sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O GRANDE SHOW DA TEMPORADA




NO PARAÍSO COM OS BLIND BOYS OF ALABAMA

Com 75 anos de carreira, grupo de cantores cegos faz sua primeira apresentação no Brasil no festival Back2Black, na Cidade das Artes, no Rio



Jotabê Medeiros

Eles cantaram para arrecadar fundos para as campanhas ativistas de Martin Luther King nos anos 60, e chegaram aos anos 2000 cantando o tema da série The Wire, da HBO (a música Way Down in the Hole, de Tom Waits). Waits os adora, assim como os Rolling Stones. Gravaram com Peter Gabriel, Tom Petty, Mavis Staples e com a Preservation Hall Jazz Band de New Orleans, outro conjunto histórico.
Com um cartel de 5 prêmios Grammy (e mais dois Lifetime Achievment Awards, e quatro Gospel Music Awards) na bagagem, desembarca neste feriado pela primeira vez no País um dos mais importantes grupos vocais em atividade nos Estados Unidos, The Blind Boys of Alabama. Têm mais de 50 discos de gospel gravados. São atração do Back2Black Festival, que começa nesta sexta-feira no Rio de Janeiro, na Cidade das Artes. Cantam neste sábado, na Grande Sala (dentro do prédio), às 20h30.
São todos cegos. Sua trajetória é heroica. Sua carreira começou há 75 anos no Alabama Institute for the Negro Blind, numa cidadezinha de 15 mil habitantes chamada Talladega.
Em entrevista por telefone ao Estado, Ricky McKinnie, de 60 anos, cantor (e baterista) do grupo, contou que foi influenciado por Buddy Rich (baterista de jazz morto em 1987) e também Buddy Miles (baterista de Jimi Hendrix). Ele integra há 22 anos os Blind Boys of Alabama – é um dos mais antigos na formação (perdendo apenas para Jimmy Carter, que está no grupo desde o seu início, em 1939).
The Blind Boys of Alabama têm o que mostrar: acabam de lançar um novíssimo álbum, I’ll Find a Way, que traz uma canção de Bob Dylan (Every Grain of Sand, do período de conversão cristã de Dylan. Conta com participações de representantes de novas gerações, como Sam Amidon, Mike Lewis, Merril Garbus (do grupo tUnE-yArDs)e Shara Worden (da banda My Brightest Diamond).

No seu novo trabalho, I’ll find a Way, vocês contam com a parceria e a produção de Justin Vernon, do grupo Bon Iver. É um cara de outro campo musical, indie e folk, e vocês são da tradição gospel. Como foi esse encontro?
Quando o conhecemos, nos demos conta de que nossos mundos caminhavam na mesma direção. Ambos cantamos coisas que vêm do coração, e quando vêm do coração, só pode sair um disco bom.

Muitos críticos, analisando seu trabalho, dizem que vocês dão uma nova direção à música gospel, que vocês têm seu próprio lugar no campo do gospel. Como o sr. define esse caminho?
Nós fazemos sim o gospel tradicional, mas também fazemos o blues, o rhythm and blues, o funk, a soul music. E o segredo é que não fazemos as coisas por dinheiro nem fama, fazemos por amor, essa é a particularidade.

Vi muitos cantores cegos na minha vida, como Ray Charles, Grandpa Elliott, Stevie Wonder. Como o sr. define sua especial contribuição, sua forma de traduzir sentimentos em música?.
Nós cantamos todo tipo de música. Cantamos canções a capella, cantamos canções clássicas e também o gospel tradicional. A diferença é que interagimos com outras pessoas no palco, músicos que nos ajudam a transpor fronteiras a fazer a transição de um universo melancólico, habitualmente triste, para um outro mundo de alegria, de celebração.

Seu grupo está há 75 anos na estrada. Muita coisa mudou na música desde os anos 1930, especialmente no campo tecnológico. Essas mudanças chegaram a assustar vocês?
Desde cedo, aprendemos que trabalhar juntos funciona. Então, sempre colaboramos com diferentes artistas, experiência que nos proporcionou um crescimento e uma proximidade com tudo que se faz hoje. Colaboramos com Curtis Mayfield, Ben Harper, Peter Gabriel, Bonnie Raitt. Acredito também que uma parte do que somos ficou com eles. Estamos indo para o Brasil com uma big band, com nossa formação inteira, acho que nossa grande expectativa de tocar no Brasil vai fazer do encontro uma festa.

Um comentário:

Carol Ramos disse...

Jotabê, gostaria de entrar em contato a respeito de um texto seu sobre a Galeria Casa Triângulo. Pode me escrever? ramoscarol27@gmail.com