quinta-feira, 5 de setembro de 2013

MICROORGANISMOS

O pequeno predinho laranja espremido entre uma oficina de reparos de bancos de couro de automóveis e uma oficina mecânica (os dois prédios vermelhos na foto), na Alameda Nothmann, tem um lobby vazio, no qual uma única funcionária de jaleco informa que não, não há nenhum folder com a programação cultural do ano. Dois funcionários passam carregando tábuas. O local parece repousar na tarde engarrafada dos Campos Eliseos.


No tranquilo predinho laranja funciona aquela que talvez seja a mais privilegiada instituição cultural do País no momento: o Instituto Pensarte. Até 2015, cerca de R$ 115 milhões passarão por ali. Dólar pode subir ou cair, países podem entrar em guerra no Oriente Médio, o Brasil pode perder a Copa: nada vai alterar esse destino. O curioso é que quase nada por ali dá a dimensão do tamanho do seu orçamento.

Só este ano, R$ 28 milhões rumarão para o número 1.029 da Alameda Nothmann. Para se ter uma ideia: é quase 30 vezes mais do que a Fundação Nacional de Artes (Funarte) de São Paulo, que funciona bem na frente do predinho (e tem umas 50 vezes o seu espaço físico), recebe em um ano para implementar o estímulo às artes. E o contrato de gestão com o Estado é quase igual ao da Funarte para todo o País (ou o orçamento anual da Fundação Biblioteca Nacional, ou a Agência Nacional de Cinema). Primo rico e primo pobre vivem lado a lado, mas não se tocam.

O valor que passa pelo predinho laranja lhe confere um status invejável. São quase R$ 30 milhões em média para os próximos anos – o Instituto Itaú Cultural, por exemplo, tem um orçamento anual de R$ 46 milhões. É uma quantia só um pouco menor do que toda a verba anual da Secretaria de Cultura de Campinas, uma das maiores cidades de São Paulo.

O Instituto Pensarte é uma Organização Social de Cultura (OS) que trabalha para o governo do Estado de São Paulo. A função do bem-aventurado local é gerenciar, como preposto do Estado, as atividades de fomento, operacionalização e execução da Orquestra Jazz Sinfônica do Estado de São Paulo, da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, do Theatro São Pedro e sua Orquestra (Orthesp), do Centro Cultural de Estudos Superiores Aúthos Pagano, do programa Ópera Curta e do Sistema Paulista de Música.

“Sua missão é contribuir para o desenvolvimento integrado com crescimento humano, fazendo uso da criatividade e da excelência nos procedimentos”, diz texto em seu site, informando ainda que o instituto foi fundado em 2000 – mas só começou a prestar serviços para o governo do Estado no ano passado.

O fato vitaminou a organização. Em 2011, antes da assinatura do contrato, o instituto manuseara R$ 1,1 milhão. No ano seguinte, passaram pela sua contabilidade R$ 28 milhões. Uma curiosidade: em 2011, arrecadou R$ 6 mil com bilheterias. No ano passado, com R$ 28 milhões em caixa, a bilheteria caiu: R$ 5,7 mil.

Para irrigar ainda mais o caixa do predinho, o instituto ainda obteve autorização do Ministério da Cultura, no dia 28 de fevereiro, para captar mais R$ 3 milhões via Lei Rouanet para a temporada 2013 do Theatro São Pedro.

O diretor executivo do instituto é Ronaldo Bianchi, um dos principais quadros culturais do PSDB, partido do governo do Estado. Bianchi é ex-vice presidente da Fundação Padre Anchieta (onde esteve até o ano passado) e ex-secretário adjunto de Cultura de São Paulo (também dirigiu o Museu de Arte Moderna de São Paulo e o Itaú Cultural). O presidente do Conselho do Pensarte é Leonardo Brant, do site Cultura e Mercado, e era integrado, até recentemente, pelo vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos Filho.