sexta-feira, 29 de abril de 2011

CORAÇÃO DA MARGINÁLIA









abaixo, a anti-entrevista que fiz em 2004 com wander piroli, um dos maiores escritores brasileiros. ele entendia o que eu dizia, mas não respondia. ficamos vendo tv na sala. batuquei na máquina de escrever dele. almocei com sua família. wander morreria dois anos depois.




BELO HORIZONTE

O escritor está afundado numa poltrona xadrez, com o controle remoto na mão, e assiste ao Globo Esporte. Dizem que não perde um. Usa uma boina de feltro e sorri de uma forma que parece demonstrar alegria espontânea com a visita.
Mas não há diálogo. O escritor responde, de alguma forma, a apenas duas questões.
“Cruzeiro ou Atlético?”
Ele ouve e ri. Alguém traduz sua resposta, sussurrada, e que só é compreensível por gente da família, de jeito nenhum por estranhos.
“Vila Nova, ele disse”, garante Silvana, a filha do escritor em questão, Wander Piroli – o homem que, entre outros feitos, apelidou o Estádio Magalhães Pinto de Mineirão. “Diz que escolheu Vila Nova para não constranger os netos na hora de escolher um time”, informa a filha.

A segunda questão tem a pretensão de ser mais complexa: “De qual dos seus livros o sr. gosta mais?”. Ele pensa, remexe-se na cadeira, parece até um pouco angustiado com a pergunta. Não tem um preferido, diz, depois de alguma reflexão.

Duas perguntas pueris para quebrar o gelo, estabelecer alguma conexão com o mundo do autor, último remanescente de uma era de ouro do conto mineiro. Aos 73 anos, atingido por uma doença mal diagnosticada que praticamente o pôs fora de combate (supõe-se que foi vítima de uma isquemia, em 1998), o escritor Wander Piroli, prolixo autor mineiro traduzido até para o búlgaro e o polonês, continua misteriosamente pouco conhecido no Brasil. Hoje, locomove-se com dificuldade e perdeu quase totalmente a função da fala.
Jornalista atuante em Minas, ele integrou a redação do mítico Binômio, fechado pelo regime militar. Escapou de ser preso porque viu, da rua, militares invadindo o edifício quando ia trabalhar. Editou o também prestigioso Suplemento Literário de Minas, periódico que o definiu da seguinte maneira, em 17 de dezembro de 1974: “Gosta naturalmente de Drummond, Graciliano, Joyce, Neruda, mas também de Garrincha, Vicente Celestino, Waldick Soriano, Tonico e Tinoco. E também de Jardiel Poncella, um espanhol alegre e ferozmente de terceira categoria.”

Como bem assinalou João Antonio de Paula, professor da UFMG, a literatura de Piroli está definida nesta última frase: “Alegre e ferozmente de terceira categoria.” Ela se assenta sobre uma incontável fauna de deserdados – prostitutas, retirantes, mendigos, músicos de inferninhos, taxistas insones.
O poeta e espadachim cultural Joca Terron não deixou por menos na sua defesa da obra de Piroli: “(Charles) Bukowski e (John) Fante têm é de lamber frieira do Wander Piroli”, diz Terron, que acha inadmissível que jovens brasileiros cultuem autores americanos como os beatniks e desconheçam profundamente um autor da envergadura de Piroli.

O pior é que, passados os três primeiros contos de Minha Bela Putana – livro escrito por Piroli em 1984 e que tem agora sua primeira reedição, pela Editora Papagaio, de São Paulo (Ed. Papagaio, 141 págs., R$ 27) –, a impressão que se tem é justamente esta: fomos passados para trás durante décadas. A literatura piroliana nos foi sonegada por algum malfeitor literário.

