segunda-feira, 18 de setembro de 2017

LAUDIR


laudir de oliveira com o neto





Em 1969, o brasileiro Laudir de Oliveira chegou a Los Angeles para tentar a sorte como percussionista e foi ver um show de um amigo. Na saída, quando ia embora do teatro, no estacionamento, um homem o abordou. "Você é o Laudir? O percussionista? Quer tocar na gravação de um disco na semana que vem?".
Laudir topou e, na semana seguinte, chegou ao tal estúdio. "Estava cheio de cabeludos, muita coisa proibida. Eu pensei em fugir, de medo. Mas não deu tempo, acabei gravando. Só depois fiquei sabendo que era o disco With a Little Help From My Friends, de Joe Cocker, com o Jimmy Page, Albert Lee", lembra hoje, divertido.
Filho de sergipanos, família de 11 irmãos, natural de Ramos (RJ), o lendário percussionista brasileiro de 76 anos seria um dos destaques da segunda edição do Iguape Jazz & Blues Festival, no ano passado. Mas o festival foi cancelado - fiz essa entrevista para o festival. Após 26 anos morando no Exterior (18 anos na Europa, 7 anos nos Estados Unidos, um ano no México), ele se restabeleceu no seu bairro de origem e prossegue em intensa atividade, além de empreender ações educacionais.
Bailarino de gafieira, ele viveu ali em Cacique de Ramos sua iniciação artística. Morava ao lado de um córrego. Do lado de lá, vivia o maestro Moacir Santos, que lhe deu "três dias de aulas de percussão". Baden Powell, amigo da família, visitava sua mãe. Pixinguinha, João da Bahiana, o maestro José Prates: no entorno, conheceu e aprendeu com os maiores.
Na era da contracultura, Laudir fez o nome no Exterior com sua marca inconfundível de ritmista de candomblé. Chegou aos Estados Unidos na mesma época que Airto Moreira. "Ele tocou com Miles Davis e virou músico de jazz. Eu toquei com Joe Cocker e virei músico de rock. Mas até hoje não sei dizer o que é rock. Acho que é baiano, o rock", brinca. Não por acaso, seu disco mais recente, com o grupo Urca, Bossa, Jazz, é o álbum 70 Anos de Raul Seixas, em homenagem ao roqueiro baiano.
Laudir foi para os Estados Unidos, na verdade, acompanhando o espetáculo Brasiliana, uma turnê que correu o mundo durante 3 anos, com 33 artistas no elenco. Ele tinha sido ator no Brasil, encenou Antígona, de Sófocles, na companhia de Pascoal Carlos Magno. Mas abandonou a carreira para seguir a trupe. Como músico, formou o Família Sagrada com Luiz Eça e o Som Imaginário, com Milton Nascimento. Ao deixar ambos, foi substituído por Naná, grande amigo.

Em 1970, ele, Naná Vasconcelos e Airto Moreira, os maiores da percussão, tentaram criar um grupo em Los Angeles (teria ainda Herbie Hancock no teclado). Mas não deu certo: Airto insistia em colocar a mulher, Flora Purim, como cantora, e Naná era contra ter vocalistas no grupo.
Recrutado pela banda Chicago, onde ficaria até 1981 (e com quem ganhou um Grammy, em 1976), Laudir recentemente foi admitido no Hall da Fama do Rock, junto com o grupo que integrou. Seu toque afro na cozinha da banda a tornou uma das mais longevas do rock, mais de 40 anos na ativa. Tocou e gravou com Chick Corea, Gerry Mulligan, Lee Ritenour, Sergio Mendes. Sua batida está no disco Destiny, da banda familiar de Michael Jackson, The Jacksons, entre centenas de outros registros.
Em setembro, seria publicada a biografia de Laudir de Oliveira, de autoria de Washington Araújo. Antes, ele passaria por Iguape com um convidado especial, o gaitista Jefferson Gonçalves. "Se ele é bom? Eu sou bom. Ele é MUITO bom!", diz o percussionista, que já tem tocado com Jefferson há algum tempo.

