domingo, 9 de outubro de 2011

BAPTIZADO





















arnaldo baptista ao final do seu show no sesc belenzinho, sábado à noite

foto: nana tucci












Estive, no espaço de uma semana, nas duas pontas do que sobrou dos Mutantes.
No Rock in Rio, Sergio Dias Baptista conduziu um espetáculo um tanto quanto melancólico, pela falta de invenção e criatividade que lidera no que chama de Mutantes.
No sábado, fomos ver o Arnaldo Baptista no Sesc Belenzinho.
A última vez que Arnaldo se apresentou ao piano foi em 1981, disse a mestre de cerimônias do show, Taciana Barros, que integrou a última formação da mítica Gang 90.
Ou seja: depois de 30 anos, víamos um recital de Arnaldo Baptista (29 anos após sua quase morte).
O público o entendia perfeitamente, e Arnaldo entendia perfeitamente que não estava ali em forma, era o que sobrara dele que estava ali.
Entretanto, havia anos eu não via um show tão instigante - a poética visionária, a pulsão anticomercial, a criticidade em relação ao mundo e à sociedade, estava tudo intacto naquele show de Arnaldo.
Ele ama Elton John, e tocou duas canções de Elton - Rocket Man e Skyline Pigeon. Mas de uma forma que nem o próprio Elton saberia decifrar hoje em dia, por ser uma leitura de seu esforço mais revolucionário do passado.
Crazy, Sanguinho Novo, Balada do Louco, o tema da Pantera Cor de Rosa.
Arnaldo terminava e celebrava a vitória de ter chegado ao fim de uma canção antes mesmo do último acorde expirar. Estava feliz e vitorioso.
"Não há perigo, a insegurança é tudo", cantava.
A voz parecia mais firme em inglês, em português parecia pastosa e afogada, mas ele ia em frente. Brincava com a própria fé, a própria sobrevivência, afagando-se quando pronunciava o verso "se eles são bonitos, sou Alain Delon".
Arnaldo impressionava pelo que trazia de Verdade àquela plateia.
Havia muito tempo que eu não ficava tão feliz num show. A cidade se revezando entre visitantes de um mundo plástico, como Justin Bieber e Rihanna, e um cara desse porte faz seu show na fronteira de um mundo alucinado, trazendo imagens e emoções que nos desacostumamos a frequentar.
"Sim sou muito louco, não vou me curar. Já não sou o único que encontrou a paz".
Jesus, traga de volta o meu rock'n'roll.

7 comentários:

Anônimo disse...

Então se vc for assistir a um show do Paralamas do Sucesso vc diria 'vi o Herbert Vianna ou o que restou dele'... e um atleta que ficou paralítico e continua participando de competições , diria, 'bela corrida do X, ou o que restou dele'... ou quando o Marcelo Rubens Paiva lançar um novo livro, diria 'Novo livro do Marcelo Rubens Paiva, ou o que restou dele'...

el pájaro que come piedra disse...

Boa questão, Anônimo.
Posso ter parecido cruel, mas o fato é que o Arnaldo compreende que não é mais o mesmo Arnaldo de antes de cair de uma janela. Não toca mais piano como tocava, e ele mesmo diz que tem uma voz meio infantil hoje. Ainda assim, parece demonstrar uma compreensão do mundo maior do que a sua e a minha. Está além dessa coisa de vaidade, disputa e eufemismos assustados. É esse ponto que eu pretendia ressaltar.

nana tucci disse...

FERA
(os dois)

nana tucci disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
• jooH disse...

As pessoas que passaram algo parecido com o que o Arnaldo passou e continuam aqui, quando se colocam, sempre são inteiras ( e as vezes até mais que antes) naquilo que "supostamente" restou delas. A lucidez tem corpo?

Anônimo disse...

Só sei q Arnaldo é maravilhoso

GUIJA disse...

Quem chegou 15 minutos depois da abertura da bilheteria não conseguiu ingresso pra essa aí (eu, por exemplo).

Merecia abrir pro Alice Cooper.