Este ano, também saiu em Minas, pela editora Conceito, na coleção BH - A Cidade de Cada Um, o volume de crônicas Lagoinha (100 págs., R$ 15), material produzido inicialmente para jornais mineiros e até então inédito na forma de livro. No encalço de sua literatura perdida, é imprescindível retroceder no tempo algumas décadas. E voltar a um lugar específico: a Lagoinha, bairro boêmio onde Piroli viveu até os 27 anos – e que hoje não existe mais, engolido por um viaduto. Ele cresceu nesse quadrilátero de ruas de má fama (como a Paquequer, “uma rua de um quarteirão só, que abastecia sozinha todo o noticiário policial de Belo Horizonte”), entre pensões decadentes e homens de “inútil mão no bolso e cigarro nos beiços”. Tempo em que não se dava tiro, mas enfrentava-se toda uma guarnição de guardas-civis
apenas com uma gilete na mão.

Filho e neto de operário de origem italiana, seus amigos não eram absolutamente do ramo literário. Eram colegas de copo, de futebol, sinuca e bandalheiras. Não havia escritor na turma. Em 1951, por distração, ele inscreveu uma “historinha safada” num concurso de contos da prefeitura. Era O Troco. Ganhou.
“Houve estardalhaço, é claro. A alegria de uma família não letrada. Uma família orgulhosamente operária. Todo mundo leu o conto. Minha vagabundagem e boemia se tornaram compreensíveis. Afinal, um escritor tem dessas coisas.
Mas o maior elogio que a história recebeu foi do tio Luiz. Eu estava no botequim da Rua Turvo com Itapecerica, quando me viu passando. Veio ao meu encontro, passou a mão no meu ombro e disse, com aquele jeito sacana dele: ‘Nego, aqui pra nós, me fala de quem você copiou essa história? Pode falar’.”


O autor da vagabundagem, então, começou a ser conhecido nacionalmente. Virou amigo de uma alma gêmea, João Antônio, autodidata que espantou as letras nacionais. Entrou na turma de Fernando Sabino, Antonio Torres, Ari Quintella, Roberto Drummond. Seus contos se tornaram enxutos e secos como os de Dalton Trevisan; resolutos e delicados como canções de Chico Buarque; tristes e doces como os livros de David Goodis.
“O salão ficara deserto, restando apenas nós dois, o casal dono da casa, três garçons sonolentos e o pianista de olheiras terríveis”, escreve ele, em Minha Bela Putana. Apesar do título e da evidente conexão com assuntos do bas fond, não há a menor sombra de pornografia em sua obra.

Seus personagens todos os conhecemos, mas raros prestaríamos atenção neles – só um autor de porte, cujo sangue fosse do mesmo plasma, é que conseguiria descrevê-los com tanta precisão. “Era um homem sem idade e de cor cinza, comprido, mas barrigudinho, de paletó preto apertado nas banhas da cintura, calça amarrotada pega-frango, sapato sem meia e chapéu-coco. Cada peça de sua indumentária parecia pertencer a outra pessoa”, relata ele, em O Senhor É dos Nossos.

Silvana, a filha de Piroli, informa que seu pai costumava fumar fábricas inteiras de Arizona e Hollywood e sua bebida preferida era a cachaça, quando estava em forma. Tudo coisa do passado. Agora, entregou-se – sem mágoas aparentes, ela ressalta – às terapias. Artigo literário não produz há anos. Por conta de um programa de computador da Rede Sarah de Hospitais, digita com dificuldade bilhetes para se corresponder com amigos. “Atrevida? Acabou o gás. Vou me retirar. Adeus. Wander”, escreveu, em um dos bilhetes. No outro: “Hoje é diferente: estou enfuguetado. Simplesmente enfuguetado.”

