terça-feira, 16 de junho de 2009

CAÊ JÁ EMBOLSOU UM MILHÃO



















caetano segundo o genial nássara, no antigo 'pasquim'


Fico feliz de ver que, finalmente, gente graduada do jornalismo começou a investigar o uso da Lei Rouanet para financiar atividades de ótima saúde comercial, atividades que podem viver de bilheteria e não precisariam de incentivo.
Teve um momento em que pensei que isso não interessava nem um pouco.
Em 30 de janeiro de 2007, publiquei em O Estado de S. Paulo a reportagem Quanto vale o show?, que mostrava quanto pediam para fazer shows, CDs e DVDs astros como Caetano Veloso, Ana Carolina, Daniela Mercury, Beth Carvalho, Carlinhos Brown. Beth Carvalho chegou a captar R$ 1,3 milhão para festejar seus 60 anos no Teatro Castro Alves, em Salvador.

http://www.eagora.org.br/arquivo/Quanto-vale-o-show/
http://www.cultura.gov.br/site/2007/01/30/quanto-vale-o-show/

Caetano não está pedindo dinheiro pela primeira vez para uma turnê (agora para Zii e Zie).
Já pediu anteriormente para os projetos audiovisuais Coração Vagabundo (R$ 831 mil, e captou R$ 250 mil) e Caetano Vida e Obra (R$ 1,3 milhão, e captou R$ 300 mil), para a turnê de A Foreign Sound (R$ 2,2 milhões, e não captou nada) e para a turnê Noites do Norte (R$ 1,8 milhão, dos quais R$ 500 mil foram captados).
Ou seja: o cantor já embolsou R$ R$ 1 milhão dos cofres públicos para financiar seus projetos artísticos. É um velho freguês da Lei Rouanet, que agora está tentando lhe fechar a porta. Talvez pudesse ser interessante também mostrar o seu histórico.
O discurso de Caetano é contraditório, de fato. Defende independência do Estado, mas quer depender do Estado.
Mas me pareceu meio preguiçoso pegar Caetano como bode expiatório. Ele não é o único. Encorajo os valentes (e velozes) descobridores de privilégios a irem adiante.

8 comentários:

Bussab disse...

Fico contente que exista gente e especialmente gente inteligente como você discutindo a reforma da Lei Rouanet deste ponto de vista. Porque do lado dos deptos de marketing das grandes empresas e dos grandes produtores de shows o lobby já é muito grande. Falta espaço para ESTE lado do debate.

Juvenal disse...

Como diria Fernando Pessoa: Malhas que o império tece.
Acho a nova lei (pelo pouco que lí)reparos de arestas que sempre serão necessários.

Zeca Bral disse...

Excelente discussão! Citarei-o em meu post, onde falo da "Festa do Teatro" que tem mais de 80 peças em cartaz em S.Paulo com seus 30 mil ingressos gratuitos por R$ 1,2 mi angariados através da Lei Rouanet. Exemplo de como a lei poderia funcionar se fossemos todos coerentes. :D

Bruno disse...

O problema não é o Caetano entrar com projetos para bancar seu trabalho. Precisando ou não desses mecanismos, ele pode concorrer aos seus benefícios como qualquer outro cidadão. O problema é ele conseguir aprovar os projetos e captar o dinheiro. Agora se vc for pensar, para essas empresas que financiam projetos de lei, patrocinar um trabalho do Caetano ou da Beth Carvalho dá muito mais retorno e visibilidade do que o trabalho de um desconhecido. Pelo menos é assim que as empresas pensam. O problema para mim é vincular um benefício que era para ser público e justo a interesses comerciais. Aí a coisa mela.

Patrícia. disse...

Estive recentemente no show de Gilberto Moreira Passo Gil e lá estava a faixa "Brasil: um país para todos", indicando recursos públicos para a turnê no sistema S de cultura. Em janeiro estive trabalhando em Salvador e as notícias locais sobre o dinheiro público patrocinar os trios elétricos parecem literatura fantástica, sem o talento de JJ Veiga. Os novos/velhos baianos com suas versões bem pioradas: ivete sangalo e daniela mercury usam e bastante o dinheiro público para colocar seus trios elétricos nas ruas - não obstante a exorbitância que se paga para estar entre cordas, e a população que fica fora delas assistindo passivamente os abastados de gosto musical discutível tirar os pés do chão. Como se isso não bastasse, em janeiro havia um revolta bem articulada desses coronéis momescos contra o prefeito de salvador, um evangélico maluco dado à ações miméticas, que decidiu cortar a grana municipal que eles recebiam para colocar os trios de "grátis" no circuito dos pobres. Resumo da ópera: os caras ganham de todos os lados: do governo federal, do municipal, da tv bahia e dos que pagam os abadás. Esse é o Brasil: um país de todos. Jotabê, gosto muito de suas matérias, mas desculpe-me pelo tamanho do comentário. Abraço, Patrícia.

mark preto disse...

salve, jotabê. talvez não seja justo, mesmo, pegar o caetano para bode expiatório, mesmo porque governos e ministros vieram e foram, todos fazendo de conta que a lei não tinha distorções. mas dá um bode danado ver esses astros todos ora a fazer cara de paisagem, como se nada tivessem a ver com o assunto, ora a entoar cantilenas contrárias ao ´domínio`do estado. é de danar, também, os governantes a cantarolar em favor da democratização, quando o próprio governo coopera com a distorção: as estatais patrocinam o banquete dos patrocínios com renúncia fiscal. outro dia, vi um ´especialista` falar para deixarem o mercado trabalhar. por mim, fiquem à vontade. mas com dinheiro público, sem que boa parte do público que contribui com o dinheiro participe da festa? vi até gente falando que é preciso patrocinar os grandes espetáculos, a alta cultura (fashion hit brasil) e não ficar protegendo a falta de qualidade. beleza, cara pálida, só que faça com que o público tenha chances de acessar essa alta cultura (e todas as outras), ouvir diferentes tons e fazer sua escolha. nada de dirigismo cultural, nada de elogio à mediocridade: é abrir as cortinas. aí, sim, será competição de mercado. do contrário, serão sempre os mesmos caetanos, ivetes, as bandinhas de sucesso, os mesmos escritos e pinturas e filmes e enredos, a mesma praça, o mesmo banco... abrço. mark preto

Mariana Pasini disse...

Jotabê, o que voce achou da decisão do STF sobre a não obrigatoriedade do diploma para jornalistas? Tô curiosa.

el pájaro que come piedra disse...

Mariana, sobre o fim da obrigatoriedade do diploma, o Jânio de Freitas escreveu artigo definitivo na Folha de S.Paulo de domingo. Concordo em gênero, número e DEGRAU, como diria o Vicente Matheus!
Hey, Mark Preto, você já tá grisalho? Ou só caiu neve na minha cabeça e na do Careca?
Beijos
J.