quarta-feira, 17 de novembro de 2010

O DIA EM QUE EU TIVE UM GUIGNARD














Na frente do Bradesco da Teodoro Sampaio tinha um velho numa kombi. Ele estendia uma lona velha na calçada e vendia relógios velhos, óculos tortos, chaleiras de louça faltando a tampa e... um Guignard. What? Um Guignard?
Isso foi há uns 6 meses ou mais. Era um dos comerciantes que vendiam nas calçadas, como satélites da feira de antiguidades da Benedito Calixto.
Eu manuseei o Guignard, era um desenhinho bem insignificante, numa moldura de madeira toda ferrada, uma paisagem com montanhas e igrejinhas. O velho me pareceu um legítimo ignorante nas coisas do mercado de arte – fosse uma falsificação o quadrinho, certamente seria coisa de um terceiro, porque ele não demonstrava ter a menor ideia do que tinha ali.
Ele me contou a história que talvez contasse a todos que o interpelavam – era coisa da qual uma família em apuros (após evidentemente a morte de um patriarca) teria se livrado para fazer alguns contos de réis, e ele nem distinguia aquilo do vaso fajuto de porcelana quebrado.
Tinha outros dois quadros, me disse. E foi lá no fundo da kombi e vasculhou nuns embrulhos mal feitos. Trouxe um desenho de Carybé e uma aquarela de Rebolo, todos devidamente enquadrados em molduras “castigadas” pelo tempo.
Eu pensei: mesmo falsetas, eram charmosos e valeriam a pena pelo preço que ele me propôs em seguida, duzentas pilas.
Mas confesso que tive a ilusão de que algum deles pudesse ser de verdade. Sabe aquela sensação de quando você joga numa Mega Sena recordista e vive milionário até conferir o resultado? O velho foi o melhor ator que já encontrei pessoalmente na vida – depois da Jane Fonda, biên sur, que até hoje me arrepia em Barbarella.
Fiquei com os quadros e, a quem me perguntava, brincava dizendo que não acreditava realmente que pudessem ser de verdade.
Mas aquilo foi me tirando a tranquilidade, eu precisava ter certeza.
Um dia liguei e marquei um apontamento com o Jones Bergamin, da Bolsa de Artes do Rio de Janeiro, e lá fui para os Jardins com os três quadrinhos.
Ele não me deixou nem tirar o quadro inteiro da sacola e disse: “Falso!”
“Falso!”, e “Falso!”, foram os outros dois veredictos.
“Mas, Jones, essas molduras parecem ser tão maltratadas pelo tempo... Como é que um falsário faz isso aqui e deixa tanto tempo hibernando para um dia lucrar míseros duzentos mangos?”
“Duzentos? Pô, você abriu a carteira, hein?”, ele disse, zombeteiro.
“Ouça, é cada vez mais comum isso aí. Na Feirinha do Masp anda aparecendo, em todo lugar agora tem. O cara faz cópias de boa qualidade. Vê aqui? Até os pregos são falsos, foram envelhecidos numa solução química para ficarem assim, estropiados. Uma mera falsificação”.
Aí eu mostrei o Carybé, que estava evidente que não era cópia, mas alguém tinha mesmo caprichado naquilo. Ele disse que sim, provavelmente era um cara bom mesmo, levava jeito, mas era falso.
Voltei com uma sensação de vazio no estômago. Três falsificações que eu poderia ter evitado e ter trocado por um belo jantar no Las Favas Contadas (ainda não fui lá, mas se tivesse duzentão eu iria hoje).
É bom ser justo: o velho da kombi nunca me disse que eram legítimos.
Refeito do golpe, comecei a imaginar uma reportagem sobre o cara que estava fazendo as falsificações. Pensei em negociar com ele, acompanhar seu trabalho, perguntar como escolhia os motivos, como forjava as molduras. Comecei a sonhar de novo: poderia estar frente a frente com uma grande história, ao estilo O Ladrão que Pintava como Mondrian, algo do tipo.
Já imaginou se o cara fosse talentoso mesmo, uma versão cabocla do holandês Hans van Meegeren (que não só falsificava obras existentes de Vermeer e outros pintores famosos, como criava outras como se fossem destes)?
Voltei várias vezes atrás do velho da kombi. Ele me levaria ao falsário cavalheiresco, que não só teria um método de sofisticar cópias, como de esfolar o comprador com elegância.
Nunca o reencontrei. Um dia, estava lá um outro cara no mesmo lugar com uma kombi parecida (eu não anotara os detalhes), mas ele me disse que nunca conhecera tal personagem.
No sábado, fui pela última vez atrás dele. Encontrei a praça conflagrada. A Polícia Militar tirou todos os vendedores das calçadas, deixando apenas os antiquários credenciados de dentro da praça. Havia uns artesãos tocando berimbau no meio da rua, estendendo faixas não muito elogiosas ao prefeito.
Talvez eu nunca consiga achar o Embalador de Quadros, o Falsário da Teodoro.
Uma pena. Espero que voltem.
Eu gostava de garimpar por ali. Não havia nenhum certificado de garantia de coisas valiosas, mas eu acho que nunca serei mesmo um refém das coisas certificadas.

7 comentários:

ELIOT disse...

Putz.
Ao menos renderam um ótimo texto.
Ganhei de Mariana em meu niver, um cavalete, tintas, pinceis e tela. Não. Não sei desenhar nada, menos ainda pintar à óleo, mas estou me divertindo um tanto. Percebo que é mais fácil julgar que fazer bonito.
Sendo assim, seu quadros tem muito valor meu caro.
bjos
Eliot

el pájaro que come piedra disse...

Hey, Eliot! Você recebeu as fotos do casório?

ELIOT disse...

Recebi apenas uma, super legal aliás.
E você recebeu as que te mandei?

el pájaro que come piedra disse...

Recebi. Magníficas! A nova geração é bem melhorada, não?

Juracy Ribeiro disse...

Jotabê,
acho que tenho uns quadros no porão lá de casa...Faço até por menos...rss Todos os LPs dos Beatles, do Paul.
Só podia ser do Paraná pra ser levado no bico...rsss
Beijos,
Juracy.

Juvenal disse...

vou te mandar por e-mail um guignard autentico

nana tucci disse...

de alguma forma trouxe sorte. lembra do cartão na lixeira do banco?
texto crocante