segunda-feira, 8 de agosto de 2016

CHINA MOSES


UMA CANTORA EM BUSCA DA PRÓPRIA VOZ



Há 19 anos, a cantora e atriz Dee Dee Bridgewater fez o seu primeiro show no Brasil, no palco do Bourbon Street Music Club, durante o antigo Free Jazz Festival. Homenageou Ella Fitzgerald e mostrou porque era, àquela altura, uma das divas do jazz mais badaladas do mundo.

Na noite desta terça, sua filha China Moses, que tinha 17 anos na época daquele show, sobe ao palco do mesmo Bourbon Street com um objetivo: livrar-se do peso dos standards do jazz e da influência das divas como Billie Holiday e Dinah Washington e enfim mostrar a sua própria voz musical.

China Moses desenvolveu sua habilidade sob a égide de duas poderosas heranças artísticas. Filha de Dee Dee, hoje com 66 anos, e do diretor Gilbert Moses (já morto, ativista afroamericano que ganhou o prêmio Tony de teatro com Ain’t Suppose to Die a Natural Death e dirigiu do musical 1600 Pensylvannia Avenue, de Leonard Bernstein), ela nasceu em Los Angeles e cresceu em Paris.

“Nos últimos 10 anos, eu descobri o legado do jazz e fiz um disco em tributo a Dinah Washington. Cantei todos os standards e enveredei pelo caminho dos festivais de jazz. Isso foi importante para descobrir minha identidade. O jazz me deu coragem para finalmente ser eu mesma”, disse China por telefone, em entrevista desde sua casa Paris, numa declaração que parece paradoxal. “Eu fiquei frustrada com o mundo do jazz. Sentia que precisava de mais liberdade, de fazer algo que fosse menos a expectativa que os outros têm de mim e mais minha própria cara”.

Assim, ela explica, foi que conheceu o produtor britânico Anthony Marshall (de artistas como o rapper Craig David) e, em 5 dias, compôs os temas de Whatever, seu novo disco (selo MadeinChina, dela mesma). Em outros 6 dias, produziu as 11 canções do álbum no Snap Studios de Londres, com um trio. “Eu sempre fui mais próxima do R&B, do soul, do funk, do pop. Amo o jazz, mas minha vida se desenvolveu ao redor da música que eu tenho vontade de dançar às 5 horas da manhã numa pista de dança. Aquele repertório que eu estava levando era muito delicado, mas não era a minha voz”.

Por conta disso, quando pergunto se ela pretende cantar ao menos uma música do repertório de Dinah Washington ou Billie nessa noite de terça, em sua estreia no Brasil, ela é curta e a gargalhada sai torrencial. “De jeito nenhum”, sentencia. Esses standards estão registrados em discos como Good Lovin (2004), This one is for Dinah (2009) e Crazy Blues (2012). Ela também acompanhou a mãe em um tributo a Lady Day - mas, muito antes de tudo, chegou a cantar heavy metal.

“Eu parei e pensei: o que me leva a fazer o que faço? Não é a plateia, não é o programa de um festival, é aquilo que eu penso sobre a arte e a música. Não estou reclamando de nada, mas não se pode ser feliz tentando fazer o que os outros querem de você. Ao mesmo tempo, o jazz é parte de mim, de minhas influências. É possível ser algo entre uma coisa e outra, isso aconteceu com cantoras como Natalie Cole e Peggy Lee. Por que eu tenho que escolher? Na minha cabeça, estou tentando construir uma ponte entre esses gêneros, ao mesmo tempo em que defino meu próprio ritmo e velocidade. É como cozinhar: é muito importante criar o seu próprio sabor, encontrar os ingredientes certos, as cores de sua comida. Estou procurando por isso”, pondera.

A mãe de China, Dee Dee Bridgewater, foi quem a fez querer ser artista, ela conta. “É tão talentosa. Tive sorte de ter uma artista mulher para me inspirar. Foi minha primeira fã, me encorajou, me estimulou. Ela me ensinou a importância do amor dos pais: uma mãe que ama seus filhos pode mudar o mundo. Ela vê através da arte, não é só uma artista, é uma mulher e ativista, é cheia de convicção e verdade. Ela só escolhe projetos muito fortes e importantes, não se vende nunca”, afirma a cantora.
Dee Dee disse que China deveria seguir o caminho que lhe desse felicidade, e não o caminho da obrigação. Por conta disso, bossa nova, por exemplo (gênero caro a colegas como Stacey Kent ), nunca a tocou especialmente, embora conheça bastante. “Eu sempre ouvi. Uma de minhas preferidas era Astrud Gilberto. Ouvi e fiquei com a voz dela muito antes de Tom Jobim, João Gilberto. A versão dela de Águas de Março é a minha preferida. Em meu segundo disco, uma das primeiras canções é uma bossa. Mas a bossa nova pede uma abordagem mais delicada do que a que eu posso dar, e tem muita gente que pode. Gosto do jeito que Seu Jorge toca a bossa, um jeito mais nervoso. Gosto de artistas que vão além do estabelecido”, ela diz.  

Garota parisense típica, embora norte-americana, ela comentou também os casos de violência terrorista recente em Paris e Nice. “Acredito que os ataques na França queriam atingir justamente aquela parte da cultura, da liberdade de pensamento, da livre expressão que a arte atingiu no País em todos esses séculos. Foi a mais feia, impensável atrocidade. Curioso que um ataque desse tipo aconteça justo no momento em que vivemos um fluxo de comunicação tão intenso. Hoje nós podemos compartilhar a vida com outras pessoas, falar com o mundo todo, muito mais do que na minha adolescência. Os artistas estão ainda muito calados em relação a isso, mas acredito que devem se levantar logo. Eles representam os sentimentos das pessoas e devem liderar uma reação. Acredito que está chegando”.




CHINA MOSES

Local: Bourbon Street | Rua Dos Chanés, 127 – Moema – SP
Bilheteria Bourbon Street: Rua dos Chanés 194 – de 2ªf.a 6ª.f das 9h às 20h, sábado e feriado das 14h às 20h
Fone para reserva: (11) 5095-6100 (Seg. a sexta) das 10h às 18h
Data : 09/08/2016 – terça-feira
Horário: 21h30
Abertura da casa: 20h
Duração: 98 min. aproximadamente

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