sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O SORRISO DO LAGARTO














Já tive a impressão de que muitas pessoas vão para longe para se tornarem grandes, ou ao menos para se sentirem maiores do que são aqui.
Pensei nisso vendo as fotos de Juliard e Hermínio, dois meninos que saíram de duas microcidades mineiras, Sardoá e Santa Efigênia, para tentar cruzar a fronteira do México rumo aos States. Foram brutalmente assassinados por traficantes.

Uma vez, eu e o Versiani cobrimos em Hartford, Connecticut, a prisão de 76 brasileiros ilegais, que foram parar na penitenciária de Boston.
A cidade era uma espécie de ioiô de aqui-lá-aqui-lá. Tinha uma butique na Park Street de Hartford, a Thais Fashion, que anunciava “Beautiful Clothes from Brazil to You”.
Encontrei ali dois irmãos de Simonésia (MG) que adoravam jogar sinuca e andavam com o passaporte no bolso, prontos para a prisão.
Viviam da esperança de uma redenção (o sucesso financeiro, ou profissional, ou a aceitação local).

Daí, com o tempo, vi que há também aquelas pessoas que vão longe para poder enxergar com distanciamento. São das mais raras. Lendo os relatos sobre como os tropicalistas buscavam por Jorge Mautner em Londres, nos anos exilados, tive a impressão que Mautner vê com distanciamento mesmo de perto.

Não há regras para esse instinto de ficar ou escafeder-se.
Meu irmão S. é daqueles que se vai porque a maré está apontando para aquele lado naquele momento. Não é nem o instinto de sobrevivência que o move, são as marés ou os movimentos lunares (o que o torna também uma figura quase incompreensível).

Já o meu irmão J. nunca me pareceu que fosse de deitar raízes. Uma vez, com 20 e poucos anos, alistou-se na Legião Estrangeira em Marselha e sumiu por um ano. Acabo de achar uma carta que um antigo colega dele me enviou quando ele deu baixa, no início dos anos 1990: “J. saiu daqui essa manhã assobiando. Usava botas quentes e tinha 200 francos no bolso”.
No entanto, apesar de errático, J. achou seu lugar no mundo. Hoje, não fica mais do que um dia longe de sua churrasqueira de pedaços de tijolos e sua cadeira de ferro.

É uma reflexão meio torta essa que faço, para tentar entender o que me faz permanecer.
Já percebi que, mesmo quando eu vou, eu não estou lá, eu estou aqui.
O que me faz gostar da mesma árvore, o mesmo poço, a mesma mesa de costas para a parede, porque sempre dou a mesma risada da velha imitação tosca que o Didi faz da Bethânia?
Talvez porque eu ache uma inutilidade deixar de ser daqui para ser de lá. Seria apenas trocar de cadeira, em minha microvisão.
Talvez porque eu ache possível apalpar os destinos daqueles que eu gosto tanto (longe, perderia capítulos de suas novelas).
Também pode ser porque eu sou hipercompetitivo – nunca vou dormir sem pensar numa forma de revidar. E o revide exige concentração e um bunker.
Tenho algumas teses, nenhuma explicação.
Seria eu um conservador crônico?

Outro dia vi o jogador Elano no Globo Esporte indo buscar um repórter da Globo de barco, na Turquia, onde joga.
Dias depois vi o Renato, ex-Santos, ouvindo música sertaneja em seu carro pelas ruas de Sevilha.
É de fato um mundo grande, uma obra aberta, não há regras nem limites.
Mas o que me aperta o coração, no momento, é pensar no que foi feito do lagarto que tomava sol no mato do terreno ao lado, que o vizinho cortou e incendiou essa semana.

4 comentários:

aguinaldocavalheiro disse...

eu alugo uma casa com quintal grande com três pés de jaboticaba, várias bananeiras,e limões e mamão. eu costumo carpir o local, mas o dono vire e mexe aparece para jogar veneno e cortar os pés de frutas um horror

el pájaro que come piedra disse...

confesso, cavalheiro, que não vivi um tempo de tamanho desprezo para com a natureza. o sujeito cospe na mesma cama na qual vai dormir depois.

katia disse...

Seu amigo esqueceu de dizer que o J. usava botas quentes e um hamster dentro dela... essa imagem me persegue até hoje..

el pájaro que come piedra disse...

não era para falar da gastronomia à base de pasta de hamster...