os diários de Jim Carroll foram descobertos. Passeando por uma trip de sex, drogas, morbidez e cultura pop, o livro inicia com a terapia de eletrochoque que Lou Reed, internado pelo próprio pai pela natureza contestadora, recebeu num manicômico, e passa pelas mortes de Sid Vicious, Johnny Thunders e Nico, além das aventuras sexuais de gente como Dee Dee Ramone. Construído como uma história oral, o livro parece aproximar experiências e artistas que, de fato, estavam vivendo tudo aquilo em momentos distintos. O mítico Richard Hell, da banda Television, resumiu a natureza das bandas punk da época: “A coisa toda era para ser tão chocante quanto desagradável e tola”.

O RESTO É RUÍDO - Alex Ross (Companhia das Letras, 2009). Alex Ross sustenta, em O Resto é Ruído, que a música erudita de hoje seria a música da cantora islandesa Björk. Para o autor, a música dela ocupa espaço análogo àquele que, no século 19, era domínio dos compositores românticos. Crítico brilhante, Alex Ross passou, nesse gigantesco ensaio, da Viena da virada do século até a Paris dos anos 1920; da Alemanha de Hitler e da Rússia de Stálin à Nova York dos anos 60 e 70, mesclando o erudito e o popular, a música e a política. Analisou das obras do maestro Daniel Barenboim ao rock do Sonic Youth, Bob Dylan e o som minimalista de Philip Glass. O resultado foi celebrado com a indicação de Ross para o prêmio Pulitzer de 2008 e para o prestigioso Samuel Johnson Prize. Considerado um dos melhores livros de 2007 pelos jornais New York Times e Washington Post e pela revista The Economist, O resto é ruído foi vencedor dos prêmios National Book Critics Circle Award (2007) e Guardian First Book Award (2008).

LADY SINGS THE BLUES (Billie Holiday e William Dufty, 1956, Brasiliense/Jorge Zahar). A cantora Billie Holiday (1915-1959) publicou esse livro apenas três anos antes de sua morte. Não é só uma obra sobre a aura do jazz, mas sobre a grandeza de uma artista. “Já me disseram que ninguém canta a palavra 'fome' como eu. Ou a palavra 'amor'. Talvez seja porque eu me lembre do significado dessas palavras", ela escreveu — ou "ditou" — para seu ghost writer, William Dufty, o amigo que a acompanhou até o fim. A mãe de Billie a teve com apenas nove anos. Aos 12 anos, ela perdeu a virgindade com um trompetista de uma big band, prostituiu-se aos 13 anos.Em plena Depressão, então com 15 anos, Billie largou a vida de prostituta e foi viver com sua mãe no Harlem. Um dia, pedindo emprego pelos lados da Sétima Avenida, entrou na Rua 133 e num lugar chamado Pod's and Jerry's. Disse que era dançarina e queria um emprego. O proprietário a mandou dançar perto do pianista. "Comecei, e foi uma coisa deplorável", ela lembra. Então, o sujeito perguntou: "Garota, você sabe cantar?". Ela respondeu: "Claro que sei cantar, mas de que adianta isso?". Ele insistiu, ela pediu ao pianista que tocasse 'Travelin' all alone'. A boate inteira ficou em silêncio. "Quando terminei, todo mundo estava chorando no copo de cerveja, e apanhei trinta e oito dólares no chão".

KIND OF BLUE - A HISTÓRIA DA OBRA-PRIMA DE MILES DAVIS - Ashley Kahn (Barracuda, 2007) - Sobre "Kind of Blue", o crítico Jerome Maunsell, do Observer, escreveu o seguinte: “No dia 2 de março de 1959, às 2h30, sete músicos entraram no estúdio da Columbia na East 30th Street, em Nova York, e emergiram seis horas depois com aquilo se tornaria o primeiro lado do disco Kind of Blue. Os sete músicos (Miles Davis, Gil Evans, John Coltrane, Cannonball Adderley, Paul Chambers, Jimmy Cobb e Wynton Kelly) retornaram algumas semanas depois e em outras três horas poliram o segundo lado”. Aquela imersão dos músicos de "Kind of Blue" mudou a história do jazz, influenciou milhares de outros artistas pelo mundo e o álbum tornou-se o mais ouvido do gênero em todos os tempos. O biógrafo norte-americano Joseph Frank (1918 – 2013), autor da biografia do autor russo Fiódor Dostoiévski, acreditava que as obras de Dostoiévski só eram inteligíveis na medida em que o leitor conhecesse o contexto histórico em que foram produzidas. Esse livro faz esse trabalho.