“A mente está perfeita. Esse é o pior castigo: a mente enclausurada, sem poder se manifestar. Mas ele não se entrega”, diz a mulher, Aparecida, com quem se casou há 46 anos, após um encontro numa barraca de igreja na Paróquia de Floresta – têm quatro filhos e seis netos juntos.
Piroli escreveu oito livros, entre eles clássicos infantis, como O Menino e o Pinto do Menino, de 1975, e Os Rios Morrem de Sede. Esses, curiosamente, é que garantem sua aposentadoria (O Menino está na 32.ª edição). Possui oito inéditos, entre memórias, contos, crônicas e uma peça de teatro, todos produzidos com sua velha Remington 150, hoje intocada em seu escritório.
Só há um momento de quase tensão durante a não-entrevista com o autor Wander Piroli: num dado minuto, ele desvia os olhos do noticiário esportivo e examina a camiseta branca básica do interlocutor, um tanto maltratada pelos farelos da comida de avião. Seu olhar parece desconfiar da competência do visitante, de sua capacidade de chegar a alguma conclusão. Ato contínuo, ele volta a sorrir, como se declarasse: “Afinal de contas, você não me é tão estranho. Já vi muitos como você. Boa sorte!”



TRECHOS
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Minha Bela Putana


Onde você quer ficar?
Ficou olhando o vazio. Quando atingimos a Afonso Pena, agitou os cabelos e
deu o endereço. Uma boate vadia. Subimos pela Rua da Bahia. Ia encolhida no
assento como se estivesse sentindo frio. Perguntei se não seria melhor ficar
em casa, eram quase cinco da manhã. Sacudiu os ombros.
Parei o carro bem na porta da boate. Antes de descer, ela falou:
Vai me deixar aqui sozinha?
Repeti que precisava ir. Bateu a porta com força e, com seu vestido de
índia, caminhou resolutamente para dentro da boate.
Segui pela Cristóvão Colombo, e logo adiante o novo dia começava a rastejar
atrás da serra. Eu pensava na mulher dentro daquele vestido de índia.
Pensava nela toda e dizia pra mim mesmo vai embora vai embora. Dei a volta
no primeiro cruzamento.
A boate estava vazia e tinha o aspecto gasto e melancólico do fim de noite.
Encontrei-a conversando com um idiota no balcão. Assustou quando me viu e
largou o cara na mesma hora. Atravessou a pista de dança com o andar
silvestre de uma gazela.
Não quero que você queime esse vestido – falei.


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Lagoinha


Ninguém sabe como começou a briga. Eles estavam ali na calçada, na Rua
Itapecerica, e o mendigo-um, de pé, dava chutes no mendigo-dois, deitado.
Como se estivessem embriagados, tudo transcorria em câmera lenta, com
intervalos demorados entre os chutes. Era difícil distinguir o mendigo-um do
mendigo-dois. A miséria e a bebida os haviam padronizado.
Ambos imundos, barbudos, maltrapilhos e fedorentos continuavam lutando ali
na calçada, em frente do botequim, e ninguém se incomodava com eles. Junto
ao balcão, uma mulher inchada olha para eles com desinteresse.
Conseguiram forças para se colocarem sentados. Respiravam com dificuldade. O
mendigo-um arrastou-se até o meio-fio e pegou uma pedra. Enquanto isso, o
mendigo-dois revolve os bolsos da calça e tira um canivete.
Com o tempo, os golpes foram se tornando mais espaçados e o mendigo-dois
tombou de lado. A radiopatrulha demorou quase uma hora para chegar, e os
soldados recolheram enfadados o que restava dos dois mendigos

5 comentários:

zema ribeiro disse...

lindíssimos, jotabê, tua não-entrevista e os trechos. mais um para eu ir atrás. gracias! abraço!

nana tucci disse...

quanto sabor

Anônimo disse...

Dukaralho! Por que o Brasil faz isso com seus diamantes?
Grande abraço
Paulo de Tharso

el pájaro que come piedra disse...

hey, picanha!

grande figura, que honra vc por aqui!


abraulios


j

jota geraldo disse...

putz grila q d +! ou a descoberta do brasil no mar da virtualidade ou que belezura sô como dizem os com horizonte belo nus olhos.