foto: jotabê medeiros
Estive em
todos os 10 shows que João Gilberto fez em São Paulo a partir de
1997, quando inaugurou a Tom Brasil da Vila Olímpia – obviamente, reclamando do
ar-condicionado. Presenciei João mostrando a língua para os convivas sem noção
na inauguração do Credicard Hall, em 1999. “Vaia de bêbado não vale”. Estava
lá no show do Auditório Ibirapuera quando ele tocou uma canção nova, Je Vous Aime Beaucoup Japão, uma
homenagem àquele país. “Amo o Japão. É tão Brasil, é tão coração. Fiz essa
música para o Japão”. A canção é toda construída com palavras em japonês,
português e francês. Até hoje não sei se era nova, se era uma música, se
era uma composição ou uma improvisação genial.
Vi João Gilberto o bastante para saber hoje que muitos dos mitos a seu respeito são falsos. É ilusória a ideia de que ele faz sempre “o mesmo e imutável show”. A suprema e notória economia de meios de João Gilberto é uma conquista progressiva, ele sempre se exaure nessa busca pelo minimalismo essencial. Um show é diferente de uma gravação, e João Gilberto parece pretender que seu show seja uma obra perfeita, um Tintoretto muito curtido pelo vento da ponte do Rialto.
Ele sabe de sua reputação, e não lhe dá a minima.“Dizem que eu canto sempre as mesmas músicas velhas”, afirmou num desses shows. “Mas as notas são mais velhas que as músicas, e são sempre as mesmas notas”, e lembrou marotamente que Frank Sinatra cantava todo o tempo Cheek to Cheek e isso era visto com naturalidade.
Seus shows são happenings sociais. Dá para ouvir o estômago do vizinho da cadeira ao lado roncando. As pessoas parecem desconfortáveis, inclinam-se para a frente para ouvir melhor, riem nervosamente quando ele começa a impacientar-se com algum detalhe acústico. É um público que não detestaria João mesmo que ele quebrasse o violão em suas cabeças.
Eu, particularmente, adoro o modo como João Gilberto lida com o som. Em Doralice, ele estica os esses como a cobra insidiosa do desenho animado Mogli. Em Desafinado, ele emenda as palavras e cria neologismos melódicos (“revelou-se a suenormingratidão!”). Em Estate, ele mastiga o italiano como se o devorasse antropofagicamente: (“la neve copprirà tuuuuuutte le cose”). Enfatiza as primeiras sílabas. “Sóóóó um nooovo amor, pode a saudade aaaapagar.” E se dá ao luxo de inventar onomatopeia para preencher espaço de uma nota que ele porventura tenha pulado ao cantar Pra Machucar Meu Coração (“Pra bróóóóó machucar meu coraçããão!”).
Para João Gilberto, o som é o único soberano; o som e a modulação infinita dos sons em sua voz e seu violão. Não é tanto a palavra, mas o som da palavra, e é ilustrativa a história que ele mesmo conta frequentemente, do dia em que ficou afônico, e que, quando abriu a boca para cantar um samba, fez apenas uhmmmmm!.
O outro mito a respeito dele é o que diz que João não erra. Sim, ele erra. Já o ouvi cantar “intregar”, em vez de integrar, na letra de O Nosso Olhar. Ele disfarçou e seguiu adiante, sem se incomodar. Ele afina o violão quando não parece necessário, mas ninguém vai discutir com João, certo?
João é
chato, dizem os seus mais tolos detratores. Eu o acho divertidíssimo. O público
ri muito, seja quando ele fala o primeiro quém-quém de O Pato, seja quando ele canta 13
de Ouro, que fala da “nega macumbeira” que prevê riqueza para o cidadão que
quebrar prato ou copo. Não é tanto pela letra que riem, mas pelo próprio jeito
debochado que João dá às palavras, porque ele também se diverte. No fundo, ele
se diverte tanto quando a gente.
Texto publicado em 2011 no antigo emprego

4 comentários:
Muito bom seu comentário. Parabéns ! O JOÂO merece mesmo todas as nossas homenagens! Um ícone. Para mim , talvez, uma das mais importantes pessoas do nosso querido Brasil. UNIVERSAL. Insubstituível. Paulo Mercer - Curitiba
Coincidência, esse cara foi a luz de várias gerações e pra mim, abaixo de Deus, estava João. Hoje de manhã, depois de quase dois anos sem pegar no violão acordei com uma vontade retada de tocar Bossa nova e toquei até a hora do jogo da Argentina, lá pelas quatro da tarde. Naquele momento, ele passou a viver ao lado de Deus. Pronto, agora os dois estão para mim, em pé de igualdade. Obrigado João!
oi
Quer dizer, puxou um monte de disciplinas durante o EAD, colou à beça na prova e agora se formou como farmacêutica, graças à cola, graças ao Photomath. Você ainda foi monitora de química analítica experimental 1 e 2, será que você ensinou os outros alunos a colarem a prova usando o Photomath também?
Você nem deve se lembrar de mim, eu sou uma das pessoas que você abandonou em orgânica 1 durante o EAD, você passou colando em cálculo para a farmácia usando Photomath, me fez acreditar que eu podia passar na faculdade sem estudar, quando chegou no semestre seguinte em orgânica 1, você decidiu que não iria me dar cola, então eu fiquei reprovado em orgânica 1. Por sua culpa, eu estou com a minha graduação toda atrasada. Fez o que fez comigo e nada aconteceu com você.
Será que o pessoal do Laboratório de Análises Avançadas em Bioquímica e Biologia Molecular, onde você fez iniciação científica, sabe que o seu CR era 7, graças a você ter colado em cálculo para a farmácia usando o Photomath?
Você é a prova que vale a pena colar na prova, que a coordenação da farmácia da UFRJ fecha os olhos para as pessoas, que colam na prova feito você.
Por causa da sua queixinha que você foi fazer na coordenação da farmácia junto com o Gabriel Vasconcelos de Lucena, Camilly Enes Trindade e a Julia Tavares de Azevedo, algum FDP da coordenação da farmácia vazou as minhas informações pessoais para uma pessoa que nem me conhece e nem estuda mais na UFRJ.
Pode mandar o seu amigo, o Guilherme de Sousa Barbosa que me ameaçou, mesmo sem eu ter feito nada contra ele, me matar, manda o Guilherme de Sousa Barbosa aparecer na boca de fumo que tem aqui perto de casa e mandar os traficantes me matar, aqui do lado da minha casa funciona um ferro velho clandestino que fornece material furtado para os traficantes construírem barricadas.
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