domingo, 12 de julho de 2015

SOUL E SOL & BLUES EM IGUAPE





Tia Carroll é uma soul singer cigana, estradeira.

Na tarde do dia do seu show, ela estava sentada num banco da praça do centro histórico de Iguape, jogando conversa fora com amigas recém-feitas e misturando-se à rotina da cidade.
De noite, ela subiu ao tablado escoltada por uma banda de "mercenários" brasileiros, que encaram qualquer parada. Pareciam os Dap-Kings em sua missão de resgate (em geral, Igor Prado é quem a acompanha, mas ele tinha uma turnê pela Europa e escalou outro time, irrepreensível).
Resultado: ela cantou I'd Rather Go Blind no meio da plateia, que fazia selfies com ela enquanto a cantora debulhava os versos eternizados por Etta James. E ainda mandou um corolário de covers: Purple Rain, Come Together, Satisfaction. Duas horas e meia de espetáculo, uma heroína. Quando ela empunha os versos "i'm a blueswoman", está ali algo que não pode ser rebatido, uma verdade inquestionável.
Tia Carroll tem a poeira da estrada na garganta.
Na manhã seguinte, ela embarcou, tinha show no dia seguinte à noite. No dia 25, estará de volta aos Estados Unidos, cantando em San Jose, na Califórnia. Rala para ganhar a vida, mas seu entusiasmo e notável fidelidade para com o legado de Aretha Franklin é de emocionar.

Henry Gray, de 90 anos, chegou na tarde de sábado ao Vale do Ribeira com um cajado em forma de serpente e uma gravata em forma de teclado de piano.

Comeu carne na praça e caminhou pela praça como se fosse um homem comum, mas os fãs sabiam que não era: o homem tocou com Howlin' Wolf, Muddy Waters, B.B. King, Otis Rush, Koko Taylor, Buddy Guy. 
E seu marfim é testemunha da História da música americana no último século. Tocou com Elmore James na noite em que este morreria.
Ao encontrar o trombonista Raul de Souza na calçada, Gray interpelou o brasileiro: "Você, eu já vi você tocar! Você é muito bom!".
90 anos, senhoras e senhores! Completados em janeiro.
De noite, impecável em seu terno de turnê, Henry Gray se fez acompanhar por outra banda de mercenários, dessa vez argentinos, e magnetizou a noite. A chuva parou para que nada pudesse atrapalhar o velho bluesman.
Tocou Blues Won't Let me Be, Dust My Broom, entre outros clássicos, e martelava o piano com velocidade e aquele estilo ardido dos sulistas, um boogie-woogie que está na base do rock'n'roll. Ele ajudou a moldar o estilo do piano de Chicago.
Nesse momento, enquanto leem isso, Henry Gray e mais uma pá de artistas que ajudaram a fazer a primeira edição do Iguape Jazz & Blues Festival fazem uma jam fabulosa no crepúsculo de Iguape, na estrada para a Juréia, no bar Toca do Bugio. Estarei lá em espírito.



Um comentário:

Claudiana Vieira disse...

Foi muuuuito bom!!! Artistas de alta qualidade, um som agradável, uma paisagem propícia para curtir o momento e a companhia de amigos e novos amigos... sou iguapense e fiquei encantada com o final de semana que certamente ficará marcado na nossa história.