sábado, 12 de maio de 2018

O CAÇADOR DE ORELHAS













“Sou caçador de orelhas, falo pra caramba!”, avisa Robertinho Silva.

Um dia, em setembro passado, acordei cedo em São Luis do Maranhão e fui ouvir uma aula-show de Robertinho, lendário percussionista e baterista.

Ele toca e conta sua história e a dos instrumentos e no meio de tudo dá aquelas risadas que são praticamente uma revelação. Fiz uma série de anotações e fotos que ficaram meio perdidas aqui alguns meses.

Filho de pernambucanos, Robertinho nasceu em Realengo, Rio de Janeiro, há 76 anos, quando aquilo ali era praticamente zona rural.

“Minha mãe era boleira. Fazia bolos muito bem. Eu pegava aquela latinha de Fermento Royal vazia, enchia de milho e ficava batucando. Eu não preciso de instrumentos porque eu faço instrumentos”.

O jeito de Robertinho contar a história é feito de breques e viradas improváveis. E muito ritmo.

“Um instrumento que marcou muito a minha vida foi esse aqui, a frigideira. Esse preconceito com a percussão vem desde 1900 e antigamente. O que é isso? Um neguinho tocando frigideira? Eu tinha vergonha de tocar na Zona Sul do Rio. Aí o Airto Moreira me viu tocando e me levou para os Estados Unidos para tocar frigideira com ele”.

Havia um soldado chamado Jair na pensão de uma tia, uma casa que alugava quartos no bairro de Oswaldo Cruz. O soldado tinha uma bateria no quarto. Robertinho era menino e entrava escondido no quarto quando o soldado não estava.

Robertinho sempre pedia: “Não fala pro soldado que eu mexi na bateria dele”. Era coisa que ele tinha visto no cinema, contou. Mas o soldado o viu tocando e perguntou: “Beto, você toca bateria? Toquei um baião pra ele”. A levada o soldado não conhecia e acabou tocando bongô com o grupo do soldado Jair.

Uma vez foi ao Méier comprar uma calça Lee e o dinheiro não dava. Viu uma bateria e levou a mãe para convencê-la a ajudar a comprar o instrumento, mas só conseguiu mesmo com extrema boa vontade do vendedor.

Em seguida, Robertinho se senta e toca o cajón com maestria, mas parecendo que é com displicência. “Já fui jardineiro. Nunca ninguém me ensinou nada. Eu sou autodidata em tudo. Não tinha bateria, ficava tocando caixote. Até que conheci o cajón. Soube depois que foi o Rubens Dantas que convenceu o Paco de Lucia a usar o cajón. Era um baiano que tinha criado o instrumento do flamenco".

"Tamborim não veio, vou tocar isso aqui. O chamado objeto sonoro".

Robertinho se diverte com suas próprias tiradas. Fulano era “inteligente, mas o lado burro dele era mais forte”.

"Nunca fui burro, mas eu sei. Mais de 70 anos e ainda ouço isso. Estava num estúdio de gravação e o artista distribuiu partitura pra todo mundo, menos pro percussionista. Mas o que é isso? Que preconceito é esse? Meus toques de tamborim eu sei escrever. Até hoje, tô estudando isso".

Quando estava em vias de desembarcar nos Estados Unidos, tocava com Caetano Veloso e disse: “Caetano, vou chegar nos USA e falar pro guarda: “My name is Bob Silver and i play very well!”. Esborracha de rir com seu próprio mimetismo da história.

“De repente, Jovem Guarda. Roberto Carlos. Todo mundo fala mal dele, mas para mim é gente boa”. Os nomes vão povoando sua narrativa. Jorge Negão, passista e ritmista da Portela.

"Cheguei a São Luis, queriam me levar para ouvir um boi. Eu disse que boi que nada, não quero ver boi. Mas acabei indo, e pirei. Aquele ritual, nego esquentando os tambores. Comecei a chorar. 'Toma catuaba que tu melhora', disse alguém. Chegaram e avisaram: 'Já são 8 horas da manhã, você tem que dar aulas daqui a pouco!'".

“Levei um tambor de criola para os USA. No aeroporto, os caras me disseram: ‘Meu irmão, comprou uma árvore?”.

"Não é que eu diga: agora vou estudar essa levada. Vai nascendo".

Ele vai ensinando e divertindo. "Gene Krupa botou tambor na bateria".

"Eu não quis ser ritmista de escola de samba. Para que serve a mão esquerda? Para dar tchau".

Tem 4 filhos bateristas. É o negócio da sua vida, diz. "Thiago, de 33 anos, malandrinho otário, me pede instrumento emprestado. 'Você nem usa'. Folgado!”.

"O agogô era proibido na escola de samba. Coisa de macumba. Mas sempre tem um maluco que invade a área. Já fui malandro. Eu sei".

"Um instrumento que não vai com a minha cara é a cuíca. É como dizem os mineiros: o trem fica enguiçado".


Em 1964, Robertinho foi levado para tocar com Cauby Peixoto na Boate Drink. Trabalhou um quarto de século com Milton Nascimento. No final dos anos 1960, integrou o mitológico Som Imaginário, que tinha Wagner Tiso, Luiz Alves, Frederyko, Zé Rodrix e Tavito.

Tocou com Lee Morgan, Airto Moreira, Wayne Shorter. "Airto é meu ídolo. Gravei um disco com ele, Identity".

Em mais de 6 décadas de profissão, tocou ainda com João Donato, Tom Jobim, Egberto Gismonti, Flora Purim, Raul de Souza, Sarah Vaughan, Chico Buarque, Gilberto Gil, Gal Costa, Bud Shank, George Benson, João Bosco e mais uma centena de outros artistas daqui e de outros lugares.

Acordar cedo para ouvir Robertinho Silva é uma doideira.


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