quarta-feira, 10 de outubro de 2018

ÁGUAS TURBULENTAS












fotos: jotabê medeiros





“Quem mandou ele vir aqui pra falar tanto? Teu negócio é cantar! Canta, porra!”, berrava, na arquibancada inferior, uma espectadora do show Us & Them, de Roger Waters, na noite passada, no Allianz Parque.

A moça não parecia saber exatamente quem era Roger Waters e nem o que fazia no show dele. O pai do cantor e baixista, Eric Fletcher Waters, foi morto pelos nazistas durante um bombardeio em Anzio, Itália, quando ele ainda era um bebê. Para o pai, em 1983, ele compôs The Fletcher Memorial Home, na qual fala de “incuráveis tiranos” e os nomeia um a um: Ronald Reagan, Alexander Haig, Menahem Begin, Ian Paisley, Leonid Brezhnev, Joseph McCarthy , Richard Nixon.

Em 1990, Roger Waters montou o show The Wall (cuja essência é a metáfora do perigo do fanatismo e do fascismo) na base do que fora o Muro de Berlim, explodindo um muro de isopor simbólico como exposição de seu pensamento sobre aquela cortina comunista, a divisão do mundo pelo autoritarismo e pela força. Organizou um boicote internacional de artistas contra Israel, buscando asseverar direitos aos Palestinos e catalisando para si toda a raiva dos partidários do uso da força contra um povo (chegou a tretar com Caetano e Gil por causa disso).  Em meio ao processo eleitoral norte-americano, ele inflou seu porco com a cara de Donald Trump sobre os ares do País, em turnê - e segue fazendo isso, expondo a insânia de Trump, até em português.

Portanto, Roger Waters é a própria imagem do destemor e da liberdade de expressão. Ele faz seu show justamente para dizer às pessoas o que pensa sobre os perigos da opressão, da supressão de direitos, da perseguição a grupos sociais. A meta dele é essa: identificar o fascista, apontar o fascista. O primeiro pensamento que vinha à cabeça de quem presenciava as vaias e os xingamentos que Waters tomava na noite de ontem era esse: será que esse pessoal não errou de show? Sem questionar a legitimidade da vaia, mas o que Waters procura é basicamente isso: causar desconforto naquele tipo de pensamento que não se coaduna com a defesa da irrestrita liberdade, da admissão dos direitos civis, do humanismo.

A vaia começou quando surgiu a tag #EleNão no telão. Antes, Waters já tinha exibido durante pouquíssimo tempo uma lista com o título “NEOFASCISMO ESTÁ EM ASCENSÃO”. Logo abaixo, os nomes dos líderes neofascistas e os países:  Nos Estados Unidos - Trump; Na Hungria - Orban; na França - Le Pen; na Áustria - Kurz; no Reino Unido - Farage; na Polônia - Kaczynski; na Rússia - Putin?; no Brasil - Bolsonaro.

Houve já um apupo, mas Roger Waters cantou Wish You Were Here e saiu, anunciando um intervalo de 20 minutos. Ao voltar, logo após a execução de Dogs, um porco inflável gigante com os dizeres RESPEITEM AS MULHERES, NO WALL e AS CRIANÇAS NÃO TÊM CULPA, além de grafites de palestinos atirando pedras e ilustrações simbólicas, percorreu os ares do Allianz Parque, agora fazendo jus ao seu apelido de Allianz Pork. Roger Waters e os integrantes da banda vestiram máscaras de porcos durante Pigs (Three Different Ones) e um garçom também mascarado servia-lhes champanhe. George Orwell reencarnava na Barra Funda. Mas quando a tag #EleNão voltou ao telão, aí começou a treta.

