domingo, 2 de setembro de 2018

VOADORA NA PLEURA



Com o grande Ednardo, no Cantinho do Frango, em Fortaleza, na sexta







Vou contar como foram as últimas 24 horas da minha vida porque, juro por Deus, nunca tinha acontecido tanta coisa num período de tempo tão curto.

Cheguei ao Ceará às 12h30 e Dalwton Moura, cantor, produtor, compositor, violonista e cronista foi me buscar no aeroporto. Tinha me perguntado o que gostaria de comer na chegada a Fortaleza e especulou sobre duas opções que pareceriam inegociáveis para qualquer turista: peixes e frutos do mar. Mas eu disse, com sinceridade, que sonhava com carne de sol e macaxeira. Ele sentenciou: “Então, só tem um lugar: Cantinho do Frango”.

Apenas quinze minutos no Cantinho do Frango e parecia que eu já era amigo de décadas de Caio Napoleão, o dono do negócio, que me foi apresentado já na entrada. Caio ama a música de um jeito radical, tipo o amor que o Richard Gere tem pela música de Jerry Lee Lewis em Breathless. Entre todas suas paixões, pontifica a que dedica a Rodger Rogério, um dos mais notáveis capitães de areia do Pessoal do Ceará. Possui por ali, nas estantes do local, mais de 3 mil discos de artistas do Ceará. Por causa disso, o restaurante estabeleceu uma hierarquização de pôsteres de artistas lendários em suas paredes seguindo a seguinte ordem: Rodger Rogério, Miles Davis, Jimi Hendrix, Mick Jagger. Rodger Rogério é Deus no Cantinho do Frango. Eric Clapton é semideus.

Apenas outros vinte minutos no Cantinho do Frango e eis que dirige-se à minha mesa um homem de boina magro que caminha de um jeito balnear, como se levitasse sobre água. Era Ednardo, o lendário artista que legou à história da música o disco O Romance do Pavão Mysteriozo, em 1974. Ednardo vinha com a filha, a atriz e cantora Joana Limaverde. Demorou uns minutos para Ednardo me reconhecer e aí eu lhe dei um abraço de fã, de profundo agradecimento por toda lealdade quando eu escrevia Apenas um Rapaz Latino-Americano. Sentou-se do meu lado e pediu vinho tinto, enquanto eu tomava uma sucessão das batidas de cachaça de Caio Napoleão: Alucinação, Mucuripe e a imponderável Voadora na Pleura (vodca, tangerina, abacaxi e melaço de cana).

Seguimos ali falando de canções, da suavidade de Rodger Rogério, da misteriosa saga de Belchior, dos parceiros todos dessa turma. Ednardo foi ficando e só saiu dali porque tinha um encontro com o governador e não podia mesmo ficar mais. Foi então que sentou-se à nossa mesa outra figura magnífica: Yuri Kalil, produtor de uns 60% da nova cena da música brasileira que pontificou a partir de 2001, 2002: Marcelo Jeneci, Céu, Thiago Pethit, Otto. Kalil morou durante muitos anos em São Paulo, quando montou aqui o Totem Estúdio. Também é o baterista da banda Cidadão Instigado.

De volta a Fortaleza, Kalil instalou-se num prédio histórico no centro da cidade, o Edifício Dona Bela, da década de 1950, o primeiro condomínio residencial de Fortaleza. Ali segue produzindo a nata da música, naquele ambiente meio Bleecker Street. No andar de baixo do seu estúdio, vive o músico Fernando Catatau, que toca com Kalil no Cidadão Instigado e co-produziu, entre outros, o lindo disco Afastamento, de Juliano Gauche. Na esquina da casa de Kalil fica um lugar do qual escapam luzes hipnóticas. É o Salão das Ilusões, na Rua Coronel Ferraz, 80. Ali é um ponto luminoso de performances, debates, exibições de vídeos de dança, intervenções e improvisações artísticas.