Segundo o noticiário, Laudir morreu ontem, domingo, de infarto, em pleno palco, durante um show no Reduto Pixinguinha, em Olaria, Zona Norte do Rio. Um gigante.




quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DEVENDRA TROPICAL







Ali nas imediações do Rei das Batidas, a casa de shows Tropical Butantã terá a seguir, após o freak folk de Devendra Banhart, ontem à noite, uma apresentação de Amado Batista. Isso é que é ecletismo!

O Tropical Butantã não é um espaço ruim, tem boa localização, espaço generoso e os azulejos do piso estão desgastados, o que prova que muita gente já foi feliz naquela pista. Mas ontem tinha só dois caixas vendendo cerveja, e trezentas pessoas em média em cada fila. Quando o show terminou, tinha gente ali que ainda não tinha conseguido comprar uma Skol. Para sair do lugar, tinha que passar pelo fumódromo, um corredor polonês de fumaça em blocos e nenhum caminho livre.

Devendra caiu ali, eu imagino, por conta do tamanho do lugar: cabem 2,5 mil pessoas, e no Cine Joia só cabem 900 pessoas. Quase três vezes o faturamento. Mas o som, lá atrás, era três vezes menor que o espaço físico.

Com a banda no palco, Devendra abriu com Saturday Night (do disco mais recente, Ape in Pink Marble, de 2016). A batida é descolada de uma costela de In the Air Tonight, de Phil Collins. A sonoridade lembra as canções de um folk singer memorável, Lobo, que o mundo esqueceu.

Mas foi o disco Mala (2013) que mais compareceu, com cinco músicas, até porque é uma obra-prima. A segunda música foi Fur Hildegard von Bingen (ele cantou ainda Daniel, Mi Negrita,Golden Girls, Never Seen Such Good Things). Eu escrevi sobre esse discaço há algum tempo:


Devendra falou português, chamou o baterista de "Deus grego", brincou com o tecladista que só fala francês e elogiou a banda O Terno, de São Paulo, que vendia camisetas feitas na hora num mesão nas imediações dos caixas.

“Não há ninguém que eu tenha conhecido tão bonito quanto você”, diz a letra de Jon Lends a Hand. Ao fundir Jon Lends a Hand com My Sweet Lord, de George Harrison, Devendra Banhart conduziu a plateia a uma utopia limpa dos anos 1970, um sonho ainda sem conservantes e sem mediação de ONGs. Krishna hare, hare Rama!

No set “acústico” de Devendra, quando ele cantou Brindo, um bêbado no bar (como ele ficou bêbado sem ter como comprar cerveja é um mistério) gritou para o cantor: “Vou ligar para sua mãe e dizer que você tá fazendo um show ruim aqui essa noite!”. O cara, claro, era masoquista, porque era só ir embora se não tava gostando e voltar a odiar com método e sistemática nas redes sociais.


Penso que só de ter ouvido Baby (2010) e ter dançado como um frango desossado em volta da Nana já teria valido a noite. De qualquer modo, o bêbado não estava totalmente sem razão. Devendra está com a autoconfiança muito em alta e tornou-se meio displicente em cena. Seu último show no Cine Joia tinha sido muito mais bacana.

Sim, eu sei: minhas fotos ficaram horríveis. 

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

DECIFRANDO O MISTÉRIO





Vi que o colega Mauro Teixeira, blogueiro, escreveu uma crítica ao meu livro sobre Belchior. Não é totalmente desprovida de fundamento: a maior acusação que ele me lança é de não ter elucidado o “mistério erguido em torno de Belchior”, na acepção detetivesca da expressão. Nisso concordo com ele. Até tentei fazer uma autópsia noturna no corpo do cantor, mas não foi conclusivo o exame que poderia demonstrar a hipótese de envenenamento. Tentei também um download do córtex cerebral, para ver se tinha sido a amargura que o levara, mas o equipamento falhou.

