sexta-feira, 11 de setembro de 2015

MASHA E O URSO




Quando estava com 1 ano e 6 meses, descobriu Masha e o Urso. Chama apenas de “mashaurso”. No início, desconfiamos. Não tanto pela capacidade de abdução da TV, que não nos assusta – a consciência média burguesa gelatinosa das escolas privadas nos aterroriza mais, das “alternativas” de R$ 2 mil por mês às hipercompetitivas da era das taras de startups. O problema é que quase não tem desenho bom nos canais infantis da TV. Pelo menos eu não tinha visto.

Masha e o Urso é um desenho russo. Como quase nada sei sobre o universo cultural russo, fiquei com certa prevenção.

Masha é uma menina de uns 3 anos que, como toda menina de 3 anos, fala pelos cotovelos, repete as mesmas brincadeiras indefinidamente e parece que tem uma pilha Duracell nas costas, nunca se cansa.

Ela se torna amiga (à revelia do amigo) de um sujeito solteiro, misantropo, que joga xadrez consigo mesmo, gosta de velhos boleros, faz tudo que necessita para si (cozinha, costura, lava e faz reparos no telhado) e vive num isolamento quase doloroso. Claro, como não poderia deixar de ser, em se tratando da Rússia, ele é um urso.

Masha entra na vida do urso sem que ele jamais tivesse pretendido que entrasse.
Em torno de suas rotinas, encontramos apenas um coelho, um esquilo, um bode, um leitão (que Masha chama de “meu bebê”) e um chinês (um urso panda).
Tem também dois lobos que moram em uma velha ambulância de emergência médica quebrada no alto de um morro. Seu papel me intriga: parecem vizinhos hippies sem qualidades aparentes, mas em um dos episódios eu descobri que são prestativos e até sabem alguns macetes de dentistas.

Obviamente, todos são metáforas de figuras de adultos que gravitam em torno de uma criança. Masha se mete na vida de todo mundo, chega mesmo a tentar ajudar o urso a driblar sua desastrosa gestão da vida amorosa.

Há todo tipo de mérito em Masha, da trilha sonora à própria animação, que é primorosa. Teve um episódio em que o leitão estava posando de veranista, e na hora que ele mergulha numa poça de lama a “câmera” o filma do fundo da poça, como se fosse um documentário da vida submarina.

Masha se veste como uma boneca matrioshka, o que pode indicar algum ranço folclórico, mas é ultrapop – tem outro episódio em que Masha quebra a TV e, com medo da reação do urso, entra no miolo do aparelho e interpreta com um amigo uma grande sequência de filmes de Hollywood (como Jack Black naquele filme Rebonine, Por Favor).

Masha vive numa casa enorme, mas nunca se vê adultos tomando conta dela. Ela se cuida sozinha, o que talvez explique sua hiperatividade - um tipo de antídoto para o abandono. Ela tem uma risada ardida e o urso aposentado não fala, apenas resmunga. 

De um lirismo absurdo, Masha e o Urso. Tenho visto mais que o bebê. Não procurei ler nada sobre o desenho, mas sei que o descobrimos tarde, já existe um culto em torno dele.

Quase todos os desenhos infantis da atualidade são alicerçados em nonsense e ação frenética. Não é que eu ache ruim, mas em geral o efeito é meio tedioso, não tem picardia, não tem artesanato, resulta debilóide. E há os que são fundados basicamente em boas intenções, são didáticos, professorais, chatinhos.
É raro encontrar um desenho que tenha a história como trunfo ou que tenha como estrutura simplesmente uma metáfora básica, tipo um bom blues. Isso nem existe mais. É uma bênção saber que tem gente fazendo algo como Masha e o Urso em outra parte desse mundão.




MASHA E O URSO
Boomerang
20h, todo dia

Um comentário:

Unknown disse...

Tenho uma neta de quase 3 anos, que também é fã da Masha - e, de quebra, eu e o pessoal de casa. Impossível não enxergar a semelhança entre a personagem e ela... rs E entre os animais e a gente... Quando não sintonizamos pela TV, assistimos pelo Youtube os originais em russo. Parece-me ser um personagem folclórico mesmo, uma menina criada na selva por urso, coisa assim - dá para encontrar algumas referências sobre isso na internet. Parabéns, Jotabê, por nos brindar com um texto sobre a Masha e o Urso!!