Caio, que tinha abandonado o restaurante para nos seguir Fortaleza adentro, levou dois engradados de Heineken do Cantinho do Frango e nós entramos no estúdio para ouvir discos e tomar cerveja, não necessariamente nessa ordem. Ouvimos inteirinho o álbum Praia Futuro, um disco de supergrupo que reuniu em 2017, além de Kalil, o saxofonista e compositor sueco turco Ilhan Ersahin; Dengue, da Nação Zumbi; e Fernando Catatau e Kalil, do Cidadão Instigado. Ilhan Ersahin é fundador do Nublu, o clube e gravadora independente de Nova York (e, posteriormente, festival de jazz que alcançou já o Brasil há um tempo).

Ganhei o vinil de Praia Futuro, que é lindo e quase ninguém conhece. Ali mesmo no estúdio Totem, em Fortaleza, cuja antesala é o estúdio de dança de Lenna Beauty (mulher de Kalil) e as sombras das bailarinas ficam recortadas na janela enquanto o Kalil grava, o quarteto Praia Futuro trabalhou em imersão durante dois dias, fazendo uma jam memorável com temas improváveis como Roberto Carlos.

Aí então apareceu Gabriel  Aragão, vocalista do grupo Selvagens à Procura de Lei, uma banda de garotos de Fortaleza que ganhou o Brasil nos últimos tempos, fazendo shows para até 10 mil pessoas. Tocou em março no Lollapalooza, em São Paulo, e também tocou em Moscou durante a Copa do Mundo. Ele veio colocar a voz numa faixa e depois dividiu uma cerveja com a gente.

Estava caindo a noite, chegava a hora de ir para o Theatro José de Alencar, para o show Futuro & Memória, aglutinação de intérpretes raros da música cearense para o batismo de uma série de canções da dupla Rogério Franco e Dalwton Moura, meu anfitrião na jornada. Eudes Fraga, Kátia Freitas, Rodger e Téti: quanto talento cabe numa única parabólica do mundo?

Mas, antes ainda do Theatro José de Alencar, Caio e Kalil me convidaram para sair caminhando pelo centro para conhecer o Lions, um bar que tem feito história na Praça dos Leões, com suas festas e o cenário de quase memória. Lembra muito o Chico Discos de São Luís, mas é menos cifrado que o maranhense, mais aberto. Ali, encontramos e dividimos cerveja com uma dezena de militantes que vinham do comício de Fernando Haddad na cidade, e debatemos suavemente política e reconquista democrática.
No Theatro José de Alencar, encontrei  Gildomar Marinho e a poeta Shirlene Holanda, que me ciceronearam pelas canções da noite. Em pleno show, a filha criança de Calé Alencar subiu ao palco enquanto ele cantava, pegou o seu triângulo e ajudou na percussão.

Eu ainda diria mais, mas a Voadora na Pleura tinha me derrubado de tal modo que quando finalmente dei entrada no Hotel Americas, logo após o show, eu desabei (mal tive tempo de dizer para o Careca no whatsapp que eu tinha tomado uma com o Ednardo).

Acordei no dia seguinte e fui ao Mercado Central para comprar alpercatas. Ali onde nada pareceria me ser apresentado de renovador eu ainda tomei conhecimento de um artista excepcional: Diógenes Alencar, que molda caricaturas de artistas no barro, como Zé Ramalho e Chico Anysio.

Ali no mercado eu me perdi do meu celular, mas antes disso combinei com Dalwton de ele me levar para Pax Lachaise, como eu tava chamando o cemitério Parque da Paz, para fazer um brinde a Antonio Carlos Belchior em frente a sua lápide. Esqueci só do vinho, então fizemos um brinde com suco de uva e copo de plástico e cantamos Todo Sujo de Batom no túmulo do Bigode. Dalwton fez uma foto minha colocando uma rosa na lápide, mas por algum motivo a foto não saiu e nós brincamos: “Mais uma do Bel!”.