Caricaturas à parte, o mínimo que posso dizer de Mauro Pereira é que é um ingrato. Ele escreveu errado o nome de Belchior durante toda a vida, em suas resenhas voluntariosas (provavelmente por conta do rigor investigativo que o fascina tanto). Isso perdurou até o dia de ontem, quando ele terminou de ler minha biografia e pela primeira vez grafou corretamente o nome: Antonio Carlos Belchior. O nome que estava na Wikipedia, de onde se copiava automaticamente tudo que era “amplamente conhecido” sobre Belchior, foi inventado pelos redatores de O Pasquim (Antonio Carlos Gomes Belchior Fontenelle Fernandes) para justificar o título da capa do jornal, O Maior Nome da MPB. Imagine você passar a vida escrevendo errado o nome de um artista, como fiz com o resenhista nos dois parágrafos acima?

Mauro Ferreira diz que escrevo com estilo e que meu livro “parece uma grande reportagem”. Não posso discordar. Às vezes me esqueço de fazer reportagens, mas logo volto atrás, como naquela canção do Wander Wildner. Tenho que advertir, porém, que A Sangue Frio, de Truman Capote, embora pareça “apenas uma grande reportagem”, é um livro referencial da literatura universal. Mauro ainda reclama uma biografia “que ilumine recantos escuros da alma do biografado”. Nesse ponto, parei imediatamente de me sentir lisonjeado com o elogio dele, de que eu tenho “estilo”.

Mauro exibe aquela pose de implacabilidade na análise de uma presumível falha da discografia. Ele exige lista de canções. Eu acho justo. Só recomendaria ao colega que, para manter as aparências de honestidade intelectual, retorne no tempo e exija isso também de Nelson Motta e O Som e a Fúria, biografia de Tim Maia que nem discografia tem e ele adorou. Ou de Caetano, uma Biografia, de Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco, que também não tem discografia - e 95% das biografias brasileiras de música, como as de Erasmo Carlos, Aracy de Almeida, Rolando Boldrin ou Elis (de Arthur Faria).

Para revestir de alguma autoridade seu argumento, Mauro aponta um erro de digitação (2006, em vez de 2016) na discografia, e a ausência de uma reedição de oportunidade em CD. São detalhes que poderão ser plenamente corrigidos numa segunda edição.

Mas foi quando ele disse que “tudo isso seria desculpável” se houvesse uma narrativa minuciosa da vida de Belchior que eu fiquei intrigado. Quem me desculparia? Tem que pegar senha? Ele me desculparia por escrever que Belchior era corinthiano, que estudou caratê, que ensinou a filha a apreciar Kurosawa e compôs a música Ypê tendo como inspiração a árvore da casa do sogro? Que compôs Vício Elegante para a namorada do Parque Ecológico do Cocó?

Sua noção de “minucioso” não fica muito clara. Eu gostaria que ele apresentasse (pode colocar um link aqui nos comentários, se quiser) um único artigo ou relato anterior ao meu que narre a vida de Belchior no mosteiro dos Capuchinhos ou na infância em Sobral. Um único artigo que comprovasse que essas passagens já tinham sido descritas anteriormente em periódicos ou livros.

Mauro acha que recorrer à própria fala de Belchior em depoimentos históricos gravados durante toda sua vida é sintoma de fragilidade de uma biografia. Os programas de Fernando Faro, as antigas edições do Pasquim ou da revista Música: tudo isso são preciosas fontes documentais, registros da história, verdadeiros tesouros. É como arbitrar que só podem existir fontes primárias num trabalho biográfico. Paulo Cesar Araújo, rato de arquivos, retira dali grande parte do material fundamental de suas grandes biografias.