Jair Bolsonaro é considerado fascista por quase todas as publicações importantes do mundo (Le Monde, Libération, Der Spiegel, The Guardian, El País, New York Times) por seus próprios méritos. Já expressou mais de uma vez a sua disposição para o extermínio das diferenças, sua misoginia, homofobia, racismo, a apologia da violência. Ainda assim, parte significativa da plateia discordou veementemente de Roger Waters. Essa parte tem planos de votar no candidato com todo o pacote do que ele representa, e se incomodou com a identificação categórica do perigo nazifascista concentrado em Bolsonaro. Como rebateu isso? Alguns grupos isolados gritavam “Fora PT” em resposta. Outros ofendiam Waters. “Babaca! Filho da puta! Vai se foder!”.  Houve diversos casos de empurrões e agressões verbais de espectadores dessa corrente contra a outra metade da plateia que discordava. 
Enquanto tuitava sobre os acontecimentos em progressão, um jornalista celebrado das redes sociais tomou um tranco de um partidário de Bolsonaro.

Pressentindo o clima tenso, Roger Waters cruzou os braços no peito e tentou pacificar os ânimos. Lembrou que o Brasil está em meio a uma eleição, que iriam dizer que não era da conta dele. Mas não abriu mão um milímetro de suas convicções. "Sou contra o ressurgimento do fascismo. E acredito nos direitos humanos. Prefiro estar num lugar em que o líder do País não creia que uma ditadura é uma coisa boa. Eu me lembro das ditaduras da América do Sul e foi feio".

Durante pelo menos uns 10 minutos, Roger iniciava uma fala e as vaias recomeçavam. Tentava apresentar a banda e sobrevinham novas vaias. Com larga experiência no comportamento das turbas (Another Brick in the Wall é uma alegoria do comportamento das massas), ele levou a tensão até seu esgotamento e anunciou Mother. Durante a música, ele ia enfatizando versos com uma expressão facial de advertência. “Mãe, será que eu devo concorrer para presidente?”, e fazia um esgar com a boca. “Mamãe vai fazer todos os pesadelos se tornarem realidade”.

Ao sair de cena, após Comfortably Numb, de novo Roger Waters colocou a tag #EleNão no telão. Já refeitos dos confrontos, os antifascistas da plateia ironizavam o público bolsonarista. “Não teria sido melhor terem ido no show do Zezé di Camargo?”, brincava um gaiato. Muitos fãs na pista VIP, que custava R$ 810, usavam camisetas do Pink Floyd (um até tinha uma camiseta número 12 com o nome de Syd Barrett às costas) e mostravam fúria desmesurada em relação ao ídolo, como se alguém tivesse olhado dentro deles, do que carregam de mais íntimo dentro de si. A participação do coral de crianças em Another Brick in the Wall foi inebriante, a alegria dos garotos era tamanha em estar ali que Roger até se emocionou.

Poucos, entretanto, falavam mal do som na saída. Roger Waters fez um dos shows mais orgânicos de suas turnês recentes. Na época em que trouxe ao Brasil o show The Wall, em 2012, ele tocava muito pouco, cantava muito pouco e havia mais eletrônica do que instrumento na execução. Dessa vez ele soltou a banda, deixou que saísse do script, alguns solos foram menos xiitas em relação ao som gravado. O show perdia um pouco o pique quando entravam as canções novas, como Déjà Vu e Last Refugee, mas era irretocável em clássicos como The Great Gig in the Sky, com o habitual tour de force das suas vocalistas ao estilo replicante de Blade Runner. Os efeitos do prisma de luz durante Eclipse tinham até a capacidade de invadir as almas conflagradas de parte da plateia e reorientá-las, fazê-las voltar a acreditar no conceito de liberdade absoluta do artista.

Waters volta logo mais ao Allianz Parque para o último show em São Paulo. A caminho do Uber, jovens fãs amantes da democracia demonstravam preocupação com ele do lado de fora do estádio, mas esse não é o tipo do artista que cultiva a palavra medo. Daqui, ele vai a Brasília, ao Estádio Mané Garrincha, no dia 13; a Salvador, na Arena Fonte Nova, no dia 17; a Belo Horizonte, no Mineirão, no dia 21; ao Rio de Janeiro, no Maracanã, no dia 24; a Curitiba, no Couto Pereira, no dia 27; e a Porto Alegre, no Beira Rio, no dia 30.

2 comentários:

Unknown disse...

Uma leitura conjuntural muito precisa. Obrigado pelo texto.

Nikolay ebardeev disse...

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