De volta ao Cantinho do Frango, em busca de uma despedida suave da Voadora na Pleura, encontro já na beira da churrasqueira os garçons e DJs Marquinhos e Barry White, sempre com uma façanha nova para contar. De repente, dou de cara com Jorge Mello, notável frontman da música cearense, que faria show à noite no restaurante. Morremos de rir dos apelidos infames da MPB que descobrimos ali com o pessoal  (Nasceu Valença e Morrerás Moreira, entre outros menos citáveis).

Conosco estava o guitarrista, compositor, arranjador e diretor musical Mimi Rocha, que tocou com Belchior, Ednardo e outros e é fiel escudeiro de Fagner. Mimi Rocha contou grandes histórias sobre Terry Winter, Michael Sullivan, Ralf Richardson e outros brasileiros que gravaram em inglês nos anos 1970. Mimi estava deixando a barba crescer apenas para poder ser navalhado no domingo durante a inauguração da barbearia que Caio Napoleão inaugurou no coração do seu restaurante, com aquelas cadeiras vintage de barbeiro.

Súbito, mais duas surpresas: sentam-se nas cadeiras da barbearia, espécie de lounge do restaurante, o compositor, cantor e arquiteto Fausto Nilo e o colega Zé Renato (do não menos mitológico grupo Boca Livre, em turnê pela cidade). Dou um abraço no Fausto, um desses prodígios brasileiros que mais alegraram o espírito nacional. Ele compôs, por exemplo, Bloco do Prazer e Meninas do Brasil, com Moraes Moreira; compôs Zanzibar, com Armandinho; compôs Tudo com você, com Lulu Santos; Paroara, com Chico Buarque e Fagner; Amor nas estrelas, com Roberto de Carvalho.
“Teve um momento, nos anos 1970, que você ligava o dial do rádio e em quase todas as estações encontrava uma música do Fausto Nilo tocando”, disse Mimi Rocha.

Teve mais gente nessa levada. O rapper paulista Dexter baixou na casa para um frango assado e veio nos abraçar. Fiquei conhecendo as histórias fabulosas do mito Chico Pio, músico e compositor talentoso da segunda leva do Pessoal do Ceará que, quem sabe, talvez tenha sido subestimado pela História.

O poeta Ricardo Kelmer ainda apareceu para me contar que está organizando o GEBEL (Grupo de Estudos de Belchior) para debater as canções e o legado do bardo do bigode. Gente de Sobral, gente de Quixeramobim, da Vila Madalena, de Pinheiros, do Leblon: o País vibrava ali naquelas 24 horas de Fortaleza. 

Talvez eu esteja enganado, mas ainda não conheci um restaurante com tanta alma quando o Cantinho do Frango de Fortaleza.

4 comentários:

RICARDO KELMER disse...

Belo e fiel registro, mizifio. O Cantinho do Frango é uma ZCC (Zona de Convergência Cultural). Um brinde a você a Belchior. :-)
Ricardo Kelmer - blogdokelmer.com

Unknown disse...

Essas coisas só acontecem com esse pessoal que nasce,vive,vai e volta por que e do Ceará.

aas. disse...

oi sobrinho quando foi esse evento do ceara maravilhoso pelo que li inesquecivel nâo e pra qualquer um parabens voce merece. sim vamos falar da viagem pra PARAIBA ME INTERESSA ESSE PASSEIO QUERO SER SEU CICERONE LA TE MOSTRAR PINTURAS RUPESTRES LA NO POÇÂO E A PEDRA DO CALCANHAR LA ONDE EU FUI CRIADO EMUITAS VEZES COLOQUEI MEU CALCANHAR DENTRO DELA UM GRANDE ABRAÇO E NOS FALAREMOS DEPOIS OK BEIJOS

el pájaro que come piedra disse...

Bora, Tota!