Como eu já disse em resposta a um post de uma leitora, exigir que o autor de J.D.Salinger - A Life, Kenneth Slawensky, "decifre o mistério" da misantropia de Salinger definitivamente para que sua biografia tenha "fôlego investigativo" e seja “desculpável”, me desculpem, é bizarro. Equivale a interditar qualquer autor de escrever sobre David Livingstone porque ele sumiu na floresta.

O final do texto de Mauro o encontra já inchado de auto-importância, dizendo que está impaciente à espera de outra biografia. Não tenho como afirmar isso, mas suspeito que até sei de quem é que espera biografia que mereça o texto laudatório. O fulanismo é a doença juvenil do compadrio.




segunda-feira, 14 de agosto de 2017

MEU AMIGO MOYA




Eu, Sidney Gusman e o mestre Álvaro de Moya em 2009




Em 2012, como fazia costumeiramente, o Álvaro de Moya me procurou na redação. Tivera uma ideia para um artigo que queria publicar e me deu o artigo. Era sobre Marilyn Monroe. Eu nunca achei uma brecha para publicar, tinha que convencer editores e isso me desgastava sempre. Fiquei com o artigo. Moya nunca se chateou. Eu o conheci em 1987, quando cheguei a São Paulo. Como todo mundo sabe, ele era O amigo de Will Eisner. A Brasiliense estava lançando Contrato com Deus e traria Eisner a São Paulo, ele me disse. "Você não quer ir esperar ele comigo no aeroporto?". Fui, voltei com Will e Álvaro de carro até o hotel onde ele se hospedaria. Ele me deu o telefone de Jules Feiffer e me trouxe até a redação Jerry Robinson, o criador do Robin. E depois trouxe para almoçar conosco o maior de todos os meus ídolos dos quadrinhos, Ivo Milazzo. Thiago Queiroz fotografou o Milazzo no heliporto do edifício. Eu tomei chope com Ivo Milazzo no Astor, na Vila Madalena, e fiquei amigo dele. Ele me apresentou Howard Chaykin. Ah, e eu ia me esquecendo do argentino Quino e do italiano Serpieri, que ele trouxe de carro para me apresentar em uma padaria ou no café do Sesc Consolação.

Ele me convidava para participar das palestras onde ele, Moya, evidentemente, era a única estrela possível, porque era amigo de todo mundo. Mas ele gostava de mim, e eu dele.

Álvaro morreu hoje, após sofrer um AVC do qual eu nem tinha sido informado.

Sem saber mais o que dizer dessa lenda dos quadrinhos brasileiros, eu publico aqui o texto inédito dele sobre como conheceu Marilyn Monroe no tempo em que viveu nos Estados Unidos. Ele escreveu o artigo porque estava indignado com a indicação de Michelle Williams ao Oscar por sua atuação em Sete Dias com Marilyn. Ele chamou de "avacalhada academia".

-------------------------------------------------------------------------------------------------------

Em 1958, tive a sorte de conhecer Marilyn.

No elegante prédio no East Side, em Nova York, com direito a porteiro com roupa de
almirante, toquei a campainha do apartamento a fim de entrevistar Arthur Miller para a
imprensa brasileira.


Vozes femininas ouvidas me assaltaram de excitação... e se ela estiver aí? Abre-se a
porta e Marilyn Monroe está diante de mim! Sem gaguejar, apresento-me como o
repórter brasileiro que veio entrevistar Mr. Arthur Miller. Ela me faz entrar na ante-sala.
Uma senhora está numa pequena sala à direita, um mini escritório. Cumprimenta-me.

Mas nada disso me interessa, ela está na minha frente. Muito mais linda do que no
cinema. Os cabelos estão livres de laquês. O rosto, sem maquiagem é totalmente pálido,
lembra-me uma criança, cheia de talco. Tem um pulôver grande bege claro, calças de
corduroy marron e descalça naquele enorme apartamento com uma grande sala de
visitas em frente e tudo com carpete branco alto e felpudo. Mas o que chama a atenção é
a aura dela. Tinha estreado sua própria produtora, e terminado seu contrato com a Fox.

