quarta-feira, 26 de abril de 2017

JACK

jack dando banho no meu pai



Os bombeiros ligaram as sirenes de seus caminhões quando começamos a caminhada. O professor Guerreiro tocou ao violão uma versão acachapante de Wish You Were Here. Os amigos de bandas também estavam lá e tocaram Raulzito e Tim Maia. Nino trouxe uma camiseta do Led Zeppelin e cobriu seu peito com ela. Também estendeu um estandarte do Palmeiras. A turma de escola da Duda pediu para vir visitar e, em fila indiana, crianças entravam e saíam chorando da sala. As crianças o amavam. Veio gente muito jovem e gente muito idosa, e um cachorro passeou pelo meio das pessoas, como um amigo íntimo.

“Escreve algo lindo para ele, pai”, tinha me pedido Laura um pouco antes do embarque para o funeral, em Congonhas, enquanto comíamos uma refeição que descia como pedra no meu estômago. “Não consigo, filha”, respondi. Eu sentia que nunca conseguiria, me parecia uma heresia usar meu instrumento comezinho de ganhar a vida para falar do meu irmão, ele era muito maior que os truques de redação, a vaidade empostada do textão, o jogo de montagem de palavras do Word.

Mas, conforme o carro atravessava o céu flamejante sobre a ponte do Rio Ivaí, na segunda-feira, eu começava a me dar conta que era inescapável escrever algo. Porque as coisas da nossa vida vinham à minha cabeça pedindo para fugir, um torvelinho de imagens, um slide show sem cronologia. E também porque Jack era meu maior leitor, ele teria sentido falta.

Jack foi um heroi de verdade. O único que conheci em minha vida. Com apenas 11 anos, ele se atirou sobre meu pai para evitar que batesse em minha mãe, e foi surrado e expulso de casa. Esconderam-no na casa do Tio Zé, em Umuarama, até que minha mãe fez meu pai fingir que o perdoara. No final da vida, ele cuidou do meu pai e providenciou que ele tivesse uma sobrevida que nunca teria tido se não fosse aquele afeto.

Nessa mesma época, fomos tomar banho no rio que passava sob os trilhos do trem. Apareceu um cara, já com uns 18 anos, bem mais velho, que ficou puxando conversa. Quando íamos voltando, o cara veio nos seguindo. Eu andava um pouco à frente. Olhei para trás e vi que o sujeito puxara uma faca e foi para cima do Jack. Jack usou a camiseta como um lenço de toureiro e a faca rasgou a camiseta. Eu enchi as mãos de pedra brita e desferi uma saraivada de pedras no cara, que recuou. Jack também se armou e o expulsamos para o mato.

Na era da discothèque, minha irmã Salete fez roupas para a gente copiando os modelos que o Tony Manero usava nos Embalos de Sábado à Noite. Minha irmã Neide nos ensinava a dançar. A gente andava imitando os maneirismos de Travolta. Foi quando sacamos que Jack era o próprio Tony Manero. Era um Travolta de arribação, nosso sorridente transgressor de punhos de aço. Tinha um imã para a sedução e outro para a encrenca.

Jack sempre abrigou os outsiders. Quando moleque, ele se tornou amigo de um garoto chamado Dé, que andava descalço e tinha um cachorro feio de nariz vermelho que pingava, como se gripado. Ninguém queria ser amigo do Dé, mas o Jack era. Dé era a sua sombra. Nesta terça, na despedida de Jack, duas figuras vieram me dizer que tinham perdido seu único amigo. Uma delas foi o Futata, que me chamou para segui-lo. Eu fui, e ele me levou até o Bar do Du. “Ele me trazia aqui toda vez que eu o visitava, e a gente comia torresmo e tomava cerveja. E depois jogava sinuca”. Imitei todo o percurso, comi o torresmo, tomei a cerveja e joguei com o Futata. Empatamos a partida em um a um.

Em Curitiba, em 1980, Jack e meu primo Edson baixaram na quitinete que eu alugara na Cruz Machado. Para ficar. Ouvíamos Hurricane o dia todo e alimentávamos a esperança de um convite para bailes de debutantes lá no Batel. Éramos tão famintos que Jack e Edson planejaram uma vez matar uns patos do Passeio Público para comermos. 

Jack era tão destemido quanto maluco. Quando voltou da Legião Estrangeira (serviu em Marselha, essa é uma longa história), ficou uns dias na casa de um outro soldado que deu baixa. Escrevi para lá, já fazia um ano que não tinha notícias dele. Era o endereço que tinha no envelope que chegara em casa com um hinário de canções da Legião. Escrevi em português, para o Jack. Um francês me escreveu de volta em um papel datilografado, que guardo até hoje: “Jack saiu de casa há uns 5 dias. Tinha 400 francos no bolso e botas quentes. Disse que ia para Barcelona”.

