quarta-feira, 8 de maio de 2013

ASTEKUASHU





“O que você faz lá no Brasil?”


“Bom, eu escrevo....”

“Eu também sou um escritor na Etiópia”.

“Que legal. O que você escreveu?”

Amanuel abre o porta-luvas e me oferece um livro de capa avermelhada com um avião da aeronáutica na capa.

“Não entendo uma palavra do que está escrito aqui”, eu digo.

Amanuel ri :

“É, eu sei, ninguém aqui entende. Estou tentando traduzir para o inglês. Eu pilotava esse avião aí, um caça da Força Aérea da Etiópia. Um dia, em 1990, recebi ordens do comando para ir até uma manifestação com o caça e atirar nos manifestantes. Peguei o avião, levantei voo, passei sobre a manifestação e fugi para um País vizinho. Desertei”.

Fico sem palavras. “Caramba, Amanuel! E então você nunca mais pode voltar para sua casa, certo?”

“Errado. Aquele governo caiu, foi derrubado pelos manifestantes. Eu voltei para lá como um herói. Mas já tinha me estabelecido aqui”.

Amanuel dirige o táxi que me leva para o Aeroporto Louis Armstrong, em New Orleans. Taxistas têm histórias, mas essa aqui me surpreendeu.

O nome do livro de Amanuel é Astekuashu.

Na contracapa tem um homem saindo de um avião com um capacete na mão.

“Sou eu”, ele explica.

“Você conhece a África?”, me pergunta em seguida.

“Bom, eu fui à África do Sul uma vez, à Cidade do Cabo.”

“Foi fazer o que lá?”

“Fui ver o último show de Miriam Makeba”.

Os olhos de Amanuel brilham. Ele pergunta se conheço uma cantora etíope chamada Merry Armida, de quem nunca ouvi falar.

“Bom, Merry Armida era uma grande cantora. Morava em um casebre em Addis Ababa, era muito pobre. Pobre mesmo. Tinha vergonha de sua casa. Um dia, lhe disseram que Miriam Makeba estava na cidade e ia visitá-la. Ela não queria que Miriam Makeba visse sua casa. Ela conhecia um milionário, que lhe emprestou sua casa. Ela recebeu Makeba lá, na mansão. Fingiu que era rica. Miriam Makeba nunca soube que ela era pobre”.

Taxistas gostam de contar histórias, mas as de Amanuel me fascinaram.

Ele me disse que morreu de rir quando Lula chamou “Ronaldinho” de gordo demais para jogar na seleção. E da resposta punk de Ronaldo.

Perguntou de Sócrates.

“Sócrates, quando se aposentou do futebol, disse que ia tentar ser um médico tão bom quanto tinha sido jogador. Era um jogador brilhante!”, disse.

“Amanuel, posso publicar sua história no meu blog lá no Brasil?”

“Mas é claro, desde que me dê o endereço para que eu possa linkar também no meu Facebook!”

Nenhum comentário: