terça-feira, 20 de julho de 2010

SÃO JORGE

















Em 1979, em São Jorge do Patrocínio, não chegava onda de rádio e a TV só pegava bem num único canal.
Não tinha asfalto.

No meio da cidade (que era um quadrilátero de umas 8 quadras, cercado de plantações de café), tinha uma torre.
Nessa torre, havia quatro alto-falantes gigantes, um em cada face da torre, e uma cabine logo abaixo.
Dentro da cabine, enfronhava-se uma espécie de proto-radialista - um profissional anterior ao radialista.
Os alto-falantes cobriam uma área de, mais ou menos, um quilômetro quadrado.

O dia todo, o locutor castigava os alto-falantes falando das promoções nos postos de gasolina, no mercado, na loja de autopeças.
E tocavam música. Eu me lembro precisamente de It’s a Heartache, com a Bonnie Tyler. Tocava pelo menos umas 5 vezes por dia. Eu adorava.
Era uma estação de rádio compulsória.

Eu era menino e fazia cobranças de bicicleta pela cidade.
E aprendia o ofício de auxiliar de contabilidade.
Transcrevia notas fiscais à mão para os livros-caixa, e tinha um calo no dedão de tanto escrever.
Foi nessa época que forjei a assinatura que uso até hoje. Tive tempo e tinta para praticar.
Mandei também fazer um carimbo com o meu nome.

Um dia, veio à cidade o filho do dono do Alto-Falante.
O nome dele era Edinho, vivia em Curitiba com a mãe.
Num tempo em que todos usávamos calça de cós alto, ele usava a calça baixa e sapato de bico fino.
Ele já ouvia disco music, e fumava. E tinha largado a escola.
Em 2 dias, a cidade inteira já sabia que tinha chegado o cara mais cool daquelas paragens. Era quase um John Travolta tupiniquim.

Ela me fez lembrar de toda essa história no domingo. Eu tinha bebido vinho e estava tagarela.
Enquanto eu contava, eu mesmo me obrigava a lembrar os detalhes.
Lembrei então que Garrincha jogou lá em São Jorge uma vez com um time de masters. Eu o vi pelo buraco da cerca do campo de futebol, era barrigudo e arrastava uma perna.
Ver o Garrincha em pessoa teve tanto impacto quanto apertar a mão do Neil Young.

Eu e meu irmão namoramos duas garotas loiras da mesma família. Não lembro o nome das garotas.
Fizemos festa na casa da minha irmã, Edinho misturava fanta com pinga.
Em São Jorge, os caras que tinham algum futuro estudavam em Umuarama.
O filho do dono do bazar São Carlos estudava em Curitiba.

Eu era comprido e magro demais, e nos jogos de futebol de salão me apelidaram de Paçocão de Mil (um doce de mil cruzeiros).
Eu detestava aquele apelido, e insistia em usar camiseta de manga comprida porque idolatrava a seleção argentina campeã do mundo (Passarella, Houseman, Olguin, Tarantini. Kempes, Fillol. Galvan. Ardiles. Luque, Valencia e Gallego).
Não só eu: todo mundo queria ser o Kempes. Não sei quando foi que passei a torcer contra os argentinos.

Nunca mais voltei a São Jorge do Patrocínio.
Vivi um ano lá.
Lembro que uma vez li que a cidade ganhou celebridade na eleição de 1989 (foi onde o Collor teve a maior votação do País, 98% dos votos).
Acho que fui amigo ou conheci os outros 2%.
Contando hoje, me pergunto por que nunca dei importância a essa parte da minha vida.
Acho que é porque é um tipo de relato do Brasil arcaico que não nos parece relevante, o Nordeste sempre reivindicou mais arcaísmo e folclorismo nas novelas e na literatura regionalista.
Mas é tudo tão remoto agora – pareceu-me até que inventei tudo isso – que me pareceu até charmoso.

9 comentários:

Anônimo disse...

Nem vou falar de Bonnie Tyler e os bailinhos com as danças lentas. Vou falar dos Milionários. Era esse o nome? Meu pai me levou pra ver esse time jogar com Garrincha, ou a sombra dele, enorme e gorda parada na direita. Fiquei chapado, olhando pro cara. Belo texto. Obrigado pela lembrança, Jotabê.

Abraço,

Alemão

Anônimo disse...

Ah, esqueci de mencionar que o jogo foi em Ubatuba, no bairro do perequê açu. Abs.

el pájaro que come piedra disse...

Eh, Alemão! Quase que eu esquecia disso para sempre, mas aí voltou tudo!
Abços

Carlos Pereira disse...

Caro Jotabê,
mada a acrescentar, apenas queria registrar a beleza do texto.
Abraço!

el pájaro que come piedra disse...

Carlão, meu velho! São só umas memórias desenterradas, gosto delas.

Grande abraço


J.

Portal Altônia e Região disse...

Muito interessante e gostoso de ler seu texto sobre São Jorge do Patrocínio. Deu para viajar no seu relato. Gostaria de solicitar a sua permissão para publicá-lo no site www.portalaltonia.com.br, que é uma Revista Eletrônica de Altônia, São Jorge do Patrocínio, Iporã, Pérola e Esperança Nova.

Aguardo seu retorno.

Abraços

Nelson Lima
portalaltonia@gmail.com

el pájaro que come piedra disse...

Caro Nelson, de Altônia

Mandei email para vc autorizando a republicação. Be my guest!

J.

cristian disse...

Ei Jotabê, beleza? Sou de Guaíra/PR (não é longe de São Jorge, fica na fronteira com MS e PY ) e por aqui o Mané Garrincha também passou. Talvez até seja na mesma época.
Enfim, sempre leio seu blog. Gosto do seu texto e comungo de boa parte ( pelo que perdcebi) de suas referências...
Abraço!

el pájaro que come piedra disse...

cristian

conheço guaíra, já pesquei no rio.
já comprei tranqueiras em salto del guairá.
a época que você fala deve ser aquele em que todo mundo ouvia video killed the radio star, do buggles, primeira coisa mais perto da dance que eu ouvi.