Ela declarava sempre em alto e bom tom que ¨dava¨ para qualquer um, menos para
Darryl Zanuck, o ditador da major. E tinha se casado com um dos mais respeitados
intelectuais americanos, em vias de ser preso pelas autoridades por ter se recusado a ser
delator no Senado, durante a comissão de atividades anti-americanas. Ela estava feliz
como nunca.


Chega o grande dramaturgo: é muito alto, ela, descalça, parece mais baixa ainda. Sigo
os dois para um outro escritório maior. Ele se senta na escrivaninha, eu diante dele,
Marilyn, antes de fechar a porta às minhas costas, lembra o marido que tem aquele
outro compromisso. Ele me pergunta quanto tempo eu preciso para entrevistá-lo:
quarenta minutos. Ela sai. Exatamente quarenta minutos depois ela abre a porta e
anuncia que eles já chegaram. Eu me levanto. O escritor me manda sentar de novo e
pergunta se estou satisfeito. Digo que sim.


Ele me acompanha até a porta de saída. Falo que, se soubesse que ela estava aqui, teria
trazido minha máquina fotográfica. Ele diz que não permitiria, pois meu pedido era
apenas para entrevistar a ele. Recolhi-me em minha humilde insignificância pois
esquecera que os americanos são assim. Pedi, então fotos dos dois para ilustrar a
matéria. Ele me deixou no hall e entrou na salinha com a senhora e começou a
selecionar as fotos. Lá no sofá, dois homens engravatados estavam com a estrela.


Quando ela me viu na porta, em pé, veio fazer sala em gesto de notável atenção.
Aí, resolvi atacar. Nada de abraços e beijos, fanzoca! Revelei que fazia parte de
um grupo de jornalistas críticos de cinema que seguiram sua carreira desde os primeiros
filmes. Disse que vimos  All About Eve, Love Nest, Love Happy e até Girl of the
Chorus, todos filmes em que ela tinha pequena participação. Ela se surpreendeu. Vocês
viram tudo isso? Sim, e notamos sua personalidade forte desde as primeiras aparições
em Hollywood. Comentei que o único filme dela que não vira foi The Prince and the
Showgirl, primeira produção dela. Ela disse que o filme não foi bem sucedido.


Faço um parêntesis para citar uma coletiva de imprensa quando ela anunciou sua
produtora. 
(Disse aos repórteres que gostaria de fazer a personagem Grushenka, no romance Os Irmãos Karamazov, de Fiodor Dostoievsky. Os jornalistas americanos regorgitaram: a loira burra de Hollywood falando do grande escritor russo? Ela, com aquela candura, fingindo ser a loira burra da Meca do Cinema, declarou: alguém aqui já leu Dostoievsky? Silêncio. Nenhum dos jornalistas norte-americanos tinha lido um livro

sequer do autor. Depois de um tempo, Marilyn declarou que tinha lido e achava que
poderia ser Grushenka. Uma lição não aprendida pela mídia. Esta procurou Billy Wilder,
que confirmou com seu grande senso de humor e mordacidade: claro, Hollywood vai
filmar Os Irmãos Karamazov, depois The Return of the Karamazov Brothers, em
seguida, The Karamazov Brothers Rides Again e of course, Abbot and Costello meets
The Karamazov Brothers! A MGM filmou o romance, devidamente vulgarizado na
Fábrica de Sonhos, e colocou Maria Schell no papel da heroína russa!.


Naquele inesquecível momento de minha vida, na ante-sala, diante de Marilyn, disse
que achava seu melhor filme até agora
O Pecado Mora ao Lado/Seven Years Itch. Ela
achou uma coincidência. Esse filme foi dirigido por Billy Wilder, o mesmo que fará seu
próximo filme, que será produzido – e apontou para a sala – pelos Mirisch Brothers. Eu
me espantei de ver aqueles produtores famosos engravatados à procura da estrela.

