quarta-feira, 8 de abril de 2009

ZÉ ONOFRE

















temos simpatia grande por sujeitos que nem sempre podemos apontar como uma baliza ética.
josé onofre foi meu editor.
soubemos hoje que está em coma em porto alegre, de onde provinha.
primeiro, perdeu as funções renais, depois sofreu uma parada cardiorrespiratória e agora dizem que não tem mais jeito.
todos sempre soubemos que ele era melhor escrevendo do que editando.
texto enxuto, preciso, arguto, sedutor. especialmente sedutor, como era o de um dos seus ídolos, dashiell hammett.
editando, nem sempre se preocupava com justeza ou franqueza. conheço alguns que o detestam, dizem que não era leal.
não tinha a menor vocação para a transpiração, mas costumava ter bom faro para pessoas.
é apenas um “velho canalha”, como ele mesmo costumava chamar os amigos.
durante muito tempo, seu melhor amigo foi o uísque. havia uma garrafa com o seu nome na churrascaria rodeio, nos jardins.
às vezes vinha até a minha mesa quando eu lia um gibi e confiscava minha leitura, discursando em alto e bom som:
“esse farsante! senhores, eis aqui um farsante! fica falando de walt whitman, stendhal, steinbeck, e no fim das contas o que ele lê mesmo é essa subliteratura aqui!”
eu ficava vermelho, o povo morria de rir. em seguida, levava meu gibi para a sala dele para ler sem ser incomodado.
uma vez, no elevador lotado, ele chegando para o trabalho, me contou em voz alta como tentou agarrar sua empregada naquela manhã enquanto ela passava roupas, e de como foi rejeitado. as garotas no elevador pareciam não acreditar no topete do coroa.
um cara engraçadíssimo, mas de um senso de humor terrível.
um dia, escreveu sobre os cadernos culturais dos jornais diários:

“Os cadernos estão correndo demais, na ânsia de antecipar tendências. Estão na captura de um herói por dia: um cineasta, um roqueiro, um maestro, uma orquestra, uma peça teatral. Seja o que for, é turbinado. Seus autores fariam excelentes carreiras na publicidade, onde o mundo não tem defeitos. Acontece com os cadernos o contrário do que acontece com a capa dos jornais. Nos cadernos, tudo é bom; nas capas, só más notícias. Se falta senso crítico aos cadernos, falta chá de camomila para editores de primeira página. As duas versões do jornalismo exageram e deformam a realidade.”

bueno, não que isso vá adiantar, mas isso aqui é um tributo ao velho canalha que conheci no final dos anos 80.

4 comentários:

Eduardo disse...

Jotabê, tudo bem? cara, conheço pouco o seu blog, deveria lê-lo mais. Não conheci o seu camarada “canhalha”, mas o seu texto melhorou muito o meu dia, a despeito de ser uma despedida, de ter alguém significante morrendo (eu não tenho muitos problemas com a morte), a descrição que você forneceu é a que retrata homens os quais não mais se fazem, de um tempo muito bacana que foi pro brejo. Fiquei nostálgico das poucas histórias deste tipo que vivenciei, mas fiquei feliz. Quiçá não faltem canalhas assim no ideário da garotada? Muito obrigado

Adriano Carnevale Domingues disse...

Jotabê,
Belíssimo tributo e pode contar que adiantou, se não para ele, com certeza para você.
grande abraço.

Guiga disse...

que concisão.

eliane disse...

Tbém eu não conheci essa figura folclórica, mas conheço vc.
Sou admiradora mais orgulhosa do seu caráter e do seu talento e da sua classe.
Só sei que te amo Juão.
Ah! Vida! Sempre surpreendendo a gente