Quando regressou ao Brasil, Jack bateu na porta de minha casa em São Paulo. Toda hora revirava a mochila em busca de algo. Eu perguntei o que era e ele disse: “Meu hâmster. Sumiu no dia em que eu tava embarcando para cá”. Dois dias depois, algo fedia tanto no quarto que ele achou o hâmster morto dentro das suas botas de neve de legionário.

Ao voltar ao Paraná, foi de carona até São Jorge do Patrocínio e, ele e meu irmão Marcelo, quando passavam em frente à delegacia de Altônia, dois policiais do destacamento implicaram com a mochila de andarilho que ele levava às costas e lhe deram voz de prisão. Dentro da delegacia, o sargentinho cometeu a burrice de dar um sopapo no Jack, que se virou e lhe deu um soco tão potente que o cara apagou. Os outros dois vieram e foram igualmente moídos na pancada. O pequeno destacamento estava destroçado, na frente do apavorado delegado. O caçula da família, Marcelo, pediu que Jack fosse razoável e se entregasse. Ele colocou as mãos para a frente e o algemaram. Tentaram bater nele de novo, e ele pegou um cabo de vassoura e desceu o sarrafo, mesmo algemado, e os encurralou num canto. Colocaram na cela do cara que diziam que era o mais perigoso. Ele e o cara ficaram amigos. No dia seguinte, o Futata (o mesmo da sinuca e do torresmo) foi até a delegacia com um advogado, pagou a fiança e soltaram meu irmão.  

Eu lembrei do Jack vindo à minha casa em Curitiba, no tempo em que trabalhou numa agência do Bamerindus em que eu tinha conta: “Peguei sua ficha no banco. Já tinha três carimbos de cheques devolvidos. Rasguei”.  Mas Jack, eu ponderei, isso pode te trazer problemas, porque fez isso? “Fichas somem todo dia. Não tem problema”. Fizera aquilo para evitar que eu fosse bloqueado pelo Banco Central.

Em São Paulo, certa vez, ele e meu irmão caçula, Marcelo, vinham descendo uma rua ali paralela à Consolação quando ralaram um carro estacionado. Ao pararem para ver o que tinham feito, três brucutus começaram a bater neles com uma trava de volante. Eles reagiram e trituravam os caras quando uma viatura da PM chegou e deu voz de prisão. Pegou seus documentos e mandou que os seguissem ao DP. Eles seguiram duas quadras, viraram à esquerda e fugiram. Eu estava de plantão na redação, na Barão de Limeira, quando me chamaram da portaria. Pedi e o Tognolli resolveu a parada com um telefonema para o delegado, que os chamou para uma bronca e devolveu os documentos. 

Jack trabalhou para a máfia coreana do Bom Retiro, colheu maçãs no Sul da França, foi frentista noturno do Posto São Jorge, alimentou uma infinidade de gatos e cães da rua, foi dono do mais impressionante sebo de discos do País, fez móveis rústicos nos fundos de casa para vender e chorou quando assistimos The Doors com o vocalista do Cult, Ian Astbury, no antigo Credicard Hall.

Seu nome veio de Jackson do Pandeiro, que minha mãe curtia. Seus muitos sobrinhos foram todos influenciados por ele: Alessandro, Diego, Guga, Guilherme, Michele, Claudia, Paulinho (muito), Paulo de Célia, Cris, Marlon (muito), Tê, Matt, Lau e finalmente o pequeno Bento, último a reivindicar sua atenção exclusiva por dois dias inteiros.

Marcelo, nosso caçula, se tornou subtenente do Corpo de Bombeiros. Mas não foi por lealdade ao oficial Medeiros que todo o Corpo de Bombeiros foi até a despedida: todos amavam Jack verdadeiramente. Vieram todos uniformizados, com suas viaturas muito limpas e as calças bem passadas. Eu não pude evitar o clichê (e Jack não tava nem aí para clichês, comia com farofa de carneiro) de pensar no poema de Auden, especialmente a parte dos policiais com luvas pretas de algodão:

Parem os relógios
Cortem o telefone
Impeçam o cão de latir
Silenciem os pianos e com um toque de tambor tragam o caixão
Venham os pranteadores
Voem em círculos os aviões escrevendo no céu a mensagem:
"Ele está morto"

Ponham laços nos pescoços brancos das pombas
Usem os policiais luvas pretas de algodão.

Ele era meu Norte, meu Sul, meu Leste e Oeste.
Minha semana de trabalho e meu domingo
Meu meio-dia, minha meia-noite.
Minha conversa, minha canção.