Marilyn me disse que o título da película seria Some Like it Hot. Perguntei o que
significava isso e explicou: hoje é cool jazz. Mas outros preferem hot jazz, seria uma
comédia com gangsteres nos roaring twenties. Nós não sabíamos que
Quanto mais
Quente Melhor viria a ser uma das maiores comédias já feitas pelo cinema. Concluí
nosso encontro, declarando que a nossa turma do Brasil seguidora cinema (Rubem
Biáfora, crítico de O Estado, Walter George Durst, José Júlio Spiewack, Syllas Roberg),
achava que ela não era uma estrela e sim uma atriz. Ela agradeceu, de verdade. Arthur
Miller chegou com as fotos e acabou com minha alegria.


Desci para a rua e na Quinta Avenida, me senti um Gene Kelly, um Fred Astaire sem
talento, apenas imitei Li’l Abner, o Ferdinando, e saltei, batendo os calcanhares no ar.
No dia seguinte, na CBS Television, onde estava estagiando, os colegas
reclamavam: esse brasileiro vem aqui, toca a campainha e a Marilyn Monroe abre a porta para ele?



Álvaro de Moya


segunda-feira, 17 de julho de 2017

QUANDO AS BANDAS MORREM






De cima para baixo, as bandas Wander Wildner, Almirante Shiva e Seu Pereira e Coletivo 401

fotos de ANDRÉ DONADIO





Em maio, um aneurisma cerebral matou o baixista Pedro Souto, garoto de apenas 23 anos, da banda brasiliense Almirante Shiva. O grupo já tinha firmado um compromisso com o festival Paraíso do Rock no Paraná, então veio cumprir com sua palavra e tocar com um amigo no lugar do parceiro que morreu. Veio se despedir.

No sábado, no gigantesco galpão do CTG da pequena Paraíso do Norte, de apenas 13 mil habitantes, Almirante Shiva agigantou-se no palco. Um power trio de fundações pinkfloydianas e peso zeppeliniano, psicodelia com lápis nos olhos, visual de cartum do Robert Crumb, a banda fez a sua despedida com um show de puro transe, lisérgico, visionário.

Pouco antes do Almirante Shiva tocar, também Wander Wildner tocou com seu grupo, que incluía a baixista Georgia Branco (ex-Mercenárias) e a baterista Pitchu Ferraz (ex-Nervosa), duas instrumentistas saídas de bandas riot girrls.

Wander andou cabisbaixo depois de polêmica na qual se envolveu em 27 de maio no Fatiado Discos, um bar na Alfonso Bovero, no Sumaré, após citar no palco uma canção de 2007, Eu queria me casar, e ser acusado de machista e racista. Wander não tinha intenção de ofender, mas muita gente se ofendeu e ele acabou reconhecendo que a música, feita numa época em que não se debatia adequadamente as posturas de opressão de gênero, não é adequada.

“Essa letra me foi apresentada como transgressora (eu não era o letrista da banda). Violência de um personagem psicopata com estética de filme de terror. Essa era a desculpa da época. Pura idiotice, ridículo. Não sei como deixei isso passar. Realmente, não tem desculpas. Depois percebi que estávamos na verdade reforçando o padrão machista imposto pelo patriarcado, e que isso é na verdade a base desse 'sistemão' que vivemos. Então, não tem nada de transgressor aí. Definitivamente, não me orgulho disso, muito pelo contrário, morro de vergonha e de raiva de mim”. Novos tempos, novas posturas.

Mas o fato é que Wander ficou abatido com o tribunal do facebook, com os dedos apontados na cara, e acabou cancelando todos os shows da temporada. Por sorte, manteve o do Paraíso do Rock por amizade com o promotor, Beto Vizotto. O show foi extraordinário. Há um componente de expressionismo insano na performance de Wander, que é muito conhecido pelo seu pioneirismo no punk rock gaúcho com Os Replicantes, nos anos 1980.