MYSTERY TRAIN: IMAGES OF AMERICA IN ROCK’N’ROLL MUSIC, de Greil Marcus (1975). Um dos mais prolíficos e elegantes críticos de rock, Greil Marcus influenciou a escrita de gerações mundo afora a partir de uma perspectiva cultural da produção de música. Esse livro é uma espécie de Bíblia para os postulantes a esse mundo, com apreciações sofisticadas sobre um punhado de mitos (tais como Sly Stone, Randy Newman e The Band). Os manifestos de Marcus sobre a atividade de escrever sobre a música são sensacionais. “Música é uma coisa fundamentalmente ambígua, o que explica por que o seu poder de criar símbolos (em oposição a impor símbolos) é tão grande”, ele escreve. “A música pode fazer as letras mais estúpidas soarem profundas, mas no fim das contas ela não pode carregar uma mensagem específica: seu poder de criar símbolos é o poder de criar o símbolo ambíguo. Se uma peça é musicalmente viva, se ela tem um ímpeto próprio, ela vai rebater, vai questionar quaisquer imagens explícitas ou símbolos que supostamente carrega."

SÓ GAROTOS - Patti Smith (Companhia das Letras, 2010). O livro de memórias da cantora, poeta e compositora Patti Smith, que ganhou um dos maiores prêmios literários em lingua inglesa, o National Book Award, trata de sua peregrinação por Nova York a partir do final dos anos 1960, ao lado do artista e fotógrafo Robert Mapplethorpe. Ela conheceu Mapplethorpe no verão de 1967, e este se tornaria seu primeiro grande amor. Mapplethorpe se assumiria homossexual mais tarde. No livro, além de descrever a vida em alguns bunkers da contracultura, como o Chelsea Hotel, e narrar a gênese de alguns dos seus mais influentes discos, como Horses (1975), Patti revela uma notável e elegante prosa para o mundo literário, algo que ela retomou com fluidez no livro seguinte, Linha M (também lançado no Brasil pela Companhia das Letras). O trunfo da cantora é conseguir injetar na prosa o ritmo e a liberdade de linguagem para uma narrativa memorialística. “A direita está fortalecida, pequenos pensadores criminosos. O mal demonstra mais solidariedade que o bem, e as boas pessoas assistem sem reação a essa virada. A direita argumenta mais, fala mais. Às vezes é frustrante, para quem é humanista. Mas o que penso disso tudo é que temos de achar um jeito de atravessar esses conceitos, de direita e esquerda. O problema maior é a insinceridade, e a espécie humana está ameaçada. Um dia, todo esse nosso meio ambiente vai entrar em colapso, e não vai adiantar debater conceitos. Nós, como seres humanos, temos a responsabilidade de passar por cima de tudo isso, pela sobrevivência do planeta. Eu sou, apesar de tudo, otimista”, disse Patti.

LAST NIGHT A DJ SAVED MY LIFE (Bill Brewster e Frank Broughton, 1999). O DJ foi catapultado ao coração da moderna cultura popular especialmente a partir dos anos 1990, quando se tornou uma figura central na dance music e impulsionou uma cultura de clubes noturnos que, somente na cidade de Nova York, chegou a movimentar US$ 3 bilhões por ano. A figura do DJ projetou-se então para além de um programador musical, incorporando aspectos de entertainer, produtor, businessman e músico autoral. Superstars das picapes, como Carl Cox, Sasha e Digweed, passaram a ter status de rock stars, com contratos disputados e turnês milionárias. No livro Last Night a DJ Saved My Life, os jornalistas Bill Brewster e Frank Broughton iniciaram a chave historicista para a compreensão de como essa cena foi sedimentada, como cresceu e o que ela trouxe de novidade ao mundo da música e da eletrônica. Da cena britânica, a mais fértil no início, ao renascimento da disco music em Nova York, passando pelos sound systems da Jamaica e a emergência das técnicas do scratch no Bronx, passando pela cena industrial de Chicago e Detroit, eles documentaram a ascensão dos DJs. Com entrevistas com críticos, executivos da indústria musical, DJs, músicos e outros, escreveram um capítulo fundamental da História.

