sexta-feira, 27 de abril de 2018

O CANTOR QUE SE SABIA CANÇÃO










Antonio Carlos Belchior morreu no dia 30 de abril do ano passado. Na próxima segunda-feira completa-se um ano da partida do cantor, compositor e pintor cearense. Há tributos pipocando por toda parte, o mais simbólico deles um concerto nesta segunda-feira no Teatro São João, em Sobral, Ceará, onde ele nasceu. No Teatro dos Bancários e no Feitiço Mineiro, em Brasília, Marcos Lessa e Alessandra Terribili encaram seu legado.

Escrevi uma biografia dele da qual me orgulho cada dia mais. Porque a cada dia se avoluma a percepção de que foi mais que um cantor, mais que um compositor, mais que um transeunte das artes. Foi um visionário.

Esta semana, por exemplo, acordei convencido de que Belchior, para minha geração, foi o mais político entre os gigantes da MPB. Não foi político apenas no enfrentamento com as forças institucionais constituídas, mas também no sentido de compreender quais os antagonismos que nos dividiam e os que nos aproximavam. E de abraçar o Brasil profundo. E porque não foi só um cara de temáticas, foi também a temática.

“De olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava”, cantou Belchior, em A Palo Seco. Não há messianismo nem equacionamento fácil em sua compreensão do País. Há uma espécie de consulta à percepção do povo, um compartilhamento de sustos.

Mas, como tudo que a gente escreve às vezes consiste apenas numa pilha de argumentos, de racionalizações, eu seria um tolo se não falasse também da emoção que Belchior contrabandeia em suas canções.

Na última segunda-feira, dirigindo pela Castelo Branco rumo a São Paulo, no retorno da festa do centenário de meu pai em Cianorte, no Paraná, eu me peguei chorando a perda do meu irmão, Jack, que morreu também há um ano, uma semana antes de Belchior. Meu livro é dedicado a ele. Ainda com o gosto amargo daquele sentimento ambíguo de uma festa que celebrou a longevidade de um e pranteou a fugacidade do outro, e para estancar as lágrimas, que atrapalhavam a direção, eu liguei o CD player. Por um mistério da fé, estava lá um disco do Belchior. Os versos que surgiram assim que liguei o aparelho me acolhiam como se tivessem sido feitos para nós:

“Mas o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo) desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto. E a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto”.

Nada definiria tão completamente a partida de Jack. O anjo veio convidá-lo para uma cerveja, e ele foi porque nunca se negaria a uma cerveja. O local em que ele fazia churrasco e bebia era carinhosamente chamado de Canto do Jack.

Belchior veio em meu socorro, agradeci e segui viagem. Esse compositor tem um jeito de se envolver na narrativa que é incontornável, porque afetuoso e cúmplice. Ele põe a mão no ombro do ouvinte para conversar. “Você não sente nem vê/ Mas eu não posso deixar de dizer, meu amigo” (Velha Roupa Colorida).

Talvez eu só tenha visto um caso de um intérprete-compositor tão intimamente ligado à sua poesia: Cazuza. “Você nunca ouviu falar em maldição, nunca viu um milagre, nunca chorou sozinha dentro de um banheiro sujo”.

O que ocorre é que o País em que Belchior produziu seus hinos mais importantes era também um mundo movendo uma guerra suja contra o artista, contra o povo, contra o Brasil. Mais ou menos a mesma guerra suja que se implanta agora, após um período em que tivemos esperança de que um País de tolerância e aproximação vingasse. “O que é que pode fazer um homem comum nesse presente instante senão sangrar, tentar inaugurar a vida comovida, inteiramente livre e triunfante?”

A vida comovida, de pura compreensão e ternura, não o impedia de diagnosticar as feridas da terra. Por exemplo: quando Belchior gravou Voz da América, no disco Era uma Vez um Homem e o Seu Tempo, já era 1979. Mas ele a tinha composto alguns anos antes, em 1975. E, em 1976, o cantor Antonio Marcos (1945-1992), portento artístico de São Miguel Paulista, que foi casado com Vanusa, gravou a canção com sua voz trágica.

Nessa música, Belchior fala da Operação Condor, investida repressiva em conjunto dos vários regimes militares da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile, Bolívia, Paraguai e Uruguai em colaboração com a CIA norte-americana). Funcionou ativamente entre 1970 e 1980.

“El Condor passa sobre os Andes e abre as asas sobre nós. Na fúria das cidades grandes eu quero abrir a minha voz”, ele canta. “El Condor Pasa” disfarçava-se em citação a Simon & Garfunkel ou Daniel Robles. A letra de Belchior era uma afirmação na crença de que a humanidade venceria a barbárie, que o carinho seria maior do que a brutalidade. “Quem teve que partir para um país distante: não desespere da aurora, recupere o bom humor”.

Havia uma coragem extraordinária naquele cearense reservado. Comparando com a política na obra de Chico Buarque, creio que Belchior foi mais acionador, mais deflagrador. Sempre vi Chico como alguém mais oblíquo, mais dissolvido. Claro que Apesar de Você e Jorge Maravilha são antifa total, mas Meu Cordial Brasileiro de Belchior não é menos contundente: “Com/contra quem me dá duro com o dedo na cara me mandando calar”.

Belchior nunca baixou a guarda, não abandonou o combate após a redemocratização. Sabia que o inimigo estava ativo. Enquanto houvesse algum modo de dizer não, ele cantaria, avisou. 

Em 1993, em Bahiuno, Belchior cantou: “Dá flores ao comandante/ que um dia te dispensou do serviço militar/ Ah! quem precisa de heróis: feras que matam na guerra/ e choram de volta ao lar”.

Claro, a indignação política também está presente em coisas como Brejo da Cruz e Meu Guri, Chico quase sempre transferindo a uma terceira pessoa a responsabilidade da insurreição. Chico é mestre no deslocamento do sujeito; conhece a realidade brasileira como poucos, e a descreve como se partilhasse a tragédia do homem invisível nacional. Mas ele não se confunde com ela, é uma testemunha privilegiada, assiste a quase tudo de um mirante (no máximo, tem um japonês trás de si).

Caetano Veloso é mais discursivo em seus momentos mais políticos, tipo quando fala de “o silêncio de São Paulo diante da chacina”. Ou então, assume uma abordagem de antropólogo frente à realidade brasileira. “O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara/ O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela/ A Baía de Guanabara/ O antropólogo Claude Lévi-Strauss detestou a Baía de Guanabara”.

Veja, não estou dizendo que uma obra é melhor que a outra, mais efetiva que a outra, mais bonita que a outra. Estou tateando uma diferenciação. Belchior fala direto com o seu interlocutor. Ele o chama para uma conversa.

Sem ter tido a sacada de um matreiro Julinho da Adelaide, Belchior usa somente a brasilidade como escudo. Ele não se arvora a condição de observador, fala como um pedaço da realidade que trata. Exige igualdade de tratamento, de interlocução: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você que me ouve agora”.

Todos denunciam fundações sólidas e profundas das mazelas nacionais. Caetano, em Noites do Norte, musicou Joaquim Nabuco em 2000. “A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade.”

Belchior já tinha ido mais longe. Musicou Castro Alves em Aguapé, que gravou em 1980. Mas, no trecho que escolheu, no pedaço do qual se apropriou, não há apenas análise, há também sangramento, gracialianismo seco:

“Esta casa não tem lá fora
A casa não tem lá dentro
Três cadeiras de madeira
Uma sala, a mesa ao centro
Rio aberto, barco solto
Pau-d'arco florindo à porta
Sob o qual, ainda há pouco
Eu enterrei a filha morta”.

Belchior também já tinha examinado a questão da construção da consciência identitária em Monólogo das Grandezas do Brasil, de 1999, que se reporta a Diálogo das Grandezas do Brasil, livro escrito pelo fazendeiro Ambrósio Brandão no século 17.

“Todo mundo sabe/todo mundo vê
Que tenho sido amigo da ralé da minha rua
Que bebe pra esquecer que a gente
É fraca
É pobre
É vil
Que dorme sob as luzes da avenida
É humilhada e ofendida pelas grandezas do Brasil
Que joga uma miséria na esportiva
Só pensando em voltar viva
Pro sertão de onde saiu”.

Chico e Caetano são escultores de canções, artesãos. Belchior é igualmente manufaturado, mas ele é também a sua obra. Diz-se do D. Quixote, de Cervantes, que foi o primeiro livro que se sabia livro. Belchior, por analogia, poderia ser descrito como o cantor que se sabia canção. “Fique você com a mente positiva/Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)/ Pois sou uma pessoa/ Esta é minha canoa: Eu nela embarco/ Eu sou Pessoa!/ A palavra pessoa hoje não soa bem? Pouco me importa!”



Um comentário:

Fernanda, a mãe da Maria Vitória (a tó) e da Maria Eduarda (a duca). Uma tem três anos, a outra tem sete meses. disse...

Puta que pariu, Jota, que análise. Tá difícil te acompanhar, estás virando a exegese (isso é um elogio)