Pensei que o amor fosse eterno, enganei-me.
As estrelas são indesejadas agora, dispensem todas.

Embrulhem a lua e desmantelem o sol
Despejem o oceano e varram o bosque
Pois nada mais agora pode servir.



Ele foi aplaudido no final e deixou um vácuo que se alastrava como uma neblina triste no momento em que tivemos que ir embora para nossas casas. Uma das minhas irmãs, não lembro qual, me pediu para agradecer aos presentes quando o corpo de Jack já tinha baixado à sepultura. Eu tentei falar e saiu um uivo medonho. Só consegui dizer que foi lindo, foi tudo muito lindo.



17 comentários:

Anônimo disse...

Linda homenagem!!!! Sou de Umuarama e tive o prazer de conhecer o "Tio Jack" através do Massa. Com certeza Jack aproveitou muito a vida e agora tem seu descanso merecido nos braços do PAI. Muita força a todos!

Anônimo disse...

...continuando relato acima...
O pouco que estive com Jack, pude notar sua hombridade, um ser humano de coração ímpar...
Sabrina (Umuarama)

Juvenal disse...

Um salve pro Jack!

Chico Torresmo disse...

Pode-se, após ler esse texto, dizer parafraseando Guimarães Rosa: Jackson encantou-se!

André Renon disse...

Presente dos Deuses ter tido Jack em nossas vidas!!! Lembro do acidente que sofremos, eu, ele e meu irmão Nino...teve fratura exposta na perna e precisou operar, ficou mais de 30 dias na Santa Casa de SP...com 15 dias lá já era o mais conhecido de todo o prédio e organizava uma manifestação e uma rebelião pela demora em sua cirurgia...visitava ele quase todos os dias e sempre sorrindo, nunca deixou de sorrir que era sua marca registrada!!! Difícil imaginar o mundo agora sem sua marcante presença...Obrigado Jack!! Obrigado.

Ademir Assunção disse...

Jack já está bebericando um Jack para festejar teu lindo texto e o afeto desmedido, Jota.

fireman_jitsu disse...

Escrever um texto sobre o cara mais maneiro do mundo é fácil,,,

Anônimo disse...

Elaine disse:"Nós todos somos insignificantes perante o Jack!", ele fazia cada um sentir se único, dava real atenção às pessoas, amealhou problemas de todos, meu irmão não foi uma pessoa, ele era uma entidade de luz! Devia ter o alforge carregado e foi esvasiá-lo!

chicoadrenalina disse...

Num mundo cheio de coisas e pessoas fúteis , o sorriso marcante e o coração enorme do Jack já estão fazendo falta.

Anônimo disse...

Um Grande Salve pra Jack um cara sensasional de se conversa...

vagner disse...

Uma vez minha namorada disse para mim em uma das grandes festas na casa do Jack: "Nossa, o Nino também é o melhor amigo do Jack?!" Com inveja na alma, olhei para ela, depois para o Jack e disse bem alto: "É verdade, o Nino é nosso melhor amigo, não é não Jack?". Dai rimos todos. Saudade sem tamanho dessa única e incrível alma que foi o nosso Jackson. A gente se vê, amigo.

Marcia disse...

Voce contou a história de uma só pessoa? Que longa vida ele teve! Marcou com certeza a vida de todos que o conheceram. Lindos olhos inebriantes e sorriso largo. Viveu vida plena. Linda homenagem primo.

Cris Bezerra disse...

Me ensinou a reconhecer os rítmos, a dançar e a curtir boa música. Foi meu irmão, confidente, parceiro de dança e a nunca admitir que namorado nenhum me desrespeitasse (ouvi isso quando eu tinha 15 anos). Ensinou o que é ser leve, a dar valor as coisas simples da vida e principalmente, que o amor que sinto por ele é eterno.

Flavio Lanaro disse...

Meus pêsames JB. Não deve ter dor mais doida. Espero estar pronto pra ela. Abs

Anônimo disse...

Que imenso prazer eu tive de conhecer esse grande homem. Cada segundo valeu a pena. Ele contava todo mundo que estava ao redor com a sua felicidade.

Anônimo disse...

Essa camiseta eu dei pra ele e pra variar usava-a sem parar, pois estávamos numa fase bem Pearl Jam. Levei para ele também sua última camiseta preta Rock´n´Roll, com a qual seguiu, com toda pompa e circunstância, sua jornada rumo ao infinito e além!!!!

gisornas disse...

O sebo em Cianorte, lugar onde conheci o Jack. Passava minhas férias lá pesquisando livros para minha monografia sobre rock progressivo. Jack me ajudou muito!! Valeu Jack!!! Saudade...