MUSICOPHILIA (Oliver Sacks, 2007). O célebre neurologista Oliver Sacks explora nesse livro fundamental o lugar que a música ocupa no cérebro, uma certa “memória fonográfica”  e como a música afeta a condição humana. Em Musicophilia, o autor foca naquilo que designa por “desalinhamentos musicais”, casos de 29 pacientes que sofriam de imprevisíveis efeitos cognitivos quando expostos à música. Entre eles,  pacientes com Parkinson ou autismo cujo ato de audição musical diminuía os sintomas; um homem atingido por um relâmpago que subitamente desejou ser pianista aos 42 anos; um grupo de crianças com síndrome de Williams, que desde o nascimento desenvolvem compreensão musical espantosa; pessoas com "amusia", para quem uma sinfonia soa dolorosa, quase uma tortura; e um maestro com amnésia, cuja memória durava apenas sete segundos (exceto quando se tratava de música). O dr. Sacks não se porta como um cientista apenas, mas um filósofo com talento literário atrás do mistério da música, “uma arte que é completamente abstrata e profundamente emocional”. Ele também proporciona um agradável passeio por um repertório de histórias da humanidade, como a de Che Guevara, “surdo do ritmo”, que era capaz de dançar um mambo enquanto a orquestra tocava um tango, e Freud e Nabokov, que tinham prazer zero com a audição musical.

HISTÓRIA SOCIAL DO JAZZ (Eric Hobsbawm, editora Paz & Terra). O historiador britânico Hobsbawm, um dos mais conhecidos teóricos marxistas do mundo, analisa ensaisticamente uma de suas paixões, o jazz, detendo-se em seus ídolos (Count Basie, Duke Ellington e Billie Holliday). Sua perspectiva é enxergar o jazz como criação revolucionária dos negros norte-americanos submetidos às circunstâncias históricas da escravidão. Combinando visão acurada com digressões intelectuais sofisticadas, Hobsbawm vê o jazz como uma revolução anticomercial, um abrigo contra o racismo fortalecido tanto nas fronteiras do New Deal quanto do Partido Comunista. Interessante ver a divisão analítica proposta por Hobsbawm, diferente da maioria dos críticos do jazz, da chamada pré-história (entre 1900 e 1917), antiga (1917 a 1929), média (1929 a 1941, com o aparecimento das vanguardas) até o moderno (a partir daí, com as linguagens do bebop, hard bop e do cool). Ele distingue os esforços comerciais do jazz e sua dinâmica interna autêntica, representada pelas jam sessions e pelo senso comunitário dos músicos. A música é vista neste contexto como elemento de resistência, o que contribui na sua difusão. Num quadro mais amplo: a industrialização e as transformações no padrão de consumo de pretos e brancos, a relação do jazz com a indústria de discos e espetáculos, a popularização e seus cultores.

REAÇÕES PSICÓTICAS (Lester Bangs, Conrad, 2005). Versão brasileira compacta da bíblia Psychotic Reactions and Carburetor Dung: The Work of a Legendary Critic: Rock ’n’ Roll as Literature and Literature as Rock ’n’ Roll, de 1987, mostra a combustão de que foi feita a literatura de Lester Bangs. O mais controverso crítico de rock da História, memoravelmene retratado pelo ator Philip Seymour Hoffman no filme Quase Famosos, morreu precocemente, aos 33 anos, mas deixou um compêndio de escrita que movimentou gerações. Reações psicóticas mostra reflexões de Bangs sobre a morte de John Lennon e Elvis Presley, relatos sobre uma noite de provocações com Lou Reed (quase terminando em pugilismo) ou Iggy Pop rolando sobre cacos de vidro e as idéias do autor sobre artistas como Kraftwerk, Van Morrison, David Bowie, Jethro Tull. “Em uma época sórdida de desejos contidos, a música de (Bruce) Springsteen é majestosa e apaixonada. Podemos nos elevar com ela, apreciando a agitação inebriante de um garoto talentoso navegando no pico de sua criatividade e sentimos sua música e poesia na medida em que ele atinge o Nirvana”, escreveu Bangs. Seus personagens são envolvidos em suas próprias tempestade existenciais, numa narrativa que leva em considerações as emoções do autor e da circunstância de sua época, com elementos de amor, ódio, sangue e substâncias ilícitas.