sexta-feira, 20 de março de 2015

O QUE É QUE FAZ COM ISSO AQUI?





Assis Ângelo me ligou na segunda-feira. Estava acelerado. Falou de muitos assuntos em poucos minutos, um atropelando o outro.

“Com a morte de Inezita, o Brasil não tem mais folcloristas. Acabou isso”, desabafou. “Todos os acervos estão indo para institutos, que mercantilizam o acesso, e as coisas são manuseadas por gente que não tem o menor conhecimento daquilo que está tratando”.

Assis é um dos caras mais suaves e doces que eu conheço, é um dos últimos cavalheiros, incapaz de maltratar quem quer que seja – seja por motivo fútil ou motivo fundamental. Assis me apresentou Mocinha de Passira e me possibilitou o acesso a Geraldo Vandré.

Eu senti que havia algo errado com ele naquela manhã, tinha uma angústia mal disfarçada na sua voz.

“O Brasil não está se discutindo, o Brasil está berrando! Nos tornamos um povo mal educado”, ele continuou.

Eu elogiei uma participação dele no Jornal da Cultura, há alguns dias. Ele relaxou e riu e disse com uma naturalidade espantosa:

“Acabo de vir do Hospital das Clínicas, os médicos me desenganaram. Mandaram eu começar a estudar braile, vou ficar cego. Imagine você, eu começar tudo aos 63 anos, reiniciar tudo? Na verdade, já estou cego, vejo uma réstia, sombras, e de noite é tudo breu. Eu me agarro desesperadamente a essa réstia”.

Ele sofreu deslocamento de retina há uns dois anos. Fez 6 cirurgias no olho direito e três no olho esquerdo. Não adiantou.

O problema é que Assis é um arquivo vivo da cultura nacional.

São famosos os saraus que promove em sua casa, e que reúnem gente como Theo de Barros, Celma e Célia, Vital Farias, Jarbas Mariz, Osvaldinho da Cuíca, Papete, Darlan Ferreira, Mário Albanese, entre outros. É amigo de Fagner, de Zé Ramalho, de Alceu Valença, Tom Zé, de Geraldinho Azevedo. Conheceu Gonzagão, Patativa, João Pacífico.

Nascido em 27 de setembro de 1952 em João Pessoa, na Paraíba, Assis chegou a São Paulo em 1976 e se tornou um farol para todo jornalista que queira escrever sobre diversos temas ligados ao folclore e à cultura nacionais. É jornalista, radialista, folclorista, escritor, produtor, agitador cultural. Seu acervo acode estudantes universitários em busca de subsídios para seus TCCs, e são inúmeros pedidos.

Escreveu 14 livros, entre eles o clássico A Presença dos Cordelistas e Contadores Repentistas em São Paulo (Ibrasa, 1996), O Poeta do Povo – Vida e Obra de Patativa do Assaré (CPC-Umes) e Eu Vou Contar pra Vocês (biografia de Luiz Gonzaga, 1990).

“Eu falo muito, não falo?”, ele perguntou. Eu: “Você fala porque tem o que dizer, nunca diz besteira”.

Prestes a ficar totalmente cego, o que o deixa agoniado é a preocupação com o destino do acervo que reuniu no Instituto Memória Brasil (IMB), que reúne cerca de 150 mil itens em seu apartamento nos Campos Elíseos. Caricaturas de Nássara e outras feras, fotos e discos e livros, autógrafos na parede e memorabilia de toda natureza forram do chão ao teto. Assis tem todas as cerca de mil gravações de Francisco Alves e as cerca de 600 de Luiz Gonzaga. O quarto onde supostamente alguém um dia tenha dormido está abarrotado com 20 mil LPs, CDs, discos de 78 rotações (e outros raríssimos de 76 rotações) e fitas cassete.

“O que é que faz com isso aqui?”, ele me pergunta. “Eu tô aqui que nem calango pulando em cima de uma frigideira”.
Eu respondo: “Vamos dar um jeito nisso, Assis. Vou tentar achar um gancho”.
Ele: “O gancho é o Brasil, o Brasil é o gancho. Isso aqui é o Brasil vivo!”.

Eu sei, Assis. Vamos dar um jeito nisso.

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