Além da alta octanagem sonora de seu power trio, Wander está ficando melhor com o tempo, com a performance infatigável e a alienação charmosa de coadjuvante do filme Arizona Baby, dos irmãos Coen.

“Minha vontade é ser bonito, mas eu não consigo. Eu sempre volto atrás”, diz Wander, no Mantra das Possibilidades, talvez um dos clássicos mais inteligentes e com pegada de haicai de Paulo Leminski que exista no cancioneiro punk nacional.

Mas era uma noite de grandes surpresas no festival. Tão bons quanto Wander Wildner e Almirante Shiva, os paraibanos do Seu Pereira e Coletivo 401 instauraram um salão de baile no CTG, mas sem vanerão.

Com trompete e trombone no amálgama, Seu Pereira parece se alimentar das melhores tramas de Mundo Livre S/A, fundindo baião com funk, samba-rock com martelos agalopados, Criolo com Chico Science. É impossível resistir ao Seu Pereira. No meio de uma levada, ele enfia um dos mais famosos desafios dos repentistas nordestinos, Eu Quero Que Você me Diga o Nome de Vinte Menina.

Jonathas Falcão (evadido de duas faculdades, uma de música e outra de publicidade), vocalista, guitarrista e bandleader, disse que em breve estarão chegando para morar no Sudeste.

O Paraíso do Norte é um pedaço perdido daquelas utopias dos festivais que já morreram pelo gigantismo e pela ambição. Ali, ainda são regras os conceitos de paz & amor & solidariedade & descompromisso & irmandade & colaboração. Micro, mas grande.

Bem ali, no friozinho do Paraná, entre uma pale ale e uma costela na brasa, o cidadão que olhar apuradamente para o céu limpo vai enxergar bandas morrendo e bandas nascendo. Todas em explosões grandiosas que iluminam o céu durante muito tempo ainda.

domingo, 11 de junho de 2017

FELIZ REGINA


poeta no espelho (foto: jotabê medeiros/agência poltrão)


Noite passada fui a um sarau de poesia na Vila Romana.
38 Social Clube era o endereço. Havia poetas de cavanhaque, poetas de óculos escuros, poetas do vídeo e da palavra, poetas que declararam seu amor pelos loucos, poetas que queriam o efeito de um meme de internet e outros que lamentaram divertidamente não ter morrido por volta dos 20 anos, como Álvares de Azevedo.
Tomavam vinho e coca-cola e deram boas risadas.
Foi então que conheci Claire Feliz Regina.
Ela não era poeta até os 79 anos. Ou era, mas ocupava-se no trabalho de auditora da Receita Federal.
Agora, ela vai fazer 90 anos.
Foi descoberta pela poeta Elisa Lucinda.
Claire fala de maneira desconcertantemente simples de sexo e de sua imaginação feminina no coração das obsessões do mundo masculino.
Na despretensão literária de Claire, esconde-se uma poeta astuta. À sua maneira, reinventa o poeta fingidor de Pessoa.
"Uma mulher como eu/Sempre mente/Mente o que não sente/Mas sente muito o que mente".
Ela me lembrou a Orides Fontela, uma escritora que existiu antes da rendição, rejeitando o estereótipo de idosa.
Em 2014, a Patuá lançou seu livro intitulado Poemas Eróticos.
Pedi para fazer a foto dela na frente do espelho da Sociedade dos Poetas Vivos. 
Ela me disse que sempre leva um de seus livros para sortear entre os presentes. Dessa vez, ela tinha me sorteado antes e me ofereceu o livro. Só disse que estava cansada demais para fazer a dedicatória ali, pediu que eu a encontrasse no Facebook e pedisse sua amizade, que depois ela escreveria para mim.

