quarta-feira, 23 de novembro de 2011

SALINGER EM CORNISH




























começou com uma série de movimentos involuntários pelo corpo: câimbras, ínguas, dormências, reflexos condicionados que disparavam sem nem mesmo sentirem o cheiro do martelinho do clínico geral.
as dormências não davam aviso prévio.
uma perna ia, a outra ficava, e ele se estatelava no ponto de ônibus enquanto esperava o coletivo.

como preferisse o óbito ao médico, acostumou-se a disfarçar o indisfarçável: estava se divorciando da sua vontade física.
e como fosse escritor, notou que também as palavras estavam se tornando independentes.

os textos se escreviam sozinhos, por meio de contrações que sentia nos braços e nos dedos.
neologismos dançavam em páginas virgens.
uma noite, tentava escrever sobre hemingway um artigo que lhe encomendara a new yorker, mas o que saiu foi isso:
“num abrir e fechar de olhos, papá deixou aparecer a sua luger, fez voar a cabeça de uma galinha e disse: ‘deus meu, que talento!’”.
a revista amou.

no jogo de domingo, a câimbra foi no braço e ele tava segurando o radinho de pilha colado no ouvido.
o jogo acabou e ele com o radinho no ouvido, descendo a arquibancada – uma menina pediu as horas e ele não conseguia abaixar o braço, que era onde estava o relógio. a menina chutou-lhe o joelho, ainda dói.

na hora do check-in, nunca pegava a poltrona do meio. ficava sempre com a do corredor – se as duas pernas dormissem, problema era de quem estava na janelinha.

resolveu então, após entrar com o dodge no meio do jardim do vizinho, mudar-se para um lugar ermo, uma colina.
casa sem luz elétrica e sem água corrente.
levou consigo a máquina de escrever, uma rede, dois cadernos, seis mudas de roupa (quatro levi’s 501 pretas e duas camisetas brancas), o radinho, um cortador de unhas e um isqueiro – nos últimos dois anos, passara a simular que fumava, para demonstrar que ao menos mantinha controle sobre os próprios vícios.

a cidadezinha tinha dois armazéns, uma agência dos correios, uma igreja branca e quilômetros de bosques de pinheiros, carvalhos, campos cultivados e colinas a perder de vista. e ele só ia até lá para buscar mantimentos na cornish general store e emprestar livros na philip read memorial library.

nevava, e as pernas, agora completamente independentes, o levavam para comer cereais entre os alces selvagens, que não incomodavam os que não tinham premeditação.
passou a apreciar a autodeterminação do seu corpo.
para ele, agora, não havia lado bom na cama, não tinha receio de dormir em pé, não se acanhava de passar cantada na mulher que realmente o fizesse sonhar.
“bode velho que sou, de vez em quando ainda proponho casamento a quem passa pela minha janela!”, declarou, em uma de suas últimas cartas.

um livro inteiro agora tinha se escrito sozinho.
o livro continha tudo que jamais frequentara seus escritos anteriormente: “as caras desgraçadas dos entediados, a feição pálida dos cadáveres, os rostos lívidos dos bêbados, a face doente-cinza dos masturbadores, os corpos retalhados nos campos de batalha, o louco em seu quarto de portas maciças, os idiotas sagrados, os recém-nascidos emergindo dos portões e os mortos emergindo dos portões.”
estava feliz e desembaraçado. ainda sentia que a sua arte era sua porque ela o satisfazia plenamente.

“nesse momento em que a literatura tende novamente a se afastar da vida”, pensou, “talvez essa seja mais uma bênção do que uma maldição”.
nunca mais morreu.





(tributo-bobagem a j.d.salinger, com uma pequena ajuda de whitman)

4 comentários:

zema ribeiro disse...

bobagem? isso é muito é bom! (imagine um maranhense falando isso que escrevo...) abraço!

el pájaro que come piedra disse...

hahahahaha!


grande zema!
falando em maranhense, acho que vou ouvir antonio vieira no fusca voltando pra casa hoje....

O Guararemense disse...

Caro Jotabê, esse deu um gosto especial! Nossa!

zema ribeiro disse...

grande jotabê! o saudoso vieira é mestre. viva! abraço!