quarta-feira, 16 de setembro de 2009

NA COLA (2)















Desconfortável ou inquieto, o que acharem melhor, o delegado Giudice não conseguiu mais relaxar naquela tarde. Acelerou o carro e mergulhou na Marginal. Logo estava na Rodovia Castello Branco, e continuou seguindo até começarem a surgir placas com nomes de cidades: Lençóis Paulista, Iaras, Pratânia, Itaí, Itatinga, Paranapanema, Botucatu. Enveredou pelo trevo que conduzia a Avaré.
Passou por um portão com vigias, identificou-se, um dos homens fardados falou ao interfone com alguém que parece ter autorizado a entrada e ele seguiu. Deixou o carro no estacionamento gramado e entrou num pavilhão enorme que parecia um refeitório.

O homem encostado na parede evitou olhar nos olhos do interlocutor até que se deu uma espécie de sinal imperceptível. O sinal veio do agente carcerário, um Deus de barriga estufada e que enfiava o dedo no nariz a cada cinco minutos. O homem silencioso de cabeça baixa encostado na parede vestia calça jeans marrom e camisa branca de brim, calçava tênis de jogging Le Coq Sportif e carregava um saco plástico com papéis.

O homem agora pode falar, o carcereiro permitiu. Trata-se do prisioneiro 36.099 da penitenciária, habitante da cela 76 do Pavilhão A, um dos 1.200 residentes do complexo. Condenado há décadas por assassinato de 9 executivos, além de roubo e seqüestro, foi a júri com 26 acusações e já passou mais de um terço da vida na prisão, mas a primeira coisa de que fala é de sua esperança de sair um dia. “A prisão foi a minha jornada mítica de passagem”, disse a um jornal, recentemente.
O sujeito era uma celebridade penitenciária. Empreendeu uma série de fugas cinematográficas e virou uma espécie de mito. A última fuga foi patética: saiu durante um indulto do Dia das Mães e não voltou, envolvendo-se com um sequestro em Minas.

Na cadeia, virou escritor. Autor premiado, com um contrato com a editora francesa Editions Baudrillard. Nunca escreveu uma linha sobre os crimes que praticou, e ninguém jamais conseguiu que falasse a respeito. Giudice está ali para tentar mais uma vez – nem tem tanta convicção de que esse papo ajude no caso que enfrenta, mas resolveu tentar assim mesmo, devido à semelhança entre o modus operandi de uns e outros.

– “Tenho um problema e preciso de ajuda. Até agora são seis mortos, e as mortes obedecem a uma lógica.

O presidiário não chegou a responder. Na cela ao lado, iniciou-se um tumulto, uma gritaria, dois presos se atracando por conta de um colchão trocado, pelo menos foi o que o carcereiro explicou. Começou e terminou com a mesma velocidade. E de repente tudo ficou de novo naquele silêncio sepulcral.

– “Dois carecas brigando por um pente”. A voz do homem finalmente saiu quebrando o silêncio como uma moeda caindo em piso de azulejo, meio rouca, carregada de um sarcasmo estranho.

_ “Você pode me ajudar? Sabe do que estou falando”, insistiu o delegado.
O homem fuçou no saco plástico que trazia consigo e retirou alguns cadernos de brochura onde escrevia à mão seus livros.

– “Veja isso aqui: respostas a perguntas de vestibulares. A juventude brasileira está sendo preparada pelos professores para viver no século 19, não acha?”, disse, ignorando a pergunta do policial.

Giudice já começava a se impacientar de novo e perguntava-se o que estava fazendo ali. Nos filmes, costuma funcionar, um matador em série pode ajudar a prender outro matador em série, mas foi tolice pensar que teria algo a ver também na vida real. Perda de tempo total, pensou.

O homem continuou seu discurso hiperbólico:
– “Gosto bastante da língua francesa, julgo que é mais emocional para narrar fatos criminosos. Por ser inorgânica, a ficção é irresponsável e não faz o jogo das convenções sociais.”

O carcereiro, de pé na parede onde antes esperava o homem, deu uma risada meio enfadada. O homem então passou a olhar fundo nos olhos de Giudice.

– “O que você me pergunta eu não posso responder. Mas posso dar algumas pistas. Eu tenho um conhecido meu no Rio de Janeiro que é colecionador de armas. É um cara bem-casado, com filhos, que gosta de caçar pessoas. Esse cara, que tem bom relacionamento com a polícia, quando eles vão invadir o morro, eles o convidam para caçar. Não sei se está fazendo isso hoje, mas antigamente fazia. Naquela época ninguém tinha AR-15. Ele tinha meia dúzia em casa. O que ele fazia? Pegava a melhor arma dele, com silenciador, e ia com a polícia atirando no morro. Mas não atirava em qualquer um. Não senhor! Escolhia caras fortes, ágeis, que tinham posição de liderança na comunidade. Não tinha necessidade disso, era rico, bem-casado. Mas matar para ele é mais que uma necessidade. Não vai parar nunca, a não ser que o parem. Vai procurar sempre um alvo mais difícil. É essa nossa praga, nossa maldição!”, disse.
Giudice então começou a entender. O preso resolvera lhe mostrar como entendia a série de crimes que estava acontecendo naquele momento em São Paulo. O assassino teria uma motivação de esportista, estava buscando alvos complicados, desafios novos.

– “Os alvos tinham dinheiro, mas o assassino não os roubou. Por quê?”, pergundou o policial.

– “Existe arte no crime, quando é bem-feito. Por razões morais, eu obviamente não defendo isso, mas por razões literárias, sem dúvida. Tem gente que acha que o crime é algo vulgar. Basta atirar, matar e voltar para casa sorrindo. Não, não é.”

Giudice estava grato ao preso, menos por ter indicado um caminho do que por ter conversado consigo. Não conseguiu negar-lhe um pedido: que iria enviar livros em francês para que ele lesse na cadeia – não tinha nada disso na biblioteca local.

– “Gosto bastante da língua francesa...", ele repetiu, virando a cabeça por cima do ombro.

Giudice ficou olhando o homem ser recolhido à cela. Antes de dobrar no corredor, ele disse.

– “Tenho certeza que você vai me enviar uns livros. Você não é do tipo que engana quem está no inferno”.








a maior parte desses diálogos do romance é real, foi travada em uma entrevista que fiz com o ex-cirurgião hosmany ramos na penitenciária de avaré, em 1999. hosmany fugiu da cadeia outro dia e está detido na islândia atualmente, esperando extradição.

Um comentário:

Estúdio Realidade disse...

Oi, Jotabê. Primeiro, parabéns pelo blog. Segundo, faço show com banda na terça no SESC Vila mariana e queria contar com uma força sua. Meu e-mail: rgarcialopes@gmail.com
Mandei release etc. Da uma força pra gente, grande abraço, Rodrigo