domingo, 4 de junho de 2017

FOXEY LADY



malina moye entra em cena pelo meio do público ao iniciar seu show no samsung blues festival


Eu não sou guitarrista, mas vi shows de Jeff Beck, Joe Bonamassa, Eric Clapton, David Gilmour, Robben Ford, Jimmy Page, Steve Vai, Nile Rodgers, Dereck Trucks, Mark Knopfler, Warren Haynes, Johnny Marr, B.B.King, Buddy Guy, John Pizzarelli, Edgard Scandurra, Robertinho do Recife, Lanny Gordin. Também vi Ritchie Blackmore, Pete Towshend, The Edge, Toni Iommi, Keith Richards, Joe Strummer e outros com suas bandas.

Não estou me “gambando”, como dizia um amigo antigo gozador. Essa introdução é só para dizer que não vi muitas mulheres guitarristas. Vi Joan Jett, um clássico. Também vi Kaki King. E Joni Mitchell. Vi Ana Popovic, blueswoman já de grande popularidade, e ela é de fato uma grande guitarrista. Mas, emparelhando, nenhuma integraria um Top 10 com os homens das últimas três gerações, ao menos não as que eu vi tocando.

Acredito que as mulheres não fincaram posição no Olimpo da guitarra porque podem ter se intimidado face a uma linguagem que ficou cercada de símbolos masculinos, do falo à potência, e também (como no futebol), uma atividade de fanática adoração masculina, feita de deuses e sacerdotes machos.

Tudo isso para concluir: Malina Moye está entre os 10 melhores novos guitarristas da atualidade, entrou tranquilamente no Top 10. A Guitar World a coloca como uma das 10 Melhores Guitarristas Mulheres, mas ela ocupa o mesmo lugar entre os homens. Não sou guitarrista, não tenho elementos tecnocráticos para afirmar isso, mas estou falando como uma mera Testemunha do Riff Eterno.

Malina Moye tocou na noite de sexta-feira no Samsung Blues Festival, em São Paulo. Ela podia ter se esmerado em fazer parte do time do blues para agradar a plateia, mas o fato é que ela é muito mais do funk e do R&B. 

Ela é amiga de Bootsy Collins e foi ao programa do Arsenio Hall. Ela tem Prince como referência. E Stevie Ray Vaughan. Portanto, ela faz barulho, é estridente e instala o caos, não o armistício.

Malina Moye entrou em cena com sua guitarra tocando pelo meio da plateia. Antes dela aparecer, a banda fazia um aquecimento agressivo, e era uma banda de jam funky, com bateria e baixo mais altos, um teclado Korg, outro Yamaha, um guitarrista base. E mais uma vocalista soul sista de apoio, inacreditável. Era mais Sly and the Family Stone do que blues elétrico. Malina é sexy e abusada.

Ela tem canções que tocam no rádio, disse que uma dessas músicas, Alone, que começa com samples e uma gravação distorcida, chegou às paradas da Billboard (não fui checar). Quase tudo é acelerado, tem um peso de periferia, como Ky-Otic, e ela chega a tocar esfregando as cordas da guitarra no pedestal do microfone, mas tem baladas fabulosas, como You're the One.

Os solos de guitarra de Malina têm virtuosismo, velocidade, imprevisibilidade, tudo isso. Mas têm algo mais: carregam um depoimento sobre a vida e uma emoção que criam rara intimidade com nossos sentimentos. Alcançam algo muito profundo.

O equipamento do festival ferrou com ela a certa altura do show, o som estourando e a guitarra sumindo, mas ela não parou o show para reclamar. Ela seguiu tocando e improvisou, cantando, enfiando na música um apelo para que devolvessem “my fucking guitar, my fucking wah wah”. Gênio. Terminou tocando Jimi Hendrix, Foxy Lady.

Considero que o show dela foi um dos grandes acontecimentos do ano. Se eu estiver enganado, terei sempre aquela certeza suave (e arrogante) de